CPOD Opina: Como fui motivada a voltar para a área acadêmica sendo aluna especial no IFCH/Unicamp

Publicado por Juliana Aguilera Lobo em

O IFCH - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

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Hoje o Ciência Pelos Olhos Delas inaugura uma nova categoria: o CPOD Opina. A proposta desta novidade é dar espaço para nossas colaboradoras falarem sobre experiências – tanto pessoais quanto acadêmicas/profissionais – e sobre inquietações acerca dos mais variados assuntos.

Esse é um espaço livre para que a gente, que faz o CPOD acontecer, possa escrever sobre o que nos move, o que nos deixa curiosas e o que tem sido essencial para a nossa trajetória até aqui. 

E quem inaugura o CPOD Opina é a Juliana Lobo, que faz parte do nosso projeto desde o começo de 2019. Continue lendo para saber como a Ju voltou para a área acadêmica depois de anos afastada da universidade:

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Eu me formei em Relações Internacionais na UNESP – Campus Franca no final de 2010. Nasci e fui criada em Campinas, SP, e a aprovação no vestibular da Unesp fez com que eu morasse fora da minha cidade natal pela primeira vez. 

Os quatro anos de graduação foram certamente transformadores; contudo, conciliar a graduação com um trabalho em horário comercial com jornada de 44 horas por semana apresentou-se como um desafio à época. Uma das consequências foi não poder – e não conseguir – participar de atividades de extensão e pesquisa como e o quanto eu gostaria.

Nos oito anos que se seguiram à minha graduação, trabalhei em cargos formais sob o regime da CLT, participei de projetos culturais e atuei em iniciativas educacionais. Em retrospecto, percebo que uma inquietação permaneceu comigo nesses oito anos: a de voltar ao ambiente da universidade, a de pesquisar e de estar em contato com pesquisadoras e pesquisadores.

Por isso, no segundo semestre de 2018, com a perspectiva de atuar como redatora freelancer se materializando – o que me permitiria uma maior flexibilidade de horários – pesquisei maneiras de me reinserir no ambiente acadêmico. Depois de tantos anos “longe”, num primeiro momento eu nem sabia por onde começar.

Já de volta à Campinas, uma opção natural seria buscar possibilidades dentro da UNICAMP. Dentre os muitos institutos e faculdades que compõem a Universidade, o IFCH – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, fez mais sentido para mim, tanto em relação à minha formação prévia quanto ao que já vinha se delineando como uma possibilidade de pesquisa naquele momento – algo que abordarei mais adiante.

As formalidades

Tendo escolhido o IFCH, fui em busca de mais informações. Para minha sorte, o site do Instituto é bem completo; inclusive, há uma seção dedicada à modalidade de Aluno Especial, que é definida da seguinte maneira:

“Estudante Especial é aquele que, não estando regularmente matriculado em um curso de Graduação ou Pós-Graduação da Unicamp, recebe autorização das Coordenadorias de curso para se matricular em uma ou mais disciplinas isoladas em um determinado período letivo.

Para se candidatar a disciplinas da Graduação é necessário que o candidato tenha concluído um curso reconhecido de alguma Instituição de Ensino Superior (IES) no Brasil ou Exterior ou esteja regularmente matriculado em outra Instituição de Ensino Superior (IES).”

Ok, eu tinha meu diploma de graduação. Depois, fui em busca da grade de horários do segundo semestre de 2018 na graduação em Ciências Sociais e selecionei algumas matérias que tinham me interessado. 

Fiz meu cadastro no SIGA (o sistema de gestão acadêmica), elenquei as disciplinas de interesse e esperei pelo resultado. Ah, um detalhe: é importante ficar atenta(o) às datas de abertura e término da inscrição para alunos especiais; no caso da UNICAMP, todos os prazos estão no famoso calendário da DAC. Outro ponto de atenção é que os prazos para inscrição de alunos especiais na Graduação e nos cursos de Pós-Graduação são distintos.

Para minha surpresa, fui aceita nas três matérias da Graduação as quais eu me candidatei. Geralmente, alunos especiais são aceitos quando o número máximo de inscritos em cada disciplina não foi atingido ou ultrapassado; e para checar a quantidade de alunos regularmente inscritos e saber se uma turma ainda tem vagas para alunos especiais, basta acessar o SIGA novamente, na seção “Consulta de Matriculados e Vagas por Disciplina”.

