Uma cientista brasileira entre os TOP 10 de 2016

Publicado por Priscila Ferreira Slepicka em

Em dezembro de 2016, a revista científica Nature avaliou e publicou os Top 10 cientistas daquele ano. Dentre eles, 4 mulheres, sendo uma cientista brasileira, foram colocadas no topo da lista e hoje apresentamos uma postagem carinhosa sobre a trajetória que levou a cientista Dra. Celina M. Turchi a ser lembrada com tanto respeito por sua pesquisa.

Em 2015, na região nordeste do Brasil, algumas mães recebiam em seus braços seus bebês recém-nascidos aparentemente saudáveis mas com cabeças muito pequenas até mesmo para o seu corpo diminuto de nasciturno. O número de bebês com tal condição aumentava progressivamente a cada parto realizado e os médicos começaram a questionar a causa dessa possível epidemia de uma condição neurológica considerada rara.

Figura esquemática de bebê com tamanho cefálico normal, bebê com microcefalia e outro com microcefalia severa. A linha tracejada representa o tamanho normal para comparação. (Fonte: Adaptado de Center for Disease Control and Prevention)

Essa é denominada microcefalia sendo caracterizada por crianças que apresentam cabeça e cérebro significativamente menores do que aqueles comparado a outras crianças da mesma idade e sexo. Isso ocorre durante a gestação ou desenvolvimento infantil após o parto quando o cérebro não se desenvolve suficientemente acarretando deficiências intelectuais, de pronunciação, pouca função motora e até mesmo convulsões e nanismo. Até aquele ano, as causas mais conhecidas da microcefalia envolviam deleções e defeitos gênicos ou as consideradas ambientais como ingestão de drogas, má alimentação no curso da gestação ou infecções maternas durante a gravidez por toxoplasmose, rubéola e citomegalovírus. O que não se esperava era que um outro tipo de infecção também poderia acometer esses bebês nascidos em 2015, não somente no Brasil mas em diversos outros países.

Naquele momento, o vírus Zika transmitido a humanos pela picada do mosquito Aedes aegypti começou a ser associado às causas da microcefalia, porém pouco se sabia sobre a relação entre o vírus e a condição neurológica. De fato, era uma anomalia que trazia atenção uma vez que, “nunca fora demonstrado uma má formação congênita relacionada a um vírus transmitido por mosquito” (disse Celina Turchi).

Representação da disseminação do Zika virus pelo mundo. Em roxo escuro estão os países com transmissão ativa do Zika virus, em lilás estão marcados os países com casos de Zika recentes e em vermelho estão os casos de Zika virus confimados antes de 2015. No canto esquerdo encontra-se uma imagem do mosquito transmissor Aedes Aegypti (Fonte: Center for Disease Control and Prevention)

A convite do Ministério da Saúde, a epidemiologista e pesquisadora da FIOCRUZ/Pernambuco Profa. Dra Celina M. Turchi em conjunto com um grupo de biólogos, médicos e pediatras começaram a investigar as causas da microcefalia que acometia aqueles bebês recém nascidos. Esse grupo ficou conhecido por MERG, Microcephaly Epidemic Research Group (Grupo de Pesquisa da Epidemia de Microcefalia).

Através da análise de dados obtidos por tomografia computadorizada de cabeças de bebês com microcefalia congênita em conjunto com outros dados clínicos, a Dra. Celina Turchi em conjunto com outros autores publicou um artigo científico em abril de 2016 na revista The New England Journal of Medicine. Nele, a infecção intrauterina por Zika vírus foi associada como causa aparente para as anomalias no desenvolvimento cerebral que estavam acometendo aqueles bebês a exemplo de calcificações, ventriculomegalia e anormalidades na matéria cinzenta do cérebro (hipo- e desmielinização). Essa árdua e importante pesquisa trouxe uma resposta para os médicos, neurologistas, pesquisadores e às mães e permitiu que houvessem ações preventivas no combate à infecção por Zika vírus a fim de evitar recém-nascidos com essa má formação. Além disso, contribuiu para o melhor entendimento das alterações neurológicas causadas por este vírus. Assim, fica evidente a contribuição sublime da Dra. Celina Turchi e as motivações que levaram o reconhecimento de sua pesquisa pela revista Nature como uma das pesquisadoras Top 10 de 2016.

