sal (1)

Também conhecida como Guerra de Ferrara, foi um conflito iniciado em 1482, envolvendo Ercole I d’Este, duque de Ferrara e as forças pontifícias lideradas pelo arqui-inimigo de Ercole, o Papa Sisto (às vezes Sixto) IV, aliado aos venezianos. Embora não tenha chegado aos campos de batalha (e não sofresse de hipertensão), Sisto IV acabou morrendo por causa da guerra.

Em 1480, il signore de Florença, Lorenzo de Medici, numa arriscada manobra diplomática, fez as pazes com Ferdinando I de Nápoles, antigo protegido do Papa. Isso causou descontentamento tanto para o Papa Sisto IV quanto para os venezianos. Veneza havia acabado de resolver seu longo conflito com os turcos otomanos e agora estava livre para voltar a defender seus interesses expansionistas na península itálica.
Em setembro de 1480, Girolamo Riario — sobrinho do papa — havia capturado a estratégica fortaleza de Forlì. Após esse pequeno êxito e sob as bênção do tio, Girolamo passou a assediar Ferrara, que seria incorporada ao território dos Della Rovere, isto é, da família do papa.
Assim, em 1482, Veneza declarou guerra a Ferrara. Além dos atritos territoriais, havia interesses econômicos em jogo. A Sereníssima República detinha o monopólio do comércio de sal, mas mesmo assim a cidade ferrraresa de Este passou a controlar os salares de Comacchio. Isso parecia uma ameaça aos interesses continentais de Veneza.
O casus belli foi, como quase sempre, uma infração pequena. Veneza mantinha um representante em Ferrara — o visdominio — para proteger a comunidade vêneta nos domínios de Este. Em 1481, extrapolando suas prerrogativas ao prender um padre por dívida, o visdominio foi excomungado pelo bispo de Ferrara e expulso da cidade. Com essa desculpa, a guerra foi declarada pelos venezianos.
Os aliados de Veneza, além das tropas papais (não de pais, mas do papa) e de Riario comandando as forças de Ímola e Forlì, eram a República de Gênova e o pequeno Marcado de Montferrat.
Ercole I d'Este: o duque de Ferrara quase conseguiu "unificar" a Itália ao ser perseguido por Sixto IV e Veneza

Ercole I d’Este: o duque de Ferrara quase conseguiu “unificar” a Itália ao ser perseguido por Sixto IV e Veneza

Do lado de Ferrara, unidos sob Federico da Montefeltro, duque de Urbino, estavam as tropas de Ferdinando de Nápoles (sogro de Ercole I), que invadiram os Estados Pontifícios pelo sul, bem como tropas de Ludovico, il Moro, de Milão, além de duas outras cidades ameaçadas por Veneza: Mântua e Bologna.

As tropas venezianas começaram a invasão do território ferrarês pelo norte, num saque brutal a Ádria, seguido de uma rápida captura de Comacchio e dois cercos: a Ficarolo (Maio-Junho) e Rovigo (Maio-Agosto). Em novembro, Veneza cruza o rio Pó e começa o cerco a Ferrara. A essa altura, Sisto parece ter mudado de ideia — talvez por achar que Veneza já tinha ido longe demais.
Enquanto isso, nos Estados Pontifícios, as batalhas contra os inimigos dos Della Rovere continuavam. A maior delas foi a batalha de Campomorto — que nome adequado! —, em 21 de agosto de 1482. As tropas aragonesas de Nápoles foram retumbantemente derrotadas por Roberto Malatesta e o duque da Calábria teve que ser resgatado por seus mercenários turcos.
Sisto IV: o papa-zumbi foi o pai da Inquisição. E ai de você se mexesse com os sobrinhos dele!

Sisto IV: o papa-zumbi foi o pai da Inquisição.
E ai de você se mexesse com os sobrinhos dele!

Alguns castelos napolitanos caíram nas mãos do papa, mas quem ganhou foi a malária, que matou Malatesta em setembro, freando os planos de Sisto IV. O papa viu-se obrigado a pedir uma trégua em 28 de novembro e a fazer uma paz em separado com Nápoles, num tratado assinado em 12 de dezembro.

Sisto tentou fazer Veneza cessar as hostilidades, mas foi ignorado. Ele ameaçou excomungar a Sereníssima, que por sua vez retirou seu embaixador do Vaticano. O papa respondeu com a interdição eclesiástica de Veneza em maio de 1483.
Convocando toda a Itália a lutar contra Veneza, Sisto permitiu a passagem de tropas napolitanas em seu território para furar o cerco a Ferrara. Um reforço de Florença também foi enviado e a sorte de Ferrara começou a mudar.
A guerra terminou com o Tratado de Bagnolo, em 7 de agosto de 1484. Ercole teve que ceder o território de Rovigo e o delta do Pó e as forças venezianas enfim se retiraram. Ercole ainda conseguiu evitar a anexação de Ferrara aos Estados Pontifícios.
Apesar da paz, o papa Sisto IV não ficou satisfeito com os termos do tratado, por não ter sido consultado:
As notícias literalmente mataram Sisto. Quando os embaixadores lhe declararam os termos do tratado ele lançou-se numa ira violenta e declarou a paz como vergonhosa e humilhante. A gota subiu ao seu coração e no dia seguinte — 12 de agosto de 1484 — ele morreu.
E essa guerra não foi o único momento anticristão de Sisto IV. Foi ele quem criou a Inquisição Espanhola, em 1478. No mesmo ano, Sisto encabeçou a Conspiração de Pazzi, um plano maligno que eliminaria os Medici para colocar sobrinhos do papa no lugar. Apesar de sua morte, Sisto IV conseguiu manter seu  sistema de nepotismo vivo com a eleição de seu sobrinho, Giuliano della Rovere (Papa Júlio II), em 1503. Mais tarde esse sistema foi uma das causas da Reforma.

0 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *