Texto escrito por: Willian Molina, Lavínia Schwantes, Jonathan Cardoso e Mariana Amaral
O Brasil sediou a maior conferência mundial sobre HIV e AIDS
Em julho deste ano (2026), o estado do Rio de Janeiro (RJ) entrou para a história ao sediar, pela primeira vez na América do Sul, a Conferência Internacional sobre AIDS: a AIDS 2026. Ativistas, pesquisadores, cientistas, gestores públicos e pessoas vivendo com HIV se encontraram para discutir saúde, ciência, e direitos humanos relacionados ao HIV e a AIDS¹.
O tema do encontro foi: “Repensar. Reconstruir. Ascender”. Durante a semana do evento, em especial, o vírus virou pauta recorrente na mídia brasileira, algo que fazia tempo que não acontecia com tanta força. Notícias, informações atuais, dados, críticas, tudo entremeado por esperança, foram frequentes. Entre as pautas específicas dos debates do evento estavam: prevenção, novas tecnologias, diagnósticos e tratamentos, envelhecimento com o vírus, saúde da população LGBTQIAPN+, financiamentos internacionais, dados estatísticos globais e a eliminação da transmissão vertical do vírus em nosso país. Conquista esta que conferiu ao Brasil o status e a certificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) como o maior país das Américas a alcançar esse feito histórico².
O Brasil e a América Latina na contramão das estatísticas mundiais de novas infecções pelo HIV
Mesmo com a eliminação da transmissão vertical e sendo referência mundial positiva na resposta ao vírus, vivemos na contramão das estatísticas internacionais. O novo relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), lançado na conferência AIDS 2026, aponta que as infecções pelo vírus caíram em 43% no mundo de 2010 até 2025. Mas, no cenário brasileiro, o país registrou aumento de 20% de novas infecções no mesmo período, sendo um dos 21 países que mais cresceram os casos no mundo³.
Muitas razões podem explicar o aumento no Brasil: registros mais precisos, ampliação no diagnóstico, persistência do estigma, do preconceito e da desinformação, esvaziamento de campanhas de saúde, disparidade de acesso às terapias antirretrovirais e a ideia de que a “AIDS” está superada em nosso país. Há muitos outros fatores a se considerar.

A América Latina também entrou no caminho contrário do cenário mundial de diminuição das novas infecções virais pelo mundo. Segundo o mesmo relatório da UNAIDS, o aumento de novas infecções pelo vírus foi de aproximadamente 25% de 2010 até 2025³. A desigualdade social, em suas múltiplas faces (econômica, racial, de gênero, etc), pode ser um dos fatores que mais explicam esse aumento, seja no país, seja na América Latina como um todo.
As vulnerabilidades são apagadas pelo preconceito e pela desinformação…
Sabemos que, historicamente, a epidemia não atinge todas as pessoas da mesma forma. A infecção viral se intensifica em quem já nasce e vive em situação de maior vulnerabilidade. São populações que, estruturalmente, estão mais distantes do acesso à saúde, à informação e à prevenção, enfrentando desigualdades sociais, violências de gênero e sexuais e desamparo social. Essas populações marginalizadas ainda são as mais afetadas pelas epidemias. Isso segue acontecendo no Brasil, na América Latina e no mundo.
Mesmo que estejamos a mais de quatro décadas discutindo e pesquisando sobre o vírus, ainda continuam existindo a desinformação, o estigma, o preconceito e a discriminação em relação as pessoas vivendo com HIV. Muita gente ainda acredita ser imune, de alguma forma, à infecção viral, e que o vírus pertence a algumas camadas específicas da sociedade, sem levar em consideração as vulnerabilidades que estas “camadas sociais” possuem e as barreiras que enfrentam. E é por isso que “as vulnerabilidades são apagadas pelo preconceito e pela desinformação”, como colocamos neste subtítulo..
O imaginário social ainda associa a “AIDS” ao “viado”, à “prostituta”, ao/à “promíscuo/a” e ao “drogado”. Segundo a pesquisa de Daniela Riva Knauth e colaboradores (2020), não são poucos os homens héteros que se surpreendem com o diagnóstico, afinal, como se infectar com o vírus se, segundo eles, eles “não são bichas”?