Pronto! Trâmites feitos, agora era “só” começar a assistir às aulas. Outra informação importante é que a aprovação em disciplinas como aluno especial é divulgada em torno de uma semana após o início do semestre letivo; dessa forma, dependendo de quando a disciplina começa (isso varia um pouco), o aluno especial pode perder a primeira aula de apresentação do curso. 

De volta à sala de aula

Confesso que estava meio – ou melhor, bem – perdida nesse (re)começo. Não sabia ao certo quais disciplinas haviam se iniciado e se já havia leituras a serem feitas. Algo que me ajudou foi entrar no grupo do IFCH no Facebook e mandar uma mensagem pedindo ajuda, falando em quais matérias eu havia sido aceita e perguntando se alguém mais tinha informações.

Prontamente recebi respostas – (muito obrigada, comunidade do IFCH) – e consegui me situar um pouco melhor. No meu primeiro dia de aula, outro desafio foi “desbravar” o campus. Eu estava acostumada com a Unesp Franca, que tinha quatro cursos e um campus pequeno, então perdi uns bons minutos entre o IEL – Instituto de Estudos da Linguagem e o IFCH (que ficam lado a lado) tentando achar a sala de aula.

Logo de cara vi que havia mais alunas especiais, assim como eu. Esse fator, além de ter me dado um certo alívio, também gerou um senso de companheirismo ao longo daquele semestre, porque uma ia tirando dúvidas com as outras e se ajudando mutuamente.

Agora, voltando às disciplinas: ter sido aceita em três matérias foi ótimo e ao mesmo tempo um pouco “assustador”, já que passei a ter um volume semanal de leituras obrigatórias bem considerável, algo que há anos havia saído da minha rotina. 

Aos poucos, com o passar das primeiras semanas, aquela sensação de estar constantemente perdida na imensidão que é a UNICAMP foi se amenizando e eu comecei a me sentir mais confortável naqueles espaços: as salas de aula, os corredores do IFCH, a cantina do IEL, a Biblioteca Central, o Teatro de Arena, o caminho até o Ciclo Básico e as filas para o Bandejão.

Aquele primeiro semestre como aluna especial ia passando, e, além das aulas, também comecei a assistir os eventos que aconteciam no Instituto: mesas-redondas, palestras, a minha primeira SemanaCS (a Semana de Ciências Sociais do IFCH). Acho que o que se passava pela minha cabeça, em meio a tudo aquilo e a tanta informação nova, pode ser resumido em duas palavras: “quantas possibilidades!”.

Mas não sem um pouco de estresse, é claro. Ser aceita em três disciplinas como aluna especial também significou fazer apresentações, provas – (há muito tempo eu não fazia uma prova nos moldes da graduação!) – e três trabalhos finais. 

Voltei a me preocupar com normas ABNT, fichamentos, preparação de seminários. E eu consegui! Fui aprovada com boas notas, o que me motivou ainda mais a me matricular novamente como aluna especial no semestre seguinte.

Em 2019, resolvi ser mais “comedida” e me inscrevi em apenas uma disciplina, até para conseguir conciliar melhor a carga de leituras da matéria com o trabalho freelancer. 

Considero a disciplina que cursei naquele semestre, Movimentos Sociais e Participação Política no Brasil, como um ponto de virada: percebi que realmente gosto de estudar Ciência Política. Percebi que gosto ainda mais de estudar Movimentos Sociais. As minhas inquietações, aos poucos, estavam encontrando um lugar. 

A pandemia e o ensino remoto

Chegamos em 2020. Lembro que recebi a confirmação de matrícula como aluna especial em mais uma disciplina da Ciência Política num dia e, no dia seguinte, a UNICAMP anunciou a suspensão das atividades presenciais. 

Eu já havia falado um pouco no post “Pelos nossos olhos: relatos e reflexões durante a quarentena – parte 2” como estava sendo essa experiência no ensino remoto. Agora, no final de agosto de 2021, sinto que já nos acostumamos às atividades online, por mais cansativas que elas sejam (ou tenham se tornado), mas na época, há quase um ano e meio, o “território” online ainda estava por se desbravar.

