A ciência pelos olhos da Profa. Dra. Maria Silvia Viccari Gatti

Publicado por Marina Barreto Felisbino em

Hoje começamos uma nova categoria de posts, serão mini-entrevistas em que pretendo aproximar as escolhas, experiências e visões de mulheres cientistas para o nosso mundo, de modo a nos inspirar com esses modelos, porque representatividade é algo reconfortante e necessário.

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Profa. Silvia Gatti durante cerimônia de Colação de grau. Arquivo pessoal.

Tenho a honra de inaugurar essa seção com a Profa. Dra. Silvia Gatti, graduada em Ciências Biológicas – Modalidade Médica em 1976, é professora e pesquisadora da Unicamp desde 1983, atuando na área de Microbiologia, com ênfase em Virologia.

Sua linha de pesquisa principal estuda os agentes de gastroenterite no homem e em outros animais, com estudos envolvendo picobirnavírus e rotavírus.

Além de sua brilhante carreira como pesquisadora, ela se destaca na sua preocupação enquanto formadora de futuros cientistas. Prova disso foi ter sido escolhida por pelo menos 12 vezes como paraninfa ou patrona de turmas.

Foi coordenadora de graduação entre os anos 1998-2001 e 2012- 2014, atuando como assesora da Pró-Reitoria de Graduação entre 2001-2002. Recebeu Honra ao Mérito como docente e coordenadora de graduação em 2007 e Prêmio de Reconhecimento Docente pela Dedicação ao Ensino de Graduação pelo Instituto de Biologia em 2014.  Além disso, participou por vários anos do programa Ciência & Arte nas Férias que visa apresentar a alunos do Ensino Médio, atividades relativas à ciência.

Abaixo reproduzo, na íntegra, as respostas a perguntas sobre escolhas, inspirações, dificuldades e o sentido da ciência.

1. Cientista – era isso que você queria ser quando crescesse?

“Optar por ser cientista está comigo desde o então colegial: antes me imaginava sendo professora, mas sempre de adultos! Logo, isso me remetia a ações na Universidade!! Queria ensinar, e o meu professor de Biologia (que era muito carrancudo, até porque os tempos eram bicudos! Tempos da ditadura militar, em que não ouvíamos nada de nossos mestres, além dos conteúdos das aulas), com sua forma de levantar hipóteses para ensinar, foi definitivo: ali eu disse: vou ser cientista!! Vou descobrir coisas!!!”

2. Algum cientista ou descoberta científica a inspirou na escolha dessa carreira?

“Optei por Ciências Biológicas, Modalidade Médica, até porque não gostava de Botânica! No dia que entendi os experimentos de Pasteur comprovando que os microorganismos surgiam a partir de outros pre-existentes fiquei fascinada e decidi a área que queria estudar mais.”

3. Você já enfrentou alguma dificuldade enquanto cientista por ser mulher?

“Durante minha graduação tive a oportunidade de fazer uma Iniciação Científica em Biologia Celular (naquela época Citologia) depois de concluir um experimento com Drosophilas que muito me encantou.

Ia nos fins de semana anotar meus resultados e ali escrevi o meu primeiro relatório científico. Naquele ambiente, agucei todos os meus sentidos para a investigação. Minha timidez, no entanto, me restringia muito: havia muitos desafios pessoais a transpor, muito mais do que aqueles que demandavam ter conhecimento. Eu era muito estudiosa!

Ali vivenciei o mundo “dos cientistas” e vi relações de competição, de “ser mulher e não poder ser a melhor” muito evidentes! Quantas vezes perguntei e me disseram: um dia você vai entender isso!!! Ora, eu queria saber naquela hora! Ia para a Biblioteca e em uma das vezes que ali estava pensei: a carreira que eu estou escolhendo será solitária! Mas não desisti e assim que terminei minha graduação fui convidada para atuar como professora com a promessa de que dois anos depois poderia iniciar minha formação na pós-graduação, estudando microorganismos.

Com o Mestrado ainda em andamento, fui convidada para ser docente na Unicamp! Pronto: poderei fazer minhas pesquisas! Formularei minhas hipóteses! Seria uma cientista! Aquela menina simples, tímida, da cidadezinha do interior, podia até ter reconhecimento internacional como os seus achados! Nessa fase, não tive nenhum tive de constrangimento por ser mulher! Acho que eu soube me impor também! Não admitia ações nesse sentido! Questionava-as de maneira clara e firme. Fiz-me respeitar.”

4. Descreva, em poucas palavras, a ciência pelas olhos da Profa. Silvia Gatti

“De lá para cá são mais de trinta anos. E mudei a minha visão sobre o que é Ciência: acredito que além de, a partir de uma pergunta, buscar suas respostas pela pesquisa sistematizada, aplicada, racional e lógica, a ciência é sempre precedida por uma teoria, por mais rudimentar que ela seja. E essa, não se estabelece pelo princípio da sistematização.”

Deixo aqui meus sinceros agradecimentos à Profa. Silvia por ter aceitado disponibilizar um pouco do seu tempo e de sua história para enriquecer esse blog; depois, de modo pessoal, agradeço por todos os anos dedicados a minha formação.


Marina Barreto Felisbino

Bióloga formada pela Unicamp em 2010 e doutora na área de Biologia Celular e Estrutural em 2016. Atualmente trabalho na Universidade do Colorado em Denver-USA, onde desenvolvo pesquisa de pós-doutorado. Apaixonada pela ciência, assim como pelo alcance das mulheres à equidade. Com o desejo que todos vejam a ciência pelos olhos delas.

5 comentários

André Garcia · 14 de julho de 2016 às 08:37

Excelente post e ótimo formato! Creio que dar voz às pesquisadoras da Unicamp e outras universidades faz-se necessário, ainda mais em tempos de discussão e polarização como o nosso. Minha tia, Maria Alice Garcia, é docente aposentada pelo IB e foi da primeira turma de Biologia (foi orientanda do Prof. Mohammed Habib), ela também tem uma história interessante pra contar e sempre foi muito envolvida com a ciência. Se quiser passo o contato pra fazer este bate bola. Parabéns!

Marina · 14 de julho de 2016 às 17:01

André muito obrigada, fiquei bastante contente com o resultado final e feliz que tenha gostado. Que maravilha, quero sim, por favor me passe o contato dela que será uma honra entrevista-la. Eu criei também essa semana uma página no facebook para divulgação do blog https://www.facebook.com/cienciapelosolhosdelas/
Depois de uma olhada e veja se está legal.

Germana · 13 de setembro de 2016 às 10:10

Legal Marina essa sua iniciativa. vemos sempre na história a busca por personagens que são quase herois, modelos, mas acho que trazer a cientista, sobretudo no tema de gênero, mostrando que são batalhadoras, pessoas normais e que também tiveram um sparkle para querer seguir essa bela carreira, mesmo sabendo que poderiam encontrar adversidades é inspirador. Profa. Silvia foi minha professora na Bio.Como leitora queria saber mais dela, talvez uma cientista mulher que a tenha inspirado ou como ela vê a nova geração de cientistas mulheres. Abs

    Marina Barreto Felisbino · 14 de setembro de 2016 às 11:54

    Muito obrigada Germana. Fico realmente muito feliz, pois era justamente esse modelo palpável e real de cientista que quis trazer para o blog. Muito interessante suas dúvidas, vou pensar nesses aspectos para as próximas entrevistas!!

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