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Dentre os muitos livros de história do cristianismo publicados no século XIX, History of the Church of God: from Creation to A.D. 1885 [História da Igreja de Deus: da Criação a 1885 A.D.] é notável por seu estilo prolixo. Publicado em 1886, o livro de Cushing Biggs Hassell não é apenas um calhamaço com umas mil páginas. Ele contém o que se considera a mais longa sentença já escrita em um livro. É simplesmente o quinto parágrafo do capítulo XIX, que trata, justamente, do século XIX.
The nineteenth is the century of the rise and fall of Napoleon Bonaparte, in a long series of bloody and demoralizing European wars; the […]

Esses são apenas os primeiros 140 caracteres da sentença. A frase começa na página 580 e ocupa todas as seis páginas seguintes. No total, são 20.438 caracteres. Seriam necessárias 146 tuítes para escrever a oração inteira. As 3153 palavras são interrompidas aqui e acolá por 360 vírgulas e 86 ponto-e-vírgulas (é esse o plural?). Como o exemplo perfeito da fabulosa arte da prolixidade, o estilo também não é muito direto. Também não poderia faltar em algo do tipo um monte de encheção de linguiça citações. Me abstive de contar todas as aspas, mas encontrei sessenta intercalações: são 27 travessões e 33 pares de parênteses, além de seis notas de rodapé (não inclusas nesse censo ortográfico).
Caso não caia no sono ou morra sem fôlego, o pobre leitor enfrenta tudo isso antes de encontrar O ponto final, que vem logo depois de praticamente todos os –ismos oitocentistas:
[…] Universalism, Unitarianism, Naturalism, Anti-Supernaturalism, Unspiritualism, Undoctrinalism, Superficialism, Philosophism, Transcendentalism, Paganism, Pantheism, Humanitarianism, Liberalism, Neologism, Campbellism, Irvingism, Darbyism, Puseyism, Mormonism, Millerism, Wine-brennerianism, Two-Scedism, Psychopannychism, Non-Resurrectionism, Annihilationism, Universal Restorationism, Pseudo-Spiritualism, Utilitarianism, Rationalism, Pelagiamsm, Scientism, Agnosticism, Omniscienceism, Presumptuousism, Stoicism, Materialism, Evolutionism, Fatalism, Atheism, Optimism, Pessimism, Socialism, Communism, Libertinism, Red Republicanism, Internationalism, Nihilism, Destructionism, Dynamitism, Atrocicism and Anarchism.
Confesso que não conhecia alguns. Por si só, esse grand finale já bastava para resumir os 1800.
Em síntese, essa frase-parágrafo é uma longa descrição do século XIX, em que Hassell prova que “[…] após todo nosso progresso, este ainda é um mundo muito miserável e cheio de pecado […]”. Ironicamente, o autor dessa pérola deplora a arte moderna, mas antecipa o recurso do monólogo interior dos grandes romances do século XX.
Compreensivelmente (não sei dizer se infelizmente ou não), não há uma edição brasileira. Seria praticamente impossível manter uma sentença tão longa em português. Para quem estiver com insônia (ou for um cristão fervoroso), a sentença inteira está disponível on-line.

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