Assim, enquanto não houver políticas públicas de atenção e cuidado efetivamente direcionadas aos grupos mais vulneráveis à infecção pelo HIV, mais distantes estes grupos permanecerão dos serviços básicos de saúde, como prevenção, testagem e tratamento. Esse distanciamento não apenas amplia o número de novos casos, como também realimenta, anualmente, as estatísticas nacionais e globais, mantendo vivo um ciclo que a ciência já tem meios de romper (meios cada vez mais eficientes), mas que a desigualdade insiste em perpetuar.
Tratamentos de ponta e cura X surgimento de novas epidemias
Duas questões transitaram com mais intensidade no evento AIDS 2026 e na mídia. Uma delas afeta, com certeza, de forma direta ou indireta, o Brasil, a América Latina e outros países de baixa e média renda: os cortes orçamentários internacionais. E isso atinge, sobretudo, países da África, nos colocando, enquanto população mundial, mais distante da eliminação do HIV como uma questão de saúde pública.
De acordo com o mencionado relatório da UNAIDS, a redução do financiamento e a consequente fragilização dos programas de prevenção colocam em risco o que construímos nas últimas décadas no enfrentamento do HIV. Neste ritmo, estaríamos nos encaminhando para os tempos sombrios vividos nos anos 1980 e 1990, em que não havia sequer a possibilidade de alguém conviver com o vírus e a expectativa de vida era baixíssima.
Nas palavras do relatório: “A comunidade internacional entrou em um período de profunda turbulência política e financeira que ameaça décadas de conquistas duramente alcançadas na luta contra o HIV”. O financiamento internacional e os cortes em serviços comunitários ligados à prevenção, principalmente pelo governo Trump dos EUA, registraram uma queda de 8,8 bilhões de dólares em 2024 para 7,3 bilhões de dólares no ano de 2025. Isso quer dizer: menos recursos para preservativos, tratamentos, fechamento de clínicas de atendimento e programas de prevenção, e, por consequência, menos pessoas fazendo uso das terapias antirretrovirais, menos pessoas indetectáveis, mais circulação do vírus, infecções e mortes. Ou seja, um retrocesso de décadas de avanço.

A segunda questão discutida no evento, mais positiva e promissora, é a cura da infecção viral, de forma acessível. A tão esperada cura, que já registra 13 casos no mundo, e a existência de tratamentos cada vez mais promissores e menos invasivos, como: um único comprimido mensal para a profilaxia pré-exposição (PrEP), quatro comprimidos para a profilaxia pós-exposição (PEP), menos comprimidos mensais para o tratamento, medicamentos injetáveis, uso de células-tronco para a cura da infecção, ou seja, tecnologias inimagináveis décadas atrás, já são realidade ou estão em um futuro bem próximo. Mas será que para todas as pessoas e para todas as partes do mundo?

Se por um lado, estamos otimistas com o surgimento de novas tecnologias para barrar ou eliminar o vírus, por outro lado, nos deparamos com a indisponibilidade de verbas. Afinal, sabemos que tudo esbarra em recursos e financiamentos. E questionamos: Quando o orçamento falta, quem fica sem acompanhamento e sem tratamento? Assim, estamos diante de um impasse: ou seguimos avançando, com investimento e ciência ou retrocedemos para tempos que pensávamos ter já superado.
O ímpeto do ser humano (ou a crença do ser humano) é sempre progredir, avançar, mas, sabemos que nenhuma conquista é certa por estar sempre atravessada por estes interesses econômicos e políticos. É uma decisão sobre que tipo de mundo será construído: um com a prioridade de manter um vírus sob controle e acabar com ele ou um com a possibilidade deste vírus voltar a ser mortal.
E a gente, fica onde nessa história?
