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Trecho de carta de um pastor protestante inglês recém-chegado a São Paulo por volta de 1850:

Enquanto me aproximava de San Paulo [sic] e olhava os prados verdejantes pontilhados de gado, as casas brancas cercadas de árvores e as distantes montanhas no horizonte, parecia contemplar, como em anos passados, cenas similares da Burgúndia, do Piemonte e da Nortúmbria.

Senti um respeito mais profundo por San Paulo do que por qualquer outra cidade Sul-Americana que já visitei. Era maior do que eu antecipara e suas casas, com seus largos beirais, dão-lhe uma aparência não muito diversa daquela de Vevay, no Lago de Genebra. Esses beirais, devo dizer, estendem-se sobre as ruas por cinco ou seis pés, protegendo os transeuntes da chuva e do sol e dando um pitoresco aspecto suíço ao todo.

Meus sentimentos de respeito, porém, emergiram não do tamanho da cidade ou de seu caráter pitoresco mas porque há um ar mais intelectual e menos comercial em seu povo do que em qualquer outra parte do Brasil. Não se ouve a palavra dinheiro constantemente tocada em seus ouvidos, como no Rio de Janeiro. Não há menos de quinhentos estudantes de direito na faculdade legal aqui estabelecida e sua aparência realmente lembra a escola de Direito Dane, de Harvard, e os estudantes de Heidelberg. O gênio dos estudantes é o mesmo em todo o mundo – cheio de trotes, diversão e travessuras. Na semana de minha chegada, várias dezenas destes camaradas haviam “furado a fila” (como um deles expressou com elegância) no teatro, de modo que o Presidente da província teve que ordenar a presença de um reforço policial na próxima representação e não foi fácil preservar a ordem.

Nem tudo era divertido ou bucólico, porém. O pastor já reclamava da lentidão com que os negócios e as viagens eram conduzidos no Brasil:

Hoje avancei trinta e duas milhas, o que, como você sabe, é a jornada de um bom dia, pelo que os paulistas viajam […] Aqui estou eu, parado, porque as pessoas não fazem nada d’apressado (in a hurry) no Brasil. Desembarquei meus dois baús em Santos no dia 14 [de junho] e eles não chegaram antes do dia 23 e hoje passei o rancho onde a tropa [com a bagagem] acampou-se na noite passada. Hoje à noite eles alcançam um ponto duas milhas além de San Paulo. Em tal ritmo, só vão chegar ao seu destino — Limeira — por volta de 14 de julho, no dia em que pretendo embarcar para o Rio e as províncias do Norte. Mas, se possível, vou alugar mulas extras, tomar minha bagagem [dos tropeiros], transferi-la para meus animais e prosseguir até chegar à colônia de Vergueiro (a mais de cem milhas daqui) pelo sábado à noite.

Segundo os relatos do pastor, os viajantes brasileiros não passavam o dia todo na estrada: geralmente partiam ao amanhecer e paravam para acampar ou em algum rancho ou venda de beira de estrada lá pelas duas da tarde. Mesmo em trechos seguros ou conhecidos não se viajava durante a noite, nem quando havia uma boa noite enluarada. Os tropeiros temiam topar com animais selvagens, especialmente onças, e salteadores.

Embora as condições das estradas tenham melhorado muito – ao menos em relação àquela época – não é de hoje que vem a ineficiência do nosso principal porto e do nosso transporte.


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