Dados de tomografia computadorizada de bebês com microcefalia associada a infecção por Zika Vírus e publicados na revista científica The New England Journal of Medicine pelo grupo de pesquisa MERG. (Fonte: The New England Journal of Medicine)

Especialista na área de doenças epidemiológicas, Dra. Turchi é médica formada pela Universidade Federal de Goiás, realizou mestrado em epidemiologia pela London School of Hygiene and Tropical Medicine no Reino Unido, é doutora pelo Departamento de Medicina Preventiva na USP e atualmente é pesquisadora no Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães na Fiocruz em Pernambuco. Ela apresenta uma lista notável de alunos que orientou ao longo dos seus anos de pesquisa, em especial mulheres cientistas. Nas suas publicações vemos a sua investigação por epidemias atuais e seu engajamento em entender os mecanismos de infecções virais como a hepatite A, B e C, HIV-1 (também conhecido como um dos vírus transmissores da AIDS) e o vírus da Dengue, o qual também é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti e que tem assolado regiões tropicais, incluíndo o Brasil. Agora o novo desafio da Dra. Celina Turchi encontra-se no desenvolvimento de uma plataforma aberta de imagens de cabeça dos fetos e recém-nascidos normais e de casos de microcefalia. O objetivo dessa plataforma é compartilhar os dados de infecções emergentes, como foi o caso da microcefalia associada à infecção por Zika vírus, com cientistas ao redor do mundo a fim de permitir uma troca de conhecimento científico por toda a comunidade e maior rapidez nas pesquisas. Uma outra abordagem de sua pesquisa está em investigar se a infecção pelo vírus da Dengue poderia ser um facilitador para a contração do Zika vírus.

Dra. Elena Long, Ph.D.; Ms. Alexandra Elbakyan M.S.; Profa. Dra. Gabriela Gonzales (Fonte: Kandice Carter, Sci-Hub, Lousiana State University)

Antes de encerrar esse post, fazemos aqui uma pequena e simples homenagem a outras 3 cientistas que estão entre a classificação dos TOP 10 cientistas de 2016 pela Nature. A física, Profa. Dra. Gabriela Gonzalez que atualmente está na Universidade Estadual da Lousiana em Baton Rouge-Estados Unidos, coordenou a análise de ondas gravitacionais chamadas rugas no espaço-tempo. Outra cientista na área de Física que teve seu reconhecimento foi a Profa. Dra. Elena Long. Assim como as mulheres, outras minorias também encontram dificuldades na sua inclusão no mundo científico, como a comunidade LGBT. Na área da Física, Dra. Long percebeu a dificuldade que essas pessoas passavam continuamente e criou a LGBT+Physics (http://lgbtphysicists.org), que auxilia essa minoria a ser ouvida quanto à sua pesquisa e projetos. A genial Alexandra Elbakyan, assim como muitos, teve dificuldades no seu mestrado em ler publicações de revistas científicas das quais é necessário ter um cadastro pago para ter acesso ao artigo. Ela criou então a Science Hub (www.scihub.org) que visa promover o acesso livre à esse tipo de publicação. Apesar de ter sido alvo de processos judiciais dos direitos autorais por algumas revistas, sua iniciativa viabiliza a informação para diversos cientistas e seus aspirantes.

Essas 4 mulheres representam mundialmente as cientistas de 2016 e todas as suas conquistas no árduo trabalho diário de continuar desenvolvendo ciência e tecnologia. Para mais informações sobre os TOP 10 de 2016 pela revista Nature clique no link (http://www.nature.com/news/nature-s-10-1.21157).


Priscila Ferreira Slepicka

Bióloga e Doutora em Genética e Biologia Molecular pela UNICAMP com Pós-Doutorado pelo CSHL. Desde a adolescência, sou fascinada pela ciência e pela função das moléculas no sentido e beleza da vida. Agora, tenho a ambição de transmitir sob minha perspectiva a ciência pelo olhos delas. Apesar de eu nunca ter sofrido (ou ao menos sentido) preconceito direta ou indiretamente por ser mulher, as estatísticas permanecem alarmantes com relação ao elevado número de cientistas que sofrem por ainda serem a minoria em diversos aspectos profissionais. Neste 1 ano de contribuição para o blog aprendi que muitas pesquisadoras permanecem no nosso esquecimento e esse negligenciamento torna a história da ciência incompleta. Todos nós escritores ainda temos uma longa caminhada para mostrar a contribuição da mulher para o descobrimento da pesquisa e que, apesar de vivermos em um período de grande liberdade de expressão, cientistas ainda são silenciadas O blog Ciência pelos Olhos Delas permitiu que eu abrisse meus horizontes para escrever publicações sobre mulheres incríveis e tenho a convicção que o Blog ainda informará muitos fatos ocultos na história da contribuição da mulher para a ciência.

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