O marco brasileiro de eliminação da transmissão vertical do vírus e os debates apontados aqui neste texto contribuíram para trazer a 26° Conferência da AIDS em nosso país. E aí, a partir do que discutimos, ficam alguns questionamentos: Quando algumas tecnologias de ponta chegarão ao SUS? Que políticas públicas precisamos elaborar para que a prevenção, o diagnóstico e os tratamentos sejam cada vez mais acessíveis? Com os cortes, como ficarão os países que mais precisam de ajuda externa? Como podemos compensar os cortes orçamentários?
A relação entre as tecnologias de ponta em resposta ao HIV e a realidade dos cortes orçamentários faz com que estejamos, mais uma vez, vivenciando um distanciamento entre “ciência” e “política”. Não adianta ter “progressos científicos” se os interesses políticos não acompanharem. Não adianta um país como o Brasil, de forma isolada, erradicar o vírus. Vivemos em um mundo globalizado e precisamos ser um coletivo.
Assim, será possível vislumbrar o que se apresenta na Conferência AIDS 2026, enchendo os olhos de esperança, enquanto alguns acontecimentos em nosso próprio país, que é tão desigual, pesam sobre nossas costas e escurecem nossa vista? Como aplaudir as inovações científicas se os desacordos internacionais e as desigualdades que ainda ceifam vidas seguem agindo como amarras em nossas mãos?
A possibilidade da cura é, sem dúvida, motivo de celebração. No entanto, é difícil celebrá-la quando algumas tecnologias de prevenção, que existem há anos no Brasil, sequer chegam a todas as pessoas em nosso próprio país. Seria como comemorar a grama verde que está florescendo, enquanto ainda tentamos tornar fértil o nosso solo arenoso; está aí o exemplo da luta pela implementação do Lenacapavir (PrEp de longa duração) no SUS⁴.
Assim, o que nos é dito (e o que já sabemos) continua sendo a realidade que nos atravessa, em qualquer parte do mundo: o HIV ainda está presente. O preconceito, ainda impregnado nas sociedades, age como uma corrente contrária aos avanços que a informação insiste em promover. A desigualdade tampouco desapareceu; ela continua estampada diante de nossos olhos. Talvez seja esse o principal legado da conferência em nosso país e das discussões que tecemos aqui neste blog: a certeza de que as perguntas precisam continuar sendo feitas, de que as vulnerabilidades precisam ser visibilizadas e de que nada, absolutamente nada, está garantido, sobretudo quando a ciência e a política caminham em direções opostas.
A fim de não perder a esperança…
O percurso, afinal, está longe de alcançar desfechos. Tampouco é uma estrada de tijolos amarelos que conduz, de forma linear, a um único destino. A resposta para a epidemia nunca esteve apenas na “descoberta científica”, mas também na capacidade de fazer com que seus frutos alcançassem todos os territórios, todos os corpos e todas as vidas. Enquanto houver jardins onde a grama insiste em não nascer por falta de solo fértil, a luta continuará sendo para que ninguém precise admirar a esperança apenas do outro lado da cerca.
Saiba mais
Para mais informações, acesse os links abaixo, referentes aos dados que mencionamos na escrita:
- https://unaids.org.br/2026/07/unaids-na-26a-conferencia-internacional-de-aids-2026/
- https://www.paho.org/pt/noticias/18-12-2025-oms-certifica-brasil-pela-eliminacao-da-transmissao-do-hiv-mae-para-filho
- https://unaids.org.br/relatorios-e-publicacoes/
- https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/07/27/ministerio-da-saude-injetavel-que-previne-o-hiv.ghtml
Escute também o podcast do G1, intitulado “A volta do fantasma da AIDS no mundo e o aumento de casos no Brasil”, disponível no link: https://open.spotify.com/episode/7upscw5WpqV2vMpBYiticY?si=fuPdRNXKSiSEf3EWlzbuPg
Para acessar o trabalho de Daniela Riva e colaboradores, que citamos no texto, utilize a referência: KNAUTH, Daniela Riva et al. O diagnóstico do HIV/aids em homens heterossexuais: a surpresa permanece mesmo após mais de 30 anos de epidemia. Cadernos de Saúde Pública, v. 36, p. e00170118, 2020.
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