trompete flamejante

Depois de um show cheio de efeitos pirotécnicos, o guitarrista quebra sua guitarra e a incendeia no palco, para delírio de sua audiência. Pat Vidas acha que usar fogo como efeito especial não devia ser exclusividade de roqueiros. Na virada dos anos 1970 para os 80, Vidas tentou, literalmente, botar fogo na cena do jazz com seu Musical instrument adapted to emit a controlled flame [Instrumento musical adaptado para emitir uma chama controlada]. Nada mais é que

Um trompete flamejante ou um instrumento musical que emite uma chama sob controle do músico que toca o instrumento. A intensidade e duração das chamas são controladas pelo músico ao ativar uma válvula de controle que controla [sic] a quantia de gás que emana de um cartucho montado no instrumento. O gás é direcionado através da tubulação, de modo a emanar da extremidade fulgurante [no inglês há um trocadilho aqui: “flared end” é tanto a boca alargada de um trompete quanto pode ser uma ponta chamuscada] do instrumento e entra em ignição por um mecanismo de centelha que é operado pelo músico.

Isso dá um sentido completamente novo à expressão Hot Jazz. E só, pois o invento registrado pela patente nº. 4.247.283 [pdf], aprovada em 27 de janeiro de 1981 nunca entusiasmou o público jazzista.

Nativo de Wantagh — uma cidadezinha de Long Island, no litoral de Nova York sobre a qual você nunca deve ter ouvido —, Pat Vidas deixa implícito em suas justificativas que foi inspirado pelos shows de rock cada vez mais performáticos dos anos 1970:

Como pode-se averiguar, muitas performances de músicos ou artistas são acompanhadas por efeitos especiais de modo a ressaltar ainda mais a qualidade da apresentação e para entreter a audiência. Há muitos grupos modernos que empregam substanciais efeitos visuais e sonoros em conjunção com suas performances e que têm ganhado ampla popularidade com base na utilização de tais efeitos adicionais em conjunto com o formato musical.

O que Vidas parece não ter compreendido é que, bem, trompetes não são lá muito performáticos. Mesmo em chamas. O inventor garante que a operação do instrumento de sopro flamejante é “absolutamente seguro para uso e confiável para operação.”

Se a ideia de trompetistas de jazz piromaníacos já parece patética, os aspectos técnicos do instrumento são ainda mais patéticos. E como sabemos que Vidas é um fã de jazz? Seu lança-chamas para instrumento de sopro é puro improviso jazzístico:

trompete flamejante fig. 2

Com referência à FIG. 2, mostra-se a roda de ignição [spark wheel] 26. A roda de ignição 26 é rotavelmente montada no interior da boca do trompete. A roda de ignição tem um sulco periférico ao redor do qual uma corda ou cabo 30 é passado. Uma extremidade do cabo 30 é permanentemente fixada ou presa ao corpo do trompete por meios do dispositivo prendedor adequado 31.

O cabo 30 é direcionado ao redor da roda de ignição 26 e está ligado, através da mola 32, a um interruptor ou pistão 33 que é montado num suporte adequado do trompete. Como pode-se ver pela FIG. 2, quando se pressiona o botão 33, a mola se estica para permitir a rotação da roda de ignição 25 [sic]. Ao girar da roda de ignição 25 [sic] a pederneira em contato com a roda emite uma faísca. Se o músico ativar a válvula de controle 17, uma chama seria emitida pela boca do trompete, produzindo, assim, o efeito do trompete flamejante.

Na prática, não é muito diferente de um efeito especial barato com um isqueiro amarrado ao trompete (e talvez uma cânula para lançar a chama pelo bocal). Isso explica, portanto, porque Vidas não fez uma fortuna com seus sopros flamejantes: um verdadeiro jazzista poderia improvisar efeito parecido com um isqueiro meio desregulado.

Convenhamos: espetáculos de jazz não são tão baratos. Ter que pagar royalties por um efeito especial relativamente simples (porém inadequado ao contexto) não atrairia mais gente.

***

Bônus patético: há um erro na linha 13 da coluna 4, onde Vidas apresenta suas reivindicações. No original, a primeira destas reivindicações lê-se assim: “1. uma combinação adaptada para uso com um instrumento de sopro do tipo que tem uma seção em boca de sino para emissão”. Emissão do quê? O resto deste ponto foi inteiramente omitido. Não sabemos se a falha foi do inventor ou do USPTO. Pra piorar, o erro só foi notado quase três meses após a aprovação da patente. Para garantir a correção do erro e esclarecer a reivindicação primeira, uma errata oficial — o Certificado de Correção — foi anexada à patente em 14 de abril de 1981. Duas vezes. Aparentemente, até agora ninguém se deu conta da repetição da correção… #doubleFAIL.

Bônus patético nº. 2: há um vídeo de um par de trompete e sousafone (espécie de tuba) flamejantes. Ambos têm um sistema mais complicado — mas não menos patético — que o da patente apresentada.


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