>Duas vidas em uma

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Charles-Geneviève-Louis-Auguste-André-Timothée d’Éon de Beaumont, Cavalheiro d’Eon (1728-1810) viveu a primeira metade de sua vida como homem e a segunda como mulher. Até os 49 anos de idade, d’Eon foi soldado e diplomata da França de Luís XV. Ele foi espião du Roi em Londres e em São Petersburgo e lutou durante a Guerra dos Sete Anos — onde foi ferido e condecorado por bravura com a Ordem de São Luís. Depois, disso a coisa foi mais complicada do que pode parecer.
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Chevalier d’Éon (1728-1774)
Ele
Logo após a guerra, em 1763, Charles de Beaumont foi ministro plenipotenciário — embaixador temporário — em Londres. Quando o  novo embaixador oficial, o Conde de Guerchy, chegou d’Éon foi rebaixado a secretário. Irritado com o tratamento recebido, Charles escreveu um livro divulgando algumas correspondências diplomáticas. O serviço secreto francês esteve à beira de um escândalo: d´Éon tinha recebido cartas do Rei Luís XV com planos para invadir a Inglaterra que ninguém, nem mesmo o Exército Francês tinha conhecimento. Com os papéis da invasão nas mãos, Beaumont literalmente manteve o rei em xeque e passou a ser bem tratado — ganhando uma vultosa pensão —, mas não pôde voltar para a França.
Ela
Com a morte do rei em 1774, ele tentou voltar para o Continente. Para isso, aproveitou-se de boatos que corriam em Londres a seu respeito e afirmou ser fisicamente uma mulher, pedindo para ser reconhecido(a) como tal. Na época, havia mulheres que buscavam trabalhar sob disfarce para fugir da vida doméstica. A maioria era facilmente descoberta e acabava morta. Surpreendentemente, Luís XVI não só concordou com a nova condição, como ainda financiou um guarda-roupa novinho. E o ex-cavalheiro passou seus últimos anos como uma dama. Genoveva, nome feminino que Beaumont adotou, até se ofereceu para liderar uma divisão de soldadas na Guerra de Independência dos Estados Unidos, mas em vez disso, foi presa por 19 dias.
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Mademoiselle d’Éon (1774-1810)
Mademoiselle d’Éon voltou para a Inglaterra após a Revolução Francesa. Com a pensão cancelada pelo novo governo, vendeu sua biblioteca e passou a  participar de torneios de esgrima para sobreviver. Ela também chegou a assinar um contrato com uma editora para escrever sua autobiografia, mas o livro nunca foi publicado. Ela passou os últimos anos vivendo em companhia de uma viúva, uma certa Mrs. Cole.
Era ou não era?
Pode parecer um interessante caso de hermafroditismo ou pseudo-hermafroditismo. Mas, na autópsia, os médicos descobriram que ela, afinal, era ele mesmo: o corpo de d’Éon era anatomicamente masculino. Estudos mais recentes indicam tratar-se de um caso de síndrome de Kallmann, uma doença hormonal em que o indivíduo cresce, mas não passa pela puberdade.
Hoje também há um revisionismo histórico sobre a figura do Cavalheiro-Mademoiselle. Historiadores LGBT afirmam que d’Éon teria sido um transgênero (travesti) e o favorito do Rei Luís XV. O rei teria sido forçado a exilá-lo em Londres sob o disfarce de ministro diplomático para não se complicar.
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