Faux-monnayeurs à l'œuvre. Repro DDM.
Falsificadores de Moedas encurralados, xilogravura de Richard Brend’Amour (1831-1915). A oficina de William Chaloner deve ter sido semelhante à imaginada pelo artista alemão no séc. XIX.

Responsável pela falsificação de moedas, papel-moeda e bilhetes de loteria, Chaloner sempre se safou acusando seus comparsas — até ser investigado por Isaac Newton.

FILHO de um tecelão, William Chaloner nasceu em Warwickshire em 1650. Agitado demais para ser controlado pelos seus pobres pais (talvez fosse hiperativo), ele foi mandado como aprendiz numa fábrica de pregos ainda na infância. A fábrica ficava em Birmingham, cidade notória pela falsificação de moedas. Foi nesse ambiente que Chaloner começou uma longa carreira de falsário.

Ambicioso, o jovem saiu do interior para Londres por volta de 1680, mas foi barrado de trabalhar oficialmente na capital pelas guildas locais. Assim, Chaloner passou a fabricar e vender clandestinamente “relógios de latão” — que continham dildos. Na época, há relatos de que brinquedinhos sexuais importados da Itália eram vendidos na rua de St. James. Esse negócio possivelmente lucrativo não foi o bastante para Chaloner e ele logo passou a atuar como curandeiro e pseudo-médico (quack doctor).

Mais uma vez, ele tentou levar uma vida regrada durante algum tempo. Segundo o Oxford National Dictionary of Biography, “ele deve ter sido o William Chaloner que se casou com Katharine Atkinson em 31 de março de 1684 […] e certamente teve vários filhos. Mas esse período relativamente respeitável da vida de Chaloner terminou com uma suspeita de roubo, forçando-o a fugir de casa”. Ele passa alguns anos escondido em local desconhecido e ressurge nos registros em 1690, atuando como envernizador. Neste ofício ele deve ter aprendido a douração, isto é, o revestimento de metais para parecer ouro ou prata.

Enquanto isso, depois de uma longa guerra civil, o sistema monetário britânico virou uma bagunça na segunda metade do século XVII. As falsificações eram tão comuns que se estima que uns 10% das moedas em circulação em 1696 eram forjadas. Havia vários problemas por trás disso, mas os principais eram três: a produção manual, a redução de peso e a desvalorização. Moedas de prata só passaram a ser produzidas mecanicamente pelo Royal Mint (a Casa da Moeda inglesa) em 1662. As moedas fabricadas antes disso eram facilmente falsificáveis e muitas vezes tinham suas bordas cortadas ou eram afinadas, o que reduzia seu valor, que era proporcional ao peso.

A mecanização, porém, não garantiu a segurança. A raspagem das moedas foi solucionada com a adoção de bordas lavradas, mas logo passaram a aparecer itens forjados com base em estampas falsificadas ou moldes feitos a partir das próprias moedas. Havia ainda outro tipo de desvalorização: a prata das moedas valia mais em Paris e Amsterdam do que em Londres. Assim, grandes quantias de moedas eram derretidas e desviadas para o exterior. Diante disso, o Parlamento criou o Banco da Inglaterra (1694), que atuaria como uma espécie de banco central. O Lorde do Tesouro, William Lowndes, solicitou a ajuda de Isaac Newton [1642-1727] para combater a falsificação.

Medallion showing 16th century coinmakers at work - headstuff.org
Fabricantes de Moedas, retratados num medalhão baseado numa gravura do século XVI ou XVII. Esse ofício só passaria a ser mecanizado e centralizado às vésperas do século XVIII.

Chaloner havia começado a produzir moedas falsas em 1691, fabricando pistoles francesas, que valiam 17 xelins, com uma liga de prata. Mais tarde, ele produziria guinéus, coroas e meia-coroas, além de notas de dinheiro e bilhetes de loteria. Ele não era o único falsificador, claro, mas ganhou renome nesse submundo pela produtividade e a qualidade do serviço. E pela indiscrição também: Chaloner, que sempre foi um pobretão, logo comprou uma grande casa de campo em Knightsbridge, uma carruagem e passou a se vestir como um gentleman.

