O DNA do geneticista

O DNA do geneticista

O geneticista, ao confessar seu ofício, normalmente se depara com as mais animadas interjeições: “Uau!”, “Que chique!”, “Deve ser muito interessante!”. Impossível não compreender, impossível não endossar tais reações, pois há muito, senão tudo, de delicioso nesta profissão. A missão do geneticista é desvendar os meandros da hereditariedade e as ligações entre as moléculas que habitam o núcleo das células e as características dos respectivos organismos, tais como altura, tipo sanguíneo ou predisposição a doenças. Das mais diferentes formas e com as mais diferentes abordagens, nosso trabalho é compreender como se relacionam mundos biológicos, operando em escalas diferentes, micro e macroscópica. O mundo microscópico é onde estão os genes, unidades invisíveis cuja função é guiar, junto com o ambiente, o que irá acontecer no mundo macroscópico. O mundo microscópico, com sua natureza intangível, misteriosa, cada vez mais evidente em sua complexidade, belíssima em sua arquitetura e composição, é música de alta qualidade para os ouvidos dos geneticistas. Somos estudiosos de suas partituras e encontramos objetivo no exercício de investigar tal mundo, esclarecer como ele é promotor da coesão típica das relações hereditárias, identificar as rotas que o conectam com o mundo visível. Regente da orquestra do mundo microscópico? O DNA.

ALCUNHAS E ALCANCES

DNA é acrônimo em inglês de “ácido desoxirribonucléico”. Foi a molécula designada pela Evolução para executar a hereditariedade e carregar o código genético. Talvez por isso exerça um fascínio inversamente proporcional a sua dimensão. Mesmo antes de chegarmos a uma conclusão sobre sua estrutura tridimensional, descoberta formalizada em 1953 por James Watson e Francis Crick, era latente a inquietação sobre como o DNA dita regras biológicas macroscópicas, do alto do seu minimalismo dimensional.

Na história, nosso regente recebeu várias alcunhas. Se hoje é facilmente reconhecido pelas famosas três letras ou pela charmosa expressão “dupla hélice”, houve época em que a incerteza sobre sua natureza química dificultava inclusive a escolha de uma palavra para sua denominação. Já foi “nucleína”, quando Friedrich Miescher descobriu um novo tipo de molécula que ocupava o núcleo das células;  o “princípio transformante” de Frederick Griffith, caracterizado pelo trio Oswald Avery, Colin MacLeod e Maclyn McCarty como a molécula responsável pela patogenicidade em bactérias; o pouco conhecido “sólido aperiódico”, interpretação dada pelo super conhecido Erwin Schrödinger em sua influente obra What is Live? para descrever uma molécula com características de regularidade estrutural não repetitiva.

Modernamente, após se popularizar e extrapolar os domínios da Academia, é muitas vezes chamado de “código genético”. O código genético é, porém, apenas um sistema – implementado no DNA – que contém as regras para a confecção de proteínas. Gosto de pensar que usarmos “código genético” em vez de “DNA” não é propriamente um erro, mas sim um amálgama biolinguístico, um caso de metonímia biológica, onde optamos por usar a parte – o código propriamente dito, uma das funções do DNA – pelo todo – a molécula em si. [Os colegas das Letras estão incumbidos de me corrigir caso eu tenha me excedido nesta gracinha analógica.] Há também o uso quase indistinto de “genes” e “cromossomos” para referenciá-lo. Os genes são porções do DNA e os cromossomos, complexos de DNA e proteínas altamente condensados. Em um senso mais conotativo, quem nunca disse “Está no meu sangue!”, para justificar um cacoete familiar não necessariamente dos mais louváveis? DNA também é sangue, é aquilo que herdamos, do qual não nos livramos, para o mal, mas essencialmente, para o bem… Vejam se concordam comigo: a latitude semântica de “DNA”, com sua paleta de tonalidades, das menos às mais técnicas, contém sempre a noção de idiossincrasia, aquilo que nos define e diferencia.

IDIOSSINCRASIAS DO GENETICISTA

E o que define e diferencia um geneticista? Quais são seus interesses peculiares? O que ele procura ao usar as diferentes lentes do microscópio da Ciência? A Genética é, de forma abreviada, o estudo da hereditariedade – o fluxo de informações biológicas ao longo das gerações. A depender da lente que escolhemos, este processo de transmissão continuada pode ser estudado em diferentes escalas de tempo e entre diferentes conjuntos de organismos, mas nunca se afasta do objetivo principal que é compreender a força da conexão entre o que está impresso no DNA e as características dos indivíduos. Desvendar as nuances compreendidas nesta conexão é a missão primeira e máxima do geneticista. Algumas perguntas que nos são idiossincráticas: (1) como a informação codificada no DNA molda conjuntos de características dos seres vivos?; (2) quantas e quais destas características são herdáveis e, portanto, determinadas pelo DNA?; (3) como DNA e ambiente interagem para construir características?; (4) quais são as regiões do DNA associadas a cada uma das características que podemos identificar?; (5) como diferentes regiões do DNA se comunicam e se regulam para manter a promoção de uma dada característica?; (6) como as variações no nível do DNA podem explicar as variações no nível das características?; (7) como as variações no nível das características podem informar sobre as variações no nível do DNA?

