Fala que eu te entendo

O desenvolvimento da comunicação foi essencial para que pudéssemos ser entendidos por outras pessoas e, com as bactérias, não é diferente! As bactérias também precisam se comunicar para conseguir responder a alterações ambientais e colonizar o hospedeiro. Só que elas não se comunicam por meio do som, como nós fazemos, mesmo porque elas não falam, né amiguinho!!!

A comunicação das bactérias acontece por meio de MOLÉCULAS, uma dessas é conhecida como DSF (Difusible Signal Factor) e que são percebidas por outras bactérias. Fazendo uma comparação com os humanos, é como se as bactérias produzissem um som que pudesse ser ouvido pelas outras que estão mais perto. Quando isso acontece, alguns genes têm sua expressão alterada, como se dentro das bactérias alguns botões fossem ligados e outros desligados para que a comunicação acontecesse perfeitamente. Este mecanismo de comunicação por meio de moléculas se chama Quorum Sensing e você já viu sobre isso aqui no Blog

E se fosse possível produzir plantas capazes de se comunicar com as bactérias?

Foi justamente isso que alguns pesquisadores desenvolveram: plantas transgênicas de laranja que produzem aquela molécula (DSF) das bactérias e assim fizeram com que a laranja conseguisse “conversar” com a bactéria Xylella fastidiosa, que causa a doença chamada de CVC (Clorose Variegada dos Citros) ou amarelinho. As laranjeiras transgênicas passaram a produzir muito DSF e é como se elas sussurrassem para as bactérias “DSF…DSF…DSF” e a Xylella entendeu o que as plantas estavam falando para ela.

Quando a molécula de DSF é percebida pela Xylella fastidiosa, a bactéria causa menos doença na planta de laranja. Isso ocorre porque essa molécula de DSF em Xylella ativa genes (ligam botões) que aumentam a adesão das bactérias, ajudando as bactérias se grudarem mais com as outras, contribuindo para aumentar a formação de biofilme, que nada mais é do que a comunidade de bactérias.

Mas você pode estar se perguntando, o biofilme não ajuda na colonização da planta, então, por que aumentar essa condição?

É que, quanto mais biofilme as bactérias formam, menos elas se movimentam pela planta, o que diminui a colonização de diferentes vasos do xilema, fazendo com que a severidade da doença diminua.

Confusão na comunicação

Pesquisadores demonstraram que é possível confundir as bactérias através da alteração do seu sistema de comunicação, desenvolvendo plantas transgênicas que fabricam a molécula de DSF, utilizando o gene rpfF. Esse gene veio da própria bactéria Xylella fastidiosa, já que ela também usa esse gene para produzir o DSF. As plantas de laranja contendo esse gene demonstraram sintomas da doença menos severos quando comparados aos sintomas de plantas não transgênicas.

A redução da severidade é porque a bactéria se movimenta menos através da planta, uma vez que a quantidade de bactérias encontrada nos pontos mais altos da planta (ponteiros) era menor nas transgênicas, sugerindo que a bactéria não se movimentou com eficiência.

O trabalho em questão pode ser encontrado aqui e a foto nesse post foi a capa da revista na qual esse trabalho foi publicado. Muitos outros resultados promissores como esse ainda estão por vir, pois testes em campo estão em fase de elaboração e espera-se que essas plantas ainda continuem conversando muito bem com as bactérias, fazendo elas ficarem bem paradinhas em um ponto só da planta para não causarem estragos nos pomares.

 

Escrito por Raquel Caserta Salviatto e editado por Laís Moreira Granato e Paulo Camargo

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