Essa boa vida, claro, não durou muito. Em meados de 1692 outro falsário, William Blackford, foi condenado por circulação de moedas falsas. Chaloner foi denunciado por Blackford e se escondeu mais uma vez, até depois do enforcamento do dedo-duro. Algum tempo depois, Chaloner se junta a Thomas Holloway e compra uma casa em Egham, Surrey. Longe de Londres, a casa de campo era o lugar perfeito para abrigar as barulhentas máquinas de cunhagem sem chamar a atenção. Nesta operação também entrou John Peers, especialista em fusão de metais, mas ele acabou detido por outros motivos em 1697. Levado ao tribunal em 18 de Maio, Peers denunciou o esquema de Egham em troca de redução de pena — a delação premiada vem de longe.

Newton foi informado sobre Peers por acaso, meses mais tarde, e recrutou-o para uma ação infiltrada digna de cinema. Peers voltaria a Egham, onde ajudaria Holloway a produzir 18 moedas falsas de xelim. Foi com base nessas moedas que Newton mandaria prender o grupo. Não seria a primeira vez que Chaloner enfrentaria a prisão.

Ao mesmo tempo em que falsificava suas moedas, Chaloner passou a acusar funcionários do Royal Mint de corrupção — não é de hoje, portanto, que gente corrupta diz ser contra a corrupção. Isso chamou a atenção de Charles Mordaunt, Conde de Peterborough [1658-1735] e ex-ministro do Tesouro. Mordaunt viu aí uma oportunidade de atacar seu adversário político, Charles Montagu, Conde de Halifax [1661-1715]. O Conde de Peterborough fez Chaloner apresentar suas denúncias ao governo.

Foi um tiro pela culatra, pois a investigação aberta pelo Royal Mint revelou os podres do próprio Chaloner. Ele foi preso no começo de 1696 e, mesmo da cadeia, escreveu cartas a Montagu revelando uma suposta conspiração na Casa da Moeda. Jurando “nunca ter feito um guinéu na minha vida”, Chaloner foi solto alguns meses mais tarde, depois de denunciar seus conhecidos no ramo pela produção de moedas abaixo do peso oficial. Ele dedurou até um tal de Chandler, que na verdade era um dos seus pseudônimos.

Sempre incapaz de fechar o bico, Chaloner continuou acusando as autoridades monetárias de corrupção e tentou se oferecer ao Parlamento como um especialista contra falsificações. Por acaso, numa dessas suas peregrinações ao Parlamento, Chaloner foi reconhecido por Newton, que ordenou sua prisão pelo caso Egham. Preso novamente, o destino do falsário dependia do testemunho de Thomas Holloway. Mesmo preso, ele deu um jeito de resolver isso: através de um taverneiro, pagou 20 Libras a Halloway para que o comparsa se escondesse na Escócia. Sem provas, o falsário-chefe acabou solto sete semanas mais tarde.

Sir Isaac Newton by Godfrey Kneller - headstuff.org
Isaac Newton em retrato de Godfrey Kneller (1689). Alguns anos mais tarde o físico, matemático e fundador da Royal Society atuaria como investigador de falsificadores de moedas.

Apesar de tudo, Chaloner teve tempo de fazer algumas inovações no ramo da falsificação. Ele foi o primeiro a forjar versões falsas do papel-moeda, introduzido recentemente pelo Banco da Inglaterra como forma de controlar as falsificações monetárias. As novas bank notes de 100 Libras haviam sido postas em circulação em Junho de 1695 e eram impressas num papel timbrado oficial. De alguma forma, Chaloner conseguiu acesso a um considerável suprimento de uma imitação em branco do papel timbrado —e passou a imprimir suas próprias notas de 100 Libras. Ele também passou a falsificar cheques, alterando seus valores com um removedor de tintas que ele mesmo inventou.