Usar o Google Meet, ligar a câmera, não esquecer de desligar o áudio, levantar a mão no botãozinho do Meet para falar e tirar dúvidas, lidar com a Internet que trava bem no meio de uma fala importante do professor… Fora a falta que o contato presencial faz: circular pelos corredores do IFCH, ver gente, acompanhar as atividades extraclasse.

Mas deu certo. Tem dado certo. Aqui, sinto que é importante ressaltar que eu tenho a oportunidade de trabalhar em casa e tenho uma estrutura material boa: apesar das quedas eventuais de conexão, disponho de uma internet de banda larga e de um aparelho notebook, elementos que possibilitam que eu acompanhe as aulas remotas. 

Mas muitos dos alunos não têm essa estrutura. Visando proporcionar condições para que a comunidade acadêmica possa continuar acompanhando as aulas no ensino remoto, desde o ano passado a UNICAMP tem se mobilizado para doar computadores e notebooks para os alunos que não possuem esses equipamentos.

Como é ser aluna especial

Pouco mais de três anos após aquele primeiro semestre como aluna especial no IFCH, a primeira coisa que eu tenho a dizer é que vale muito a pena. Para quem se formou e seguiu outros caminhos, mas continuou com aquela vontade de voltar ao ambiente acadêmico, ser aluna especial é uma oportunidade e tanto de reinserção.

Conheci muita gente, acessei a produção teórica de autoras e autores incríveis, tive aulas com professoras e professores igualmente incríveis que são referência em suas respectivas áreas no Brasil e participei de grupos de leitura, discussão e estudos. 

O percurso exploratório que venho percorrendo me fez entender que eu queria continuar estudando, lendo e pesquisando. Ser aluna especial foi essencial para que eu chegasse a esse entendimento.

Além disso, não fosse a minha experiência como aluna especial na UNICAMP, eu acredito que não teria entrado em contato com o Ciência Pelos Olhos Delas e nem respondido a chamada da Marina Felisbino para novas colaboradoras em 2019. Participar deste projeto de divulgação científica também é uma forma de eu agradecer e retribuir à UNICAMP por tudo o que eu ganhei, simbolicamente, nos últimos anos.

Olhando para o futuro

Retornar à universidade como aluna especial foi uma oportunidade de voltar ao ambiente acadêmico no meu próprio tempo, respeitando o meu ritmo e possibilitando que eu buscasse os temas que mais me interessam. 

Com esse acúmulo de experiências, as minhas inquietações iniciais – aquelas que mencionei lá no comecinho do texto – vêm se desenvolvendo no formato de um projeto de pesquisa.

Aqui, é necessário contextualizar que em 2017, um ano antes de eu começar a minha “jornada” como aluna especial, estive por um tempo na Argentina e observei a atuação do movimento feminista local em relação à luta pelos direitos sexuais, reprodutivos e não-reprodutivos das mulheres. 

Especificamente, a luta pela descriminalização e pela legalização do aborto. Eu me perguntava coisas como “por que e como as feministas argentinas se articulam desse jeito?”, e, graças ao que eu aprendi no IFCH, encontrei um espaço onde essas minhas inquietações podem finalmente se materializar com o aporte de teorias e conceitos.

Ser aluna especial no IFCH também me ajudou a ter confiança para buscar outros espaços para além da UNICAMP, como o Grupo de Estudos sobre Aborto da Universidade Federal do Espírito Santo – GEA UFES, que promove encontros virtuais com a participação de pessoas de várias partes do Brasil.

Por enquanto, estou conciliando a atuação profissional como redatora freelancer com as atividades e produções acadêmicas. Agora, três anos – e muitas disciplinas feitas – depois daquele primeiro dia perdida entre o IFCH e o IEL, eu reitero o meu sentimento de gratidão pela possibilidade de ser aluna especial de uma das melhores universidades da América Latina, e incentivo aquelas e aqueles que querem voltar a estudar a buscarem saber das oportunidades de matrícula como aluno especial nos institutos de ensino superior espalhados pelo nosso país.


Juliana Aguilera Lobo

Graduada em Relações Internacionais pela UNESP Franca, atualmente é aluna especial no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. Realiza pesquisa nas áreas de Ciência Política e Estudos de Gênero e tem interesse em Divulgação Científica. É fascinada pelo céu estrelado desde que se entende por gente.

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