Gigante na indústria têxtil mundial, Brasil desperdiça potencial de reciclagem de tecidos

A indústria têxtil brasileira é a terceira maior do mundo e produziu 170 mil toneladas de resíduos de tecidos, em 2014, por falta de reciclagem seletiva. No entanto, este volume de retalhos poderia ser reciclado, gerar renda e diminuir gastos de US$5,8 milhões na importação de resíduos equivalentes. “Há um mercado de resíduos têxtil que precisa ser conhecido e explorado internamente”, afirmam Mariana Correa do Amaral, da Universidade de São Paulo (USP), e colegas em artigo para a revista Gestão & Produção.

Os especialistas do artigo analisaram a sustentabilidade na competitiva indústria têxtil que precisa lidar com redução de uso de água e energia, além de formas de reduzir as perdas e reciclar resíduos. Atualmente, existem no Brasil mais de 32 mil indústrias que disputa uma fatia no mercado mundial de US$797 bilhões.

Porém, dentre as indústrias têxteis Mariana e coautores identificaram apenas 21 que fazem reciclagem de tecidos. Cinco delas, localizadas no estado de São Paulo, foram avaliadas  para entender os principais desafios existentes na reciclagem mecânica (veja exemplo na imagem abaixo) ou química (processamento de fibras sintéticas em novos tecidos ou fios).

As indústrias contatas afirmaram que entre os principais desafios para a reciclagem, está a necessidade de incentivos fiscais, centros de logística e transporte para que o custo da reciclagem seja mais atraente.

Foto: a) fragmentos de jeans entram na máquina, b) são desfiados e fragmentados e c) a fibra do jeans está pronta para reuso. Crédito: Amaral et al, 2018

O custo do quilo de tecido descartado varia de R$0,05 (naqueles tecidos mistos) a R$1,00 para tecidos de algodão coloridos, que podem ser coletados nas ruas que concentram fábricas têxteis  ou comprados ou recebidos diretamente de empresas. A otimização e incentivo no sistema de coleta diminuiria o custo da reciclagem.

Para termos uma ideia da importância da reciclagem no setor, os autores do artigo citam um exemplo chocante. Um hospital de São Paulo com 12 mil funcionários disponibiliza, para cada um deles, três conjuntos de uniforme, compostos por 3 ou 4 itens, que são renovados a cada 18 meses. Esse volume gigantesco de tecido, na maioria das vezes, termina no lixo.

Reduzir, reutilizar, reciclar

Mas há iniciativas interessantes como a Ecotece, uma organização não-governamental, que recebe e recicla esse material. Essa matéria prima gera o que a ONG chama de moda sustentável, renda, capacitação de pessoas e produtos que, muitas vezes, retornam para as indústrias que geraram os resíduos. Portanto, iniciativas como essa deve ser incentivadas como forma de mudar a cultura de consumo, mas ainda são raras.

Esquema sobre o destino de resíduos de diferentes tipos de tecidos e os produtos do reuso. Traduzido a partir de Amaral et al, 2018

“O Brasil oficialmente importa mais de 223 mil toneladas de resíduos desde janeiro de 2008, a um custo de US$257.9 milhões. No entanto, no mesmo período, o país deixou de ganhar cerca de US$12 bilhões por deixar de reciclar 78% de resíduos sólidos gerados internamente, graças a falta de coleta seletiva”, lamentaram os autores do estudo.

Mariana e colegas acreditam que é preciso investir em educação, incentivar uma mudança sistêmica no modelo atual da produção têxtil para uma economia criativa e sustentável. Nesse moviamento podemos fazer nossa parte, mas as indústrias têxtil e da moda precisam de incentivos, como frisaram os autores, mas também de conscientização e regumentação para lidar com o problema dos resíduos de tecidos.

 

Leia o artigo completo em:

Amaram, M.C.; et al. Reciclagem industrial e reuso têxtil no Brasil: estudo de caso e considerações referentes à economia circular. Gest. Prod., Apr 16, 2018.

Fale com os autores:

 

 

 

Jornalista de ciência, mestre e doutora em história social. É pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) da Unicamp e editora do blog Ciência em Revista, resultado de projeto de pesquisa Fapesp de 2013 a 2015.

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