As plantas nos unem

As plantas nos unem

Quando vi este texto pela primeira vez há alguns anos, eu estava escrevendo minha tese de doutorado e por isso não o dei a devida atenção. Naquele momento o que atraiu meu olhar foi o título do texto: “Mi cassava es tu cassava” que em tradução livre seria “Minha mandioca é a sua mandioca” (já se vão uns bons 10 anos em que pesquiso a genética de mandiocas). Entretanto, longe de ser um texto sobre mandioca, o que salta aos olhos é um bonito mapa-múndi nos quais são indicados os prováveis centros de origem e diversidade das plantas mais importantes que cultivamos atualmente.


Origins and primary regions of diversity of agricultural crops” por Khoury et al. (2016), usado sob CC BY (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/).
Tradução do original (link permanente: https://hdl.handle.net/10568/75665) para português.


Pode ser engraçado pensar que, assim como eu nasci em Manaus e o leitor em sua cidade natal, as plantas também sejam originárias de um determinado local (algumas inclusive podem ser de vários locais, mas vamos permanecer simplistas). Mais do que isso: olhando para o mapa é fácil perceber como muitas plantas diferentes possuem os mesmos locais de origem. Na ciência conhecemos estas regiões do mundo como “centros de domesticação de plantas”. Numa busca rápida no dicionário on-line Michaelis, o primeiro significado de domesticar é “Tornar(-se) doméstico ou caseiro”. Domesticação tem a ver então com o processo em que aproximamos organismos da natureza (animais, plantas etc.) às nossas casas. Embora algumas plantas sejam intimamente ligadas à cultura brasileira (feijão com arroz, mandioca, jabuticaba etc.), raramente paramos para pensar que estas plantas são na verdade uma “criação” humana. Tais “criações” são o resultado do processo chamado domesticação.

Para muitos dos leitores não deve ter escapado que “Mi cassava es tu cassava” é uma alusão à expressão espanhola “Mi casa es tu casa”. Esta expressão literalmente quer dizer “Minha casa é a sua casa”, algo como o nosso “sinta-se em casa” ou “a casa é sua” quando recebemos alguém em nossos lares. Demorou um pouco para eu perceber que esta sutil analogia é também uma forma de falarmos de domesticação. Falar de domesticação é falar sobre como nossos antepassados interagiram com os organismos da natureza e os modificaram para adaptá-los ao convívio em nossas casas. Pense em como lobos podem ser animais bonitos, mas como deve ser perigoso tentar abraçar um deles. É muito mais fácil (e menos perigoso) abraçarmos um filhotinho de labrador.

Foi então que resolvi revisitar o texto que divulga um estudo sobre como as plantas que usamos como alimento conectam o mundo inteiro. Não é difícil compreender isso olhando para o nosso cotidiano. Apesar da supercombinação arroz e feijão ser frequente nos nossos lares ela é originária de outras regiões do mundo. Os arrozes mais consumidos (Oryza sativa) têm origem asiática (assim como a soja, cítricos e a manga), enquanto o feijão comum (Phaseolus vulgaris) é originário da América Central (assim como o milho, a siriguela e a batata-doce). Os grãos dos quais fazemos nosso cafezinho (Coffea arabica ou Coffea canephora) têm origem africana, assim como a melancia, melões e dendê (também existe uma espécie de arroz africana – Oryza glaberrima). Esta também é uma via de mão dupla: mandiocas (Manihot esculenta) e o guaraná (Paullinia cupana) são plantas domesticadas no Brasil e que possuem grande importância mundial. Nesse contexto, é fácil imaginar como o ser humano depende de alimentos que tiveram origem em outras partes do mundo. O que os cientistas liderados por Colin Khoury fizeram neste estudo foi demonstrar o tamanho desta relação.

Veja a figura abaixo. Por conveniência os cientistas dividiram o mundo em várias regiões (indicadas por cores diferentes) e fizeram um levantamento das plantas originárias de cada uma delas (proporcional ao tamanho das barras mais grossas logo abaixo dos nomes). No centro da figura existem linhas coloridas ligando as diferentes regiões que indicam de onde as plantas são originárias e onde elas são consumidas. O grande emaranhado que podemos ver no centro da figura significa simplesmente que somos dependentes de alimentos provenientes de todo o mundo. Ou seja, todos os seres humanos do planeta estão intimamente conectados por meio das plantas que nos servem de alimento.

ONDE ENTRA A GENÉTICA?

Em nosso primeiro post, vimos que a genética estuda como os genes influenciam as características dos organismos. Sabemos que todas as características de uma dada espécie são fundamentalmente condicionadas pela sequência do DNA. Na natureza é fácil observarmos alguma característica de uma espécie e notarmos que existe variação (diferenças entre indivíduos), por exemplo: as pétalas de rosas podem ser vermelhas, amarelas, brancas… O mesmo pode ser visto nos nossos alimentos, por exemplo nos mais variados tipos de bananas, maçãs, feijões… Ora, se existem variações nas características que observamos, deve existir também variações nas sequências do DNA dos indivíduos. Chamamos o conjunto destas diferenças de diversidade genética. Existe diversidade genética entre e dentro das espécies. Foi justamente manipulando esta diversidade genética, por meio do favorecimento de características observáveis, que pudemos modificar as plantas e torná-las alimentos mais úteis. Atualmente a análise da diversidade genética tem sido de grande importância para a determinação dos locais de origem das plantas cultivadas. É com base nos padrões de variação entre plantas cultivadas e espécies silvestres parecidas que podemos inferir sobre suas origens, mais ou menos como num teste de DNA para determinar a paternidade em humanos.

Estudar a diversidade genética de nossas plantas cultivadas é importante também para podermos fazer melhor uso (tornando-as mais produtivas, por exemplo) e conservá-las, garantindo que elas continuem existindo para as próximas gerações. Por meio da caracterização da diversidade genética existente em plantas cultivadas os geneticistas podem identificar variedades com características mais atrativas (como por exemplo, rápido crescimento, maior produção, melhor valor nutricional etc.). A partir disso, variedades com características de interesse podem ser desenvolvidas por manipulação genética. Por sua vez, estimar quanta diversidade genética existe em diferentes locais é útil para sabermos quais regiões podem ser usadas como fonte de diversidade para ajudar locais mais sujeitos à perda de variedades por eventos trágicos ou por pobreza. Note como o estudo da diversidade genética de plantas é importante para a manutenção da segurança alimentar das populações humanas.

Colin Khoury e seus colegas chamam a nossa atenção para a extensiva conexão existente entre regiões do mundo por meio das plantas cultivadas. Mas não somente isso: parece haver também uma tendência cada vez maior de substituirmos a produção de plantas nativas por plantas exóticas (aquelas originárias em outras regiões). De fato, nós somos cada vez mais dependentes dos alimentos uns dos outros. Isso aumenta muito nossa responsabilidade pelo melhor uso e conservação da diversidade genética existente em nossas plantas cultivadas.

Leia mais:

Página com versões interativas das figuras (muito legal) produzidas por Khoury e colaboradores (em inglês): https://blog.ciat.cgiar.org/origin-of-crops/

Alguns exemplos de estudos de diversidade genética em plantas cultivadas (em português):

http://agencia.fapesp.br/descoberto-o-ancestral-selvagem-do-urucum/22580/

http://agencia.fapesp.br/forma-mais-popular-da-mandioca-e-consumida-ha-9-mil-anos/27608/

https://revistapesquisa.fapesp.br/2014/06/08/identidade-das-frutas-citricas/

CONHEÇA O AUTOR

Alessandro Alves-Pereira

Biólogo amazonense, filho de cearenses e devoto de Sanger. Sommelier de tapiocas e panetones. Ceramista aposentado e judoca frustrado. Nada peito melhor que crawl. Geneticista nas horas vagas. Estuda genética de populações e evolução de plantas nativas. Vamos trocar ideias?

4 thoughts on “As plantas nos unem

  1. Muito bom o texto Alessandro!
    Trabalhos que mostram a necessidade da conservação da diversidade natural das espécies para nossa segurança alimentar são muito importantes. É muito legal ver estudos genéticos contribuindo para que a relação entre agricultura e conservação da biodiversidade não seja de antagonismo e sim de necessidade. O mapa é sensacional.

    1. Obrigado pela leitura Yohans 🙂
      Não deixe de ler o artigo de Khoury et al., tem muitas outras informações interessantes e que podem nos fazer refletir.

    1. Obrigado pela leitura Fabiana!
      Ficamos felizes que tenha gostado e esperamos que também ache legal os outros posts do blog.

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