in musicologia, teoria musical

Tríades, inversões e progressões

José Fornari (Tuti) – 3 de junho de 2019

fornari @ unicamp . br


Vimos anteriormente os 4 tipos de tríades (diminuta, menor, maior e aumentada). As tríades são formadas por 3 notas. Em sua ordem direta tem-se primeiro a fundamental, seguida pela terça e terminada pela quinta. Por exemplo, C-E-G é a tríade maior de Dó, em sua ordem direta (fundamental: C, terça: E, quinta: G). Se invertermos a ordem das notas, teremos 2 novas possíveis combinações: E-G-C e G-C-E. Estas são as inversões da tríade e harmonicamente cumprem função similar à tríade original. A primeira inversão inicia pela terça do acorde e apresenta a sua fundamental (C) uma oitava acima, o que corresponde ao seu segundo harmônico (a repetição de oitava da fundamental). A segunda inversão apresenta a quinta (G) como nota inicial. Porém, o seu segundo harmônico ocorre uma oitava acima, completando assim a sua função de quinta da tríade maior. Apesar de harmonicamente estas inversões manterem a mesma função da tríade original, o distanciamento imposto pela inversão à série harmônica original tem o seu preço cognitivo. Estas inversões são perceptualmente mais distantes do original e assim exigem um maior processamento mental para que possam ser entendidas. Isto pode ser associado a um aspecto sonoro conhecido por “inharmonicidade” (inharmonicity). O grau de inharmonicidade descreve o quanto o conjunto de parciais que compõem um som são percebidos como harmoniosos, ou coerentes entre si. Quanto maior a inharmonicidade, maior o esforço mental necessário para interpretar a tonalidade de um dado som. No caso de sons de instrumentos musicais, como a mesma nota emitida em 3 diferentes instrumentos melódicos e um percussivo (flauta, sax, guitarra e chimbau), a inharmonicidade aumenta na medida em que o som é menos tonal. No caso do som da flauta, o som é normalmente percebido como mais “macio” do que o som de um sax (que possui uma inharmonicidade ligeiramente maior do que a da flauta), que por sua vez é menos inharmônico que o som da guitarra. No entanto, a inharmonicidade dispara para o som percussivo do chimbau, onde esta é tanta que nem é possível se perceber uma nota única (como no caso dos outros instrumentos). A figura a seguir mostra o cálculo da inharmonicidade pra estes sons.

Apesar de cumprirem a mesma função harmônica, as inversões das tríades tem sonoridades ligeiramente diferentes. Esta diferença pode ser vista como uma forma de mudança macroestrutural do seu timbre, algo como ocorreria se a mesma tríade fosse executada em dois instrumentos musicais distintos (por exemplo, um piano e um violão) uma vez que o timbre é caracterizado pela distribuição dos parciais de um som e no caso das inversões das tríades de fato existe uma mudança de ordenação dos harmônicos que compõem cada inversão. Utilizando assim o mesmo algoritmo de medição do parâmetro de inharmonicidade, podemos ver que o seu grau de fato aumenta para cada inversão da tríade maior, confrome mostra a figura a seguir.

No entanto, pode-se perguntar: qual a razão de se utilizar uma inversão da tríade numa progressão de acordes, sendo que esta aumenta sua inharmonicidade, na relação vertical das notas que compõem o acorde. A razão de se optar por utilizar uma inversão de tríade numa progressão reside no fato desta possibilitar a modulação da inharmonicidade no movimento vertical das notas que compõem as tríades. Conforme visto anteriormente a famosa sequência harmônica de 4 tríades: C, G, Am, F, presente um uma enorme quantidade de músicas pop, pode ser executada de diversas formas (ou seja, em diversas inversões). Se a executamos com tríades sem inversão o resultado será este:

Vê-se na imagem que os harmônicos que compõem o som de cada tríade (representados pelas linhas horizontais), especialmente os harmônicos mais relevantes à percepção (localizados na parte inferior da imagem) apresentam uma grande descontinuidade entre acordes, ou seja, os harmônicos se deslocam muito nas mudanças entre tríades, o que faz com que a sequência harmônica seja percebida de modo mais discretizado, com mais “solavancos”, mais descontinuada. Já se utilizarmos a mesma sequência com tríades invertidas de modo a diminuir a distância entre notas durante as mudanças harmônicas, temos o seguinte resultado:

Nota-se que nesta nova imagem dos harmônicos que existe, durante as mudanças de acordes uma maior proximidade entre estes, especialmente os mais relevantes (na parte inferior da figura). Isso é expresso sonoramente, no áudio da sequência, onde de fato, pode-se perceber que esta soa mais contínua, com menos degraus perceptuais entre as tríades. Por esta razão, costuma-se optar por utilizar inversões de notas nas tríades, que a princípio aumentam ligeiramente sua inharmonicidade, porém compensam com o aumento da homogeneidade harmônica de sua progressão de acordes. Este é um recurso musical bastante utilizado em composição, tanto no sentido de aumentar a homogeneidade harmônica de uma progressão quanto de diminuí-la brutalmente, de modo a gerar um determinado efeito estético, como é o caso da “Imperial March” composta por John Williams para o icônico filme “Star Wars”, onde os acordes são colocados propositalmente com grandes saltos entre suas notas, de modo a aumentar a sensação de aspereza e marcialidade.

 

Referências: 

Inharmonicityfaz parte da biblioteca libxtractdesenvolvida por James Bullock (2006-2012) utilizada no software livre Sonic Visualiser, versão 3.

J. Bullock, “LibXtract: A lightweight library for audio feature extraction,” in Proceedings of the 2007 International Computer Music Conference, Sweden, 2007.

The Imperial March, by John Williams, piano version. Downloaded from MuseScore online community. https://musescore.com/user/4594341/scores/3459006

 


Como citar este artigo:

José Fornari. “Tríades, inversões e progressões”. Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publicação: 5 de junho de 2019. Link: https://www.blogs.unicamp.br/musicologia/2019/06/05/22/

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