Não, ainda não descobriram um planeta com vapor de mercúrio na atmosfera. Mas o telescópio espacial Kepler pode ter acabado de localizar um Mercúrio que literalmente está a todo vapor. O exoplaneta, do tamanho do nosso vizinho mais próximo do Sol, normalmente não seria visível. Mas suas condições extraordinárias de temperatura e pressão o tornam bastante indiscreto.

Ele orbita a estrela KIC 12557548 (situada a uns 1.500 anos-luz do Sol), completando uma translação em pouco menos de 16 horas. Esse período orbital curtíssimo — menor do que um dia terrestre — indica que o planeta KIC 12557548b está a apenas 0,01 UA de sua estrela, isto é, a uma distância igual a 1% da que separa a Terra do Sol. Mas sendo tão pequeno e tão veloz, como esse planeta pode ser detectado? Normalmente, planetas extra-solares são encontrados através do método de trânsito: ao passarem diante de sua estrela, eles causam uma pequena diminuição de brilho, ou um microeclipse, que se repete de acordo com o período da órbita.

O problema é que o planeta encontrado junto de KIC 12557548 (e que, dado o clima pré-carnavalesco, vamos apelidar de “Frevo”) não parecia ter uma órbita muito regular. Para explicar as discrepâncias, os astrônomos liderados por Saul Rappaport (do MIT) procuraram primeiro por outros companheiros planetários, que causam perturbações orbitais. Nada. “E se o sistema planetário for binário?”, pensaram. Nada também.  As observações também descartaram essa hipótese. Sobrou a única explicação possível: o planeta observado estava se evaporando. Surpreendentemente, era um planeta rochoso, que como já dissemos, tem dimensões similares a Mercúrio. Sua estrela-mãe é apenas um pouco menor que nosso sol.

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Pode ir quente que ele está fervendo! [Imagem: ESA / Alfred Vidal-Madjar, Institut d’Astrophysique de Paris, CNRS, France]

Com uma temperatura de 2000 kelvin, a superfície do “Frevo” é capaz de vaporizar piroxeno e olivina, os minerais mais comuns na composição de planetas rochosos. Se fosse um pouco maior, o planeta teria força gravitacional suficiente para ter uma “atmosