Resistir, Persistir, Avançar! A luta de uma bactéria pela sobrevivência

resistência a antibióticos
Ann R. Punnoose, MD; Cassio Lynm, MA; Robert M. Golub, MD JAMA. 2012;308(18):1934. doi:10.1001/jama.2012.6916

Pode não parecer, mas é uma guerra. Os bilhões de bactérias que nos rodeiam (causadoras de doenças ou não), vivem constantes lutas para conseguir sobreviver.

As substâncias mais famosas por serem tóxicas para bactérias são os antibióticos (anti = contra; bios = vida), MOLÉCULAS QUE SÃO USUALMENTE UTILIZADOS SOMENTE CONTRA BACTÉRIAS.

Nunca – veja bem, NUNCA podemos utilizar um antibiótico contra um ataque de vírus ou fungos, e você vai entender melhor daqui a pouco o porquê.

E como os antibióticos “sabem” que só podem matar bactérias?

Na verdade, eles não sabem de nada, mas geralmente eles atuam em processos ou moléculas que somente existem neste tipo de microrganismo. Por exemplo, o antibiótico Rifampicina tem como alvo a enzima RNA polimerase das bactérias. Esta enzima tem como função ler o DNA, sintetizando outra molécula: o RNA. Assim, sem síntese de RNA não há síntese de proteínas (nós já explicamos isso para vocês em outro post….) e rapidamente seu metabolismo entrará em colapso.https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5127510/

Mas aí você me pergunta: E por que então a gente não morre quando toma esse antibiótico? Nós também essa tal de RNA polimerase? SIM! Nós temos o mesmíssimo sistema que as bactérias têm, MAS… a nossa RNA polimerase é um pouco diferente, e a rifampicina não consegue atuar bloqueando-a. 😉 E assim é com vários outros antibióticos.

Antibióticos - usar com cautelaOs antibióticos são específicos para as bactérias! Eles são capazes de seletivamente atuar nas células de bactérias, deixando intactas as células do hospedeiro (no caso nós, quando estamos com uma infecção).

Mas então, por que existem tantos tipos de antibióticos? Se eu tiver uma infecção é só tomar um antibiótico e sarar?

Só que não caro leitor! Você se esqueceu que as bactérias são organismos vivos, que existem na Terra há mais de 3 bilhões de anos? Elas não são bobas, e são capazes de brigar como gente grande na luta pela sobrevivência!

São basicamente dois jeitos: um conhecido como resistência e outro chamado de persistência.

Resistência das bactériasA resistência é um fenômeno genético e significa que um antibiótico passa a não funcionar mais em uma bactéria. Geralmente isso ocorre porque ela adquiriu um gene que confere a ela esta nova habilidade e pior: ele pode passar rapidamente de bactéria pra bactéria, já que muitas são capazes de “engolir” pedaços de DNA com novas informações genéticas.

E aí é um grande problema: é necessário trocar de antibiótico até que se encontre um capaz de acabar com esta infecção. E cada vez mais, estamos ficando com menos opções e isso é um grande problema.

Mas, mesmo que uma bactéria não tenha um gene especial, ela ainda assim pode ser capaz de sobreviver Persistência das bactériasa um ataque de moléculas tóxica simplesmente DORMINDO. Isso mesmo! O processo é conhecido como persistência e é característico das bactérias que estejam em uma condição adversa, como falta de nutrientes, por exemplo. Ao invés de morrer, ela simplesmente entra um estado parecido com a hibernação, e suspende suas atividades biológicas por algum tempo. Enquanto ela “dorme”, moléculas tóxicas acabam ficando incapazes de agir, pois precisam que a bactéria esteja “acordada” (ativa) para poder atuar. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28529326

Não entendeu?

É assim: lembra da rifampicina, que atua bloqueando a síntese do RNA? Para que ela possa matar uma bactéria, a RNA polimerase precisa estar funcionando, senão o antibiótico, por mais que entre na célula, acaba ficando sem alvo. Assim, as bactérias permanecem neste estado de vida suspensa e, quando acordam, o perigo já não está mais presente, e elas voltam a crescer normalmente.

Espertinhas né? Pois é, não é à toa que estes serzinhos minúsculos dominam a Terra há tanto tempo!

E aí? Ficou com alguma dúvida?

Deixe seu comentário com perguntas e sugestões para nossos próximos posts!

Escrito por Paula Maria Moreira Martins

 

About Laís 19 Articles
Bióloga, Mestre em Agricultura Tropical e Subtropical, Doutora em Genética e Biologia Molecular e Pós-doutoranda do Centro de Citricultura "Sylvio Moreira".