Vous voulez parier?

Tem muita gente nesse mundo que sabe falar uma língua estrangeira. E apesar da grande variação no nível de proficiência das pessoas, a verdade é que muita gente consegue “se virar” sem problemas em uma outra língua que não a língua materna. Seja em portunhol, em inglês tabajara ou o francês macarrônico, muitas vezes o “embromation” funciona.

Apesar de existir, para várias línguas, testes padronizados que mensuram a proficiência de falantes não-nativos (e que levam em consideração vários aspectos que são relevantes linguisticamente), as pessoas leigas costumam medir sua proficiência de uma forma completamente diferente. E eu acho isso muito curioso! Ontem, por exemplo, eu estava em um café tendo uma reunião via Skype com alguns colaboradores que tenho em Montréal, no Canadá. A conversa estava sendo toda em francês (bom, pelo menos era a língua que eles estavam falando comigo). Quando desliguei a ligação, uma senhora na mesa ao lado começou a conversar comigo em francês. Quando eu disse a ela que eu não era tão proficiente assim, ela logo perguntou: “Mas você pensa em português ou em francês?” É como se pensar em uma outra língua fosse o que determinasse o seu nível de proficiência naquela língua. E não só isso! Será que pensamos diferente quando falamos línguas diferentes?

Boaz Keysar e um grupo de pesquisadores no Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago fizeram uma série de estudos para investigar exatamente essa pergunta. Quando temos que decidir alguma coisa, temos basicamente dois tipos de processos cognitivos que podemos utilizar. Podemos utilizar uma forma de pensar mais “analítica” e/ou “sistemática” ou podemos utilizar uma forma de pensar mais “intuitiva” e/ou “heurística”. São vários os fatores que influenciam que tipo de pensar utilizamos. Quando estamos cansados, por exemplo, temos uma tendência maior a pensar de maneira mais intuitiva, ao passo que quando nos distanciamos emocionalmente do objeto de análise, pensamos de maneira mais analítica. Será que a língua que utilizamos também modifica a nossa forma de pensar?

Para testar isso, Boaz deu aos participantes da pesquisa uma série de tarefas de tomada de decisão na língua nativa deles ou em uma língua estrangeira, e depois verificou se havia alguma diferença no padrão de respostas das pessoas. Em geral, temos uma tendência a tomar decisões que evitam perdas. No entanto, as vezes essa tendência muda quando mudamos o modo como o problema é apresentando. Por exemplo: imagine que eu digo a você que no hospital X existem 600 pessoas doentes. Você precisa escolher o remédio (A ou B) que quer utilizar para essas pessoas. Com o remédio A você vai salvar 200 vidas e com o remédio B você tem uma chance de salvar todas ou nenhuma. Geralmente as pessoas escolheriam o remédio A, por uma aversão à perda. No entanto se eu disser que com o remédio A você perde 400 pacientes e com o remédio B você pode perder todos ou nenhum, nesse caso as pessoas tendem a preferir o remédio B. Note, no entanto, que a quantidade de pessoas que sobrevivem com o remédio A é a mesma nas duas situações. Esse fenônemo é conhecido como “efeito de enquadramento“.

Boaz deu uma série de problemas semelhantes a esse na língua nativa do participante ou em uma língua estrangeira. Os resultados mostraram que esse efeito de enquadramento simplesmente desapareceu quando os participantes fizeram a tarefa em uma língua estrangeira, ou seja, os participantes pareciam estar utilizando um modo de pensar mais analítico e não intuitivo. Para explorar essa possibilidade, Boaz fez mais um outro estudo interessante. Ele deu a cada participante um total de $15. Durante o experimento, Boaz apresentava ao participante uma série de oportunidades (na verdade, 15 oportunidades) para apostar $1 em um jogo de cara/coroa. Para cada aposta, se o participante ganhasse, ele ficaria com o $1 que ele apostou e ainda ganharia mais $1,50. Se ele perdesse, ele perderia o $1 que apostou e não ganharia nada.

As apostas foram apresentadas na língua nativa do participante ou em uma língua estrangeira. Os resultados mostraram que as pessoas que ouviram sobre as apostas na língua estrangeira apostaram muito mais do que as pessoas que escutaram as apostas na língua nativa, ou seja, eles demonstraram uma menor aversão a perdas (o que, no caso da tarefa, maximizava os ganhos).

Mas no final das contas, por que isso acontece? Para Boaz, o uso de uma língua estrangeira reduz o que os pesquisadores chamam de ressonância emocional que muitas vezes está associada à tomada de decisões mais intuitivas e heurísticas. É como se o nosso sistema cognitivo se distanciasse de qualquer influência emocional quando processa uma língua estrangeira.

No final das contas, a dica que fica é: cuidado ao ir à Las Vegas se inglês não for sua língua nativa! 🙂

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Referência:
Boaz Keysar, Sayuri L. Hayakawa, & Sun Gyu An (2012). The Foreign-Language Effect : Thinking in a Foreign Tongue Reduces Decision Biases Psychological Science DOI: 10.1177/0956797611432178

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