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É tradicional na esquerda brasileira a desunião e o desentendimento mútuo entre os diversos partidos vermelhos no plano interno. Na política externa, porém, não parece muito difícil apoiar os camaradas, por mais controversos e ultrapassados que eles sejam. O socialismo lulista não é diferente. O verdadeiro expurgo de Ciro Gomes em favor de uma candidata inexpressiva — Dilma Rousseff  — repete os mesmos erros de Stalin e JK. É um gesto emblemático da personalidade contraditória do presidente-operário.

Lula, tal qual um czar vermelho, considera-se acima do bem e do mal e acha que, por isso mesmo, o que diz deve virar lei — ainda mais quando se diz que todo mundo gosta dele. Ele se recusa a se submeter aos mais básicos princípios democráticos, como a imprensa livre e a vigilância da Justiça Eleitoral. Ainda assim, insiste em vender ao país e ao mundo uma imagem de democrata impecável, um exemplo de que a democracia funciona. Na verdade, a democracia serviu apenas para alçar Luís Inácio ao Planalto e mantê-lo lá em cima. Agora, quando, de acordo com as regras do jogo, deve descer a rampa, Lula não concorda e faz de tudo para ficar.
Assim como JK não tentou mudar as regras para se reeleger, Lula não aceitou a possibilidade de um terceiro mandato. Mas isso não o torna necessariamente mais “republicano”, como ele mesmo diria. Não há nada de errado em um presidente escolher um sucessor. Mas impor esse sucessor ao próprio partido e, mais ainda, interferir abertamente no processo partidário de um partido aliado descontente não é nem um pouco republicano.
Lula também nunca escondeu sua admiração por gente como Fidel Castro e, mais recentemente, Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad. Não haveria problema nenhum nisso, mas ele faz toda a política externa brasileira orbitar em torno dessas figuras controversas e não considera essa imposição um erro. Mais que isso, ele não tolera nem a crítica a esse modelo de política externa. Lula respondeu indignado a um mero editorial de um jornal inglês que questiona a atual política do Itamaraty e classifica-a, corretamente, como “narcisista”. Para quem já expulsou do país um jornalista estrageiro, não surpreende.
Reações às críticas feitas pela imprensa nacional também não são das melhores. E, embora se considere republicano e defensor da liberdade, nada fez para derrubar a censura feita por um de seus mais improváveis aliados — o clã Sarney — ao maior jornal do país. Lula parece não entender que muito da crítica que recebe vem de sua inação frente aos erros de seu governo, das ações de seus aliados e das alianças que tem feito. Frente ao mensalão, Lula poderia ter expulso imediatamente José Dirceu e sua laia do governo e do PT. Mas nada fez a não ser dizer “Eu não sei de nada” e a culpar uns “aloprados” sem nem pensar em puni-los.
Marina e Ciro: sufocados por suas críticas,
não tiveram saída a não ser deixar o geverno.
Agora que começa a ficar claro que fez uma escolha eleitoral errada ao apostar em Dilma, Lula tenta desesperadamente fazer das Eleições Presidenciais uma mera escolha plebiscitária do tipo “nós contra eles”, sem admitir a democrática e tradicional possibilidade de terceiros ou quartos caminhos. Não é à toa que Ciro Gomes e Marina Silva, dois candidatos mais naturais à sucessão de Lula, tenham deixado o governo após serem sufocados e preteridos por suas posições críticas.
Lott: Popularidade de JK não
ajudou um candidato sem
experiência política
O presidente acha que apenas popularidade e carisma ganham eleição e ignora exemplos que demonstram o contrário. JK era tão popular quanto Lula e, sem poder se reeleger, apontou como sucessor um ministro de sua confiança, mas que não tinha experiência política. O Marechal Lott perdeu para Jânio Quadros, candidato da oposição. O caso similar mais recente é o da (ex-)presidente chilena Michele Bachelet. Ela também não conseguiu transferir sua grande popularidade ao seu candidato e a oposição, liderada por Sebastian Piñera, elegeu seu primeiro presidente em 20 anos.
Lula repete os mesmos erros políticos daqueles que admira. O fim da história vai ser o mesmo: a derrota. Vamos ver se, após ser derrotado, Lula vai ser tão republicano quanto diz que é.

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