Você sabia que 1 de julho é o dia da vacina BCG?

A imagem mosta um enfermeiro negro segurando com duas mãos uma seringa com líquido que se assemelha a vacina da tuberculose

A história da BCG

Você muito provavelmente tem, ou conhece quem tenha uma marquinha de cicatriz no braço direito, sinal de que você tomou a vacina BCG, sigla para Bacilo de Calmette e Guérin. Mas calma! Essa não é uma “doença nova ou desconhecida”, é apenas o sobrenome dos pesquisadores que criaram a vacina para a tuberculose.
A história da vacina BCG começou em 1906 com os pesquisadores franceses Jean-Marie Camille Guérin e Albert Calmette tentando criar uma vacina para prevenir casos de tuberculose em humanos. A doença é transmitida pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, que também é conhecida como Bacilo de Koch, em homenagem ao pesquisador Robert Koch, que descobriu a bactéria em 1882. Para os mais curiosos, esse nome bacilo vem da forma que a bactéria tem e por isso que muitas vezes é usado como sinônimo ao se falar do Mycobacterium tuberculosis.

Em 1919, Calmette e Guérin conseguiram terminar o desenvolvimento da vacina BCG e no dia 01 de julho de 1921 foi vacinada a primeira pessoa no mundo contra tuberculose. É por isso que comemoramos essa data! Esse nome, Bacilo de Calmette e Guérin, faz menção a forma enfraquecida da Mycobacterium tuberculosis que Calmette e Guérin conseguiram desenvolver para utilizar como uma vacina contra a doença. 

Desde então, essa a BCG vem sendo muito importante em todo o mundo, principalmente para a redução da mortalidade infantil devido à tuberculose. 

Como a tuberculose é transmitida?

A tuberculose é uma doença que já acompanha a gente há muito tempo. Existem evidências que o ser humano já convive com a doença desde tempos pré-históricos, inclusive tendo sido encontrada em múmias do Egito antigo datando de 3000 A.C. Já no século XVIII, por exemplo, a tuberculose foi chamada de “doença romântica”, por muitos poetas e intelectuais ligados a obras literárias e artísticas do Romantismo terem falecido devido a ela.

Mesmo sendo uma doença antiga e havendo vacina para ela, a tuberculose ainda afeta e mata um grande número de pessoas. Por ano, estima-se que 10 milhões de pessoas adoeçam por ela no mundo, com cerca de um milhão e meio de mortes. No Brasil, ocorrem aproximadamente 80 mil novos casos por ano e ao redor de 5,5 mil mortes devido à tuberculose.

A tuberculose é uma doença transmitida pelo ar, sendo disseminada a partir de gotículas de saliva contendo a bactéria que pessoas infectadas liberam ao falar, tossir ou espirrar. A taxa de infecção para contatos próximos pode chegar a 22%, isso é, uma pessoa com tuberculose pode infectar 1 em cada 5 pessoas sem a doença que convive frequente ou intimamente com ele. Alguns estudos apontam que uma pessoa sem tratamento pode infectar até 15 outras pessoas!

Mas não vamos entrar em pânico! Pela bactéria ser sensível a luz e ser transmitida por gotículas no ar, ambientes bem iluminados por luz natural e com circulação de ar diminuem o risco da transmissão. Além disso, a tuberculose não pode ser transmitida por objetos contaminados. Assim, mesmo que a bactéria caia em roupas, lençóis, copos e talheres, ela dificilmente vai ser dispersada na forma de aerossol, assim, sua transmissão não acontece.

Quais são os sintomas da tuberculose?

O principal sintoma da tuberculose é tosse persistente (geralmente por 3 semanas ou mais), com ou sem catarro ou sangue, mas outros sintomas comuns também são a febre pela manhã, suor pela noite, emagrecimento, falta de ar e dores no peito. Esse é o caso mais comum da doença, chamada de tuberculose ativa, por afetar principalmente o sistema respiratório. 

