Manejo de Resistência de Insetos: Superpoder

Você já viu aqui no blog que existem bactérias com superpoderes capazes de:

  1. produzir toxinas (toxinas Bt, produzidas pela bactéria Bacillus thuringiensis – Bt) para matar insetos indesejáveis às lavouras;
  2. transferir esses superpoderes para as plantas para que elas possam produzir tais toxinas.

E como dizia Stan Lee: “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades” e, nesse caso, não é diferente. Para que esses superpoderes possam continuar sendo usados por anos, alguns cuidados são necessários.

Evolução dos insetos

Os insetos estão conseguindo se tornar mais fortes e sobreviver às toxinas que deveriam matá-los. Assim como contamos o que acontece com as bactérias, com o tempo os insetos também podem adquirir resistência naturalmente.

Esse fato é bastante raro e um único inseto resistente não deveria ser capaz de causar muitos danos, mas existe o grande desafio de impedir que ele passe essa característica de resistência para seus descendentes, o que daria origem a uma população de insetos resistentes.

Calma!

Existem algumas estratégias que podem ser utilizadas para evitar que isso aconteça e esse conjunto de práticas é chamado de Manejo de Resistência de Insetos ou MRI.

Manejo de Resistência de Insetos

Uma das estratégias de MRI inclui o uso de múltiplos modos de ação dos produtos (inseticidas), ou seja, o modo como eles agem nos insetos.

A maioria dos produtos químicos atuam sobre o sistema nervoso dos insetos e os sintomas são excitação, convulsão, paralisia e morte.

Como já vimos anteriormente, as toxinas Bt, atuam de uma forma muito específica, e o surgimento de genes de resistência são eventos raros. Sendo assim, basta fazermos uma conta simples.

Agora vem a hora da matemática, mas calma, é bem simples! Sabemos que:

  1. a chance de um inseto se tornar resistente a um produto A é de 1 em 1000
  2. a chance do mesmo inseto se tornar resistente ao produto B também é de 1 em 1000
  3. A chance de um inseto se tornar resistente aos dois produtos (A e B) é de 1000 X 1000, o que resulta em 1 inseto resistente a ambos os produtos em 1.000.000.

Isso quer dizer que, quando são utilizados produtos com modos de ação diferentes, a chance de um inseto ser resistente aos dois ao mesmo tempo diminui exponencialmente.

Já existem plantas transgênicas que produzem combinações de toxinas Bt, aumentando sua eficácia e permitindo que ela permaneça eficiente por mais tempo.

A última lagarta samurai

Outra estratégia inclui o uso de uma dosagem efetiva ou ideal, que é recomendada na bula dos inseticidas ou por um profissional habilitado. Essa dosagem é determinada a partir da avaliação das condições ideais para que o produto seja realmente eficiente.

Vamos imaginar que um grupo de insetos seja um exército com diferentes níveis de habilidades. Você enviaria um soldado não muito hábil para lutar contra eles? Por mais que ele consiga derrotar a maioria dos adversários, no final da luta somente os mais fortes sobreviveriam.

Quando um produto Bt é utilizado sem que se sigam as recomendações, o mesmo acontece, uma vez que ele não surtirá efeito nos insetos mais resistentes. A longo prazo, essa prática se torna um prato cheio para que esses indivíduos super-resistentes passem essa característica para seus descendentes.

No caso das plantas transgênicas, existe a vantagem de não precisarmos nos preocupar com a dosagem correta já que a “liberação é automática” e já ocorre nas quantidades e locais adequados, não dependendo do fator humano.

Plantas Transgênicas

Apesar das vantagens das plantas transgênicas, seu uso também requer cuidados específicos, e um dos mais desafiadores é o uso do refúgio.

Refúgio é uma área (entre 5 a 20% do total da lavoura) plantada com plantas convencionais (sem as toxinas Bt) bem próxima à plantação do transgênico. Essas plantas servirão como fonte de insetos suscetíveis às toxinas.

A primeira vista, pode parecer estranho recomendar uma área que favoreça o aparecimento de insetos, justamente quando estamos tentando lutar contra eles. Mas para que você entenda melhor essa estratégia, é importante lembrar que somos resultados da combinação dos genes dos nossos pais. E também que algumas características específicas são herdadas somente quando ambos os pais a possuem, como é o caso dos insetos totalmente resistentes.

Um inseto só nasce “resistente” se o pai e a mãe também forem “resistentes”. Insetos que possuem apenas um dos pais “resistentes” até pode ter uma pequena resistência, mas não sobreviverão às doses de aplicação recomendadas dos produtos químicos ou às plantas transgênicas. Sendo assim, quando um inseto resistente surge em uma lavoura transgênica, a única possibilidade de ele conseguir ter filhos é se ele se acasalar com outro inseto resistente.

Se isso acontecer, a catástrofe está anunciada, já que todos seus filhos e as próximas gerações serão compostas 100% por insetos resistentes.

Por outro lado, se houver uma fonte de indivíduos susceptíveis, como no refúgio, existirá a possibilidade desses insetos se acasalarem com os resistentes evitando que essa característica seja passada para as próximas gerações.

Basicamente a estratégia consiste em infiltrar indivíduos na população para acabar com a “raça” de insetos “puro resistentes”.

Para o caso de cultivos com tecnologia Bt, recomenda-se o uso do refúgio com o plantio da mesma cultura, porém sem a tecnologia Bt ou convencional (não transgênico). Como a função da área de refúgio é produzir indivíduos suscetíveis à tecnologia Bt, também não devem ser aplicados bioinseticidas a base de toxinas Bt.

Tanto para o produtor quanto para o consumidor, os transgênicos têm demonstrado cada vez mais seu potencial produtivo, nutritivo, entre outras vantagens. Porém para que essa tecnologia não fique inviabilizada, é necessário o uso consciente respeitando anos de pesquisas realizadas a fim de viabilizar essa tecnologia e facilitar a vida de quem produz.

Consulte sempre um profissional agrônomo.

Escrito por Amanda Bernardi

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