Nesses dois casos, Chaloner se safou. Em relação às notas falsas, ele fez uma espécie de auto-vazamento, apresentando às autoridades peças de papel-moeda ainda virgem e denunciando seu impressor e outros conspiradores. Isso lhe deu alguma credibilidade: ele recebeu não só agradecimentos formais do Banco da Inglaterra como ganhou uma recompensa de 200 Libras. Evidentemente, ele denunciou todo mundo menos a si, o que permitiu manter todo o lucro da operação. Quanto aos cheques, ele passou a técnica de falsificação para um tal de Aubrey Price — e pouco depois denunciou Price, que acabou condenado à morte pela “contrafacção de um cheque”. O discípulo de Chaloner acabaria enforcado em 22 de Junho de 1698.

A essa altura, era de se esperar que Chaloner sossegasse para salvar a própria pele, mas ele continuou a se arriscar. Seu novo golpe era literalmente uma aposta: gravar bilhetes de loteria falsos. Não parecia algo muito arricado, pois tecnicamente nem era um crime. Assim, Chaloner passou a estampar bilhetes fakes com um placas de cobre. Mais uma vez, Chaloner seria traído por um dos seus colaboradores: David Davis, outro falsificador de moedas. Preso no final de Outubro de 1698, Chaloner tentou acusar outro colega malfeitor, Thomas Carter, pela impressão dos bilhetes clandestinos.

The Quack by Jan Steen - headstuff.org
The Quack, pintura de Jan Steen (século XVII). William Chaloner começou sua carreira criminosa de modo semelhante a este charlatão.

Era tarde demais para Chaloner. Sua nova prisão foi perfeita para Newton, que vinha montando uma investigação rigorosa contra ele desde o caso de 1697. Agindo como detetive, o físico montou uma rede de espiões e informantes, conseguindo testemunhos de muita gente que conheceu Chaloner ao longo de sua carreira. O julgamento de Chaloner foi realizado em 3 de Março de 1699 e foi presidido por Sir Salatiel Lovell, juiz que tinha fama de ser um carrasco. O falsário enfrentava duas acusações por traição: uma pela cunhagem das pistoles francesas em 1692 e outra pelas coroas e meia-coroas descobertas em 1698.

Do lado da acusação, Newton apresentou oito testemunhas. Entre elas estavam algumas mulheres que passaram pela vida de Chaloner. Catherine Coffey, esposa do ourives Patrick Coffey, declarou ter visto o acusado com as moedas francesas falsificadas. Elizabeth, esposa de Thomas Halloway, deu evidências de como Chaloner havia corrompido o marido para que ele fugisse para a Escócia e não prestasse depoimento no julgamento de 1697. Catherine Carter, apontado mais de uma vez como culpado por Chaloner, testemunhou sobre as habilidades de falsificador do réu e sua participação no esquema da loteria.

Chaloner, por sua vez, teve que montar sua própria defesa, sem nenhum conhecimento das investigações de Newton ou das evidências e testemunhas arroladas no caso — ele sequer teve “presunção de inocência”. Não surpreende que ele tenha fingido enlouquecer durante o processo, insultando todo mundo no tribunal. O falsário não conseguiu falsificar a loucura e não convenceu ninguém quando fez novas denúncias. O júri levou poucos minutos para dar o veredito: Chaloner estava condenado à morte.

Nas duas semanas entre a condenação e a execução, Chaloner escreveu diversas cartas erráticas tanto a Newton quanto a um corregedor de justiça. Nas missivas, ele era ora agressivo e acusatório, ora suplicante, apelando à consciência de seus correspondentes. Tais cartas seriam de fato suas últimas cartadas: o falsário não recebeu qualquer resposta e foi enforcado no dia 22 de Março de 1699. Sua morte não foi imediata e há relatos de que ele passou alguns minutos na chamada “dança do enforcado”, debatendo-se de forma miserável até a morte. Além dos processos e citações dele em documentos oficiais, William Chaloner teve sua vida registrada num opúsculo chamado Guzman Redivivus, publicado por um autor anônimo pouco depois de sua execução.

Este perfil de William Chaloner é o primeiro de Ordem dos Falsários, uma série que será dedicada à vida e às obras de falsificadores de várias épocas e lugares.

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