Ousemos trajar a pergunta número 7 com a toalete do século XIX e veremos que, se aqui foi listada por último, seu valor é inaugural. Um dia, quando o DNA ainda sofria do completo anonimato, um monge decidiu observar as variações nos padrões de algumas características vegetais, como cor e tegumento. O monge fez inúmeros cruzamentos e, ao notar a regularidade entre proporções de cada uma das variações nas progênies, não precisou usar sua fé para concluir a existência de “elementos”, que determinavam tais características e fluíam ao longo das gerações. Nascia de maneira despretensiosa – e permaneceria sem registro por décadas! – a Genética. Na sua paternidade, estava um cientista que já manifestava as idiossincrasias que viriam a nos definir.

Colegas que me leem, eu sei que vocês sorriram quando, pela primeira vez, viram emergir dos dados a inefável proporção 1:2:1. A ocorrência desta proporção é uma das nossas mais elementares lições, mas vivenciar o prazer mendeliano nos certifica como praticantes cuidadosos da Genética. Estamos falando sobre coisas que estão no nosso DNA, não é mesmo?

CONEXÃO INDELÉVEL

Esta geneticista espera que as entrelinhas deste texto tenham despertado em você, leitor, a vontade de conhecer mais. Há tanto, tanto mais a saber sobre este tema! Caso você decida me conceder um voto de confiança, que seja nesta ideia: em retrospecto, a conexão entre os geneticistas e o DNA é um exemplo de sucesso da empreitada da espécie humana na busca pelo entendimento de sua própria história, da sua existência. O homem sempre reconheceu as semelhanças intrafamiliares e desejou identificar e entender a fonte destas semelhanças. Desvendar os fatores responsáveis pela hereditariedade tornou-se curiosidade legítima e fomentou até questões mais profundas, tal como de que maneira estamos ligados a outras espécies em uma escala hereditária de ampla dimensão. Para aliviar estas curiosidades, aplicou-se um poderoso protocolo de coleta, interpretação e integração de lotes de evidências chamado Ciência, uma invenção da qual devemos nos orgulhar. O ideário científico possibilitou a contínua expansão das fronteiras do conhecimento, ora de forma não intencional, ora de forma deliberada, e avançamos até a conclusão de que o DNA era a resposta. Afinal, alguém já dissera, o DNA explica.

CONHEÇA O AUTOR

Bióloga, pós-doutoranda, interessada nos processos naturais acontecendo na escala molecular. Em um relacionamento sério com o DNA desde 1999. Gosta de tentar entender o mundo e de formalizar sua compreensão em palavras que possam ser compreendidas por outros. Acredita que o melhor Relações Públicas da Academia é quem faz o exercício da Ciência...e está aqui por este motivo.

10 thoughts on “O DNA do geneticista

  1. Adorei! Lembro-me da minha primeira vez que fiz uma extração de DNA de um anuro (s2).. aquele precipitado esbranquiçado.. abriu meu mundo! Parabéns pelo texto!
    Nós podemos até deixar a ciência, mas ela nunca, nunca, nos deixa!

    1. Obrigada por seu comentário, Moni!
      E é isso mesmo: a Ciência se apresenta e a gente não aguenta 😀
      Ela é irresistível! Um caminho felizmente sem volta 🙂

  2. Tamanha relevancia são suas palavras no dia de hoje! Belo trabalho! Com esse primeiro post vejo que este blog é e será de muita importância para a comunidade!

    1. Obrigada por seu comentário, Thamiris!
      Torcemos para que você esteja super certa!
      Nossa missão é transcrever e traduzir a Genética para todos os interessados 😉

    1. Obrigada por seu comentário, Michel!
      Sim, a curiosidade também está no nosso DNA, você não poderia estar mais certo!
      Tomara que a Evolução permita que seja assim pra sempre 😉

  3. Adorei, trabalho tao importante de divulgar essa area de pesquisa para a comunidade!
    Nunca me esqueco da primeira vez que recebi um resultado de sequenciamento ai no LAGM e,
    trabalhando com melhoramento de plantas ha alguns anos, ainda nao me cansei de ver as proporcoes de Mendel em meus experimentos.

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