Celebrando Bertha Lutz – a bióloga brasileira que lutou pelo reconhecimento internacional da igualdade de gênero

Publicado por Gabriela Mendes em

Bertha Maria Júlia Lutz nasceu em São Paulo em 1894 e foi uma importante naturalista, bióloga, ativista dos direitos das mulheres e diplomata brasileira. Filha da enfermeira inglesa Amy Fowler e do médico e cientista brasileiro Adolfo Lutz, pioneiro nas pesquisas em Medicina Tropical, aos 14 anos foi estudar na Europa. Graduou-se em Biologia pela Universidade de Paris – Sorbonne em 1918, especializando-se em anfíbios anuros, pertencentes a classe Anfíbia, que inclui sapos, pererecas e rãs. 

Ainda na graduação, Bertha conheceu e foi influenciada pelo movimento sufragista inglês, que lutava para que as mulheres tivessem direito ao voto e a participação na vida política. Essa influência teria papel fundamental anos depois quando a brasileira ajudaria a fundar a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), em 1922, da qual foi presidente até 1942 e que lutava pelo direito ao voto feminino no Brasil. 

Marie Curie, sentada, e sua filha Irène Joliot-Curie, em pé no canto direito, ao lado de Bertha Lutz em visita ao Museu Nacional do Rio de Janeiro em 1926. Fonte: Arquivo do Museu Nacional.

Um ano após retornar ao Brasil, em 1919, Bertha foi aprovada em um concurso e nomeada secretária do Museu Nacional do Rio de Janeiro, se tornando a segunda mulher a assumir cargo de serviço público no Brasil. Sua carreira como bióloga e pesquisadora do Museu Nacional ocorreria simultaneamente com a sua atuação política nos anos seguintes: as diversas viagens que ela faria para coletar materiais relevantes a sua pesquisa e especialidade coincidiriam com as viagens que ela faria como convidada da delegação brasileira para assuntos políticos. Sua carreira como diplomata foi marcada por diversas viagens aos Estados Unidos como membro da comissão brasileira em diferentes ocasiões, como na Comissão Interamericana de Mulheres e na Conferência Internacional do Trabalho, entre 1922 e 1959.

Como exemplo do reconhecimento do seu papel de liderança na luta pelos direitos das mulheres no Brasil, Bertha recebeu em 1926 a cientista Marie Curie no país, a primeira pessoa e a única mulher a receber dois prêmios Nobel em categorias diferentes (Física e Química), e sua filha Irène Joliot-Curie, que também veio a ganhar um Nobel de Química em 1935.

Entre 1927 e 1930, foi assistente da Seção de Botânica do Jardim Botânico. Uma de suas grandes contribuições na ciência foi a catalogação de 4.400 espécies nacionais. Além disso, ela também contribuiu para a manutenção do trabalho de Adolfo Lutz, dando continuidade as pesquisas que seu pai fazia em zoologia médica, parasitologia, veterinária, bacteriologia e botânica. 

Bertha também teve significativa atuação na política nacional. Em 1932 o voto feminino foi permitido no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas por meio do novo Código Eleitoral. Eleita deputada federal suplente pelo Distrito Federal, chegou a assumir o cargo em 1936 após a morte do titular Cândido Pessoa, e lutou por igualdade salarial, licença maternidade de 3 meses e redução da jornada de trabalho. Entretanto, a carreira parlamentar durou pouco devido ao Estado Novo decretado em 1937 também por Getúlio Vargas, fechando o Congresso Nacional. 

Bertha Lutz trabalhando em laboratório em foto não datada. Fonte: Arquivo Nacional, fundo Correio da Manhã.

No final de 1937 Bertha então retornou ao Museu Nacional, onde assumiu o lugar do chefe do Setor de Botânica. Entre 1941 e 1944, a bióloga participou de excursões científicas nos estados de São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro a fim de coletar materiais de anfíbios e répteis. No ano seguinte, em 1945, ela foi nomeada para representar o Brasil na Conferência Internacional das Nações Unidas, em São Francisco – Califórnia. A ativista lutou, juntamente com outras delegações, para que o texto da Carta das Nações Unidas, tratado que formou a Organização das Nações Unidas (ONU), incluísse a igualdade de gênero. E conseguiu: Bertha foi uma das 4 mulheres a assinar o documento. 

A naturalista voltou a trabalhar no Museu Nacional, até se aposentar como Chefe do Setor de Botânica em 1964. Foram mais de 40 anos dedicados como pesquisadora e docente do Museu Nacional. E foi somente um ano depois da sua aposentadoria, em 1965, com a edição do Código Eleitoral, que o voto feminino foi de fato igualado ao voto masculino no Brasil – até então, somente as mulheres assalariadas podiam votar.

Devido a sua atuação pela defesa dos direitos femininos na Conferência de São Francisco, Bertha foi convidada pelo Itamaraty, em 1975, para participar da comemoração do Ano Internacional da Mulher, na Cidade do México, organizada pela ONU. 

Bertha Lutz faleceu de pneumonia em 1976 aos 84 anos. Seu acervo pessoal, incluindo fotos e documentos, foi doado ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, mas infelizmente foi perdido no trágico incêndio de 2018. Entretanto, seu legado permanece: nas espécies de anfíbios que recebem seu nome, na sua relevante contribuição para a área da biologia, no seu empenho em defender os direitos femininos no Brasil.

 

Para ler outro post do Blog Ciência pelos Olhos Delas sobre Bertha Lutz acesse: 

Pioneiras da Ciência no Brasil – Ciência pelos olhos delas

 

Referências:

http://www.museunacional.ufrj.br/semear/berthalutz.html

https://www12.senado.leg.br/noticias/entenda-o-assunto/bertha-lutz

http://www.sbpcnet.org.br/site/publicacoes/outras-publicacoes/livro_pioneiras.pdf

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bertha_Lutz

http://lhs.unb.br/bertha/?p=83

 

 

 

 

 

 


Gabriela Mendes

É formada em Biomedicina e Mestre em Biologia Celular pela UFU, atualmente é doutoranda em Genética na Texas A&M University, College Station, EUA. Acredita que a educação transforma o mundo e que o conhecimento é libertador, principalmente para as mulheres.

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