Em casos mais graves, a doença pode ocasionar problemas neurológicos e meningites (chamada de tuberculose meníngea). Além disso, existem casos em que a bactéria se espalha por todo o corpo do paciente, conhecida como tuberculose miliar. Contudo, os casos de tuberculose foram dos pulmões são raros, ocorrendo de forma mas frequente em populações com comprometimento imunológico, por exemplo, transplantados, pessoas que convivem com HIV e outros imunossuprimidos.

Na maioria dos casos (cerca de 90%), nosso sistema imune consegue lidar com a infecção causada pela bactéria da tuberculose e tudo se resolve, com a pessoa não tendo nenhum sintoma da doença. Contudo, em algumas pessoas o bacilo consegue vencer as defesas do sistema imunológico e acaba levando ao desenvolvimento da tuberculose ativa. Normalmente são pessoas com o sistema imunológico debilitado, crianças e idosos que vão estar mais expostos a esse risco de não conseguirem erradicar o bacilo do corpo. A transmissão da bactéria só acontece nesses casos em que a doença está ativa.

A importância da vacinação contra tuberculose

Apesar de não ter uma eficácia de 100% contra os casos de tuberculose pulmonar (aquele em que o indivíduo desenvolve a doença com sintomas respiratórios), a vacinação em massa com a BCG previne os casos mais graves (meníngea e miliar), que podem afetar principalmente as crianças. Mesmo que os casos de tuberculose pulmonar venham aumentando no Brasil nos últimos anos, quase não são mais registrados casos das formas graves da doença.

É por isso que a recomendação do Ministério da Saúde é que a vacina seja administrada logo após o nascimento das crianças ou, no máximo, até ela completar 5 anos de idade. A vacina contra tuberculose é de dose única e oferecida, de forma gratuita, no SUS. A vacina BCG possui uma taxa alta de eficácia em crianças, mas diminui nos adultos, por isso é importante não esquecer de vacinar os pequenos. 

Apesar da eficácia em adultos não ser tão satisfatória comparada às crianças, a vacina BCG ainda é muito estudada até os dias atuais, pois mesmo com todo o nosso aparato tecnológico e científico, ainda não foi possível criar uma nova vacina contra tuberculose que tivesse uma eficácia e custo-benefício tão boa quanto a BCG, a ponto de poder substituí-la.

O que é a marquinha no braço?

A marquinha no braço na verdade é uma cicatriz da reação do corpo à vacina. Ela começa como uma mancha vermelha logo após a aplicação e depois se torna aquela marca que a maioria das pessoas tem no braço direito. E não precisa se preocupar! Essa reação a vacina que geral a cicatriz é normal, não precisando de curativos ou medicamentos para lidar com ela.
Em alguns casos a pessoa pode não ter a marquinha, mas tá tudo bem! Estudos demonstraram que não é a marquinha que garante a eficácia da vacina. Antigamente, quando a criança não desenvolvia a marquinha no braço, era aconselhado aplicar uma segunda dose da vacina. Contudo, desde 2019 o ministério da saúde não recomenda mais essa revacinação devido a ausência da cicatriz.

Outros casos mais especiais são os de pessoas com duas marquinhas. Isso se deve ao fato de que durante um tempo foi dada uma dose de reforço em crianças de 6 a 10 anos de idade, mas isso também não faz mais parte das recomendações. 

Um país sem tuberculose

A vacinação com BCG começou no Brasil lá em 1927, mas foi somente em 1976 (quase 50 anos depois) que o ministério da saúde tornou obrigatória a vacinação de crianças com a vacina. Desde então, o Brasil vem fazendo um esforço para erradicar a tuberculose do país.

Entre esses esforços, em 2017 o Brasil assumiu a responsabilidade de ajudar na Estratégia Global pelo Fim da Tuberculose da Organização Mundial da Saúde,  com a meta de eliminar os casos de tuberculose no país inteiro até o ano de 2030.
Dentre as estratégias de enfrentamento estão a prevenção e cuidado integrado, políticas arrojadas e sistema de apoio, além da intensificação da pesquisa e inovação. Também é necessário pensar em populações mais vulneráveis à tuberculose, como os povos originários, pessoas privadas de liberdade, indivíduos que convivem com HIV/Aids, pessoas em situação de rua, imigrantes e profissionais de Saúde. Garantir a eliminação da tuberculose entre os grupos vulneráveis é também garantir a eliminação para todo o restante do país. 

A tuberculose tem cura! Contudo, o tratamento é demorado, levando no mínimo 6 meses a até um ano, precisando ser feito da forma correta até o final. Devido ao risco da doença retornar com a bactéria resistente aos medicamentos, o paciente deve saber que mesmo com a melhora repentina e desaparecimento dos sintomas logo nas primeiras semanas de tratamento,  é preciso continuar este até o final.

Por causa disso, mesmo existindo o tratamento da doença, devemos sempre pensar que a melhor opção é não se infectar e, para isso, a forma mais fácil de se prevenir é através da vacinação!

Para saber mais

Fiocruz Bahia (2024) Especial Dia da Vacina BCG – 1º de Julho, Fiocruz Bahia. Disponível em: https://www.bahia.fiocruz.br/especial-dia-da-vacina-bcg-1o-de-julho/

Brasil (2024) BCG, Saúde de A a Z – BCG, Governo do Brasil. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/b/bcg

Brasil (2024) Brasil Livre, Saúde de A a Z – Tuberculose, Governo do Brasil. Disponível em:

https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/t/tuberculose/brasil-livre

Brasil (2024) Populações em Situação de Vulnerabilidade, Saúde de A a Z – Tuberculose, Governo do Brasil. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/t/tuberculose/situacao-de-vulnerabilidade

Brasil (2024) Tuberculose, Saúde de A a Z – Tuberculose, Governo do Brasil. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/t/tuberculose

Brasil. Ministério da Saúde (2024) Dia da Vacina BCG, Biblioteca Virtual em Saúde MS. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/01-7-dia-da-vacina-bcg-3/

São Paulo. CVE – Centro de Vigilância Epidemiológica “Prof. Alexandre Vranjac”. (2024). Histórias e Curiosidades. Disponível em: https://www.saude.sp.gov.br/cve-centro-de-vigilancia-epidemiologica-prof.-alexandre-vranjac/areas-de-vigilancia/tuberculose/informacoes-sobre-tuberculose/historia-curiosidades

Autores

Alexandre Borin

Graduado em Biologia pela Unicamp e atualmente doutorando em Genética e Biologia Molecular pela mesma instituição e pelo Laboratório Nacional de Biociências do CNPEM. Seu foco de pesquisa são os vírus latinoamericanos transmitidos por mosquitos, como Oropouche e Mayaro. Apaixonado por viagens, fotografia e cultura geek, realiza Divulgação Científica sempre buscando conectar seus temas de interesse.

Maurílio Bonora Junior

Biólogo e Divulgador Científico formado pela Unicamp (2018). Mestre em Genética e Biologia Molecular (2021) e atualmente doutorando pelo mesmo programa de pós-graduação. Pesquisa e trabalha com políticas públicas em saúde no Brasil, além de divulgação científica. Pesquisador, nerd, devorador de trilhas sonoras, mestre de RPG de mesa, leitor assíduo de ficção científica e fantasia e, claro, apaixonado por ciência.

Sobre koda
Graduado em Biologia pela UNICAMP e atualmente doutorando em Genética e Biologia Molecular pela mesma instituição e pelo Laboratório Nacional de Biociências do CNPEM. Seu foco de pesquisa são os vírus latinoamericanos transmitidos por mosquitos, como Oropouche e Mayaro. Apaixonado por viagens, fotografia e cultura geek, realiza Divulgação Científica sempre buscando conectar seus temas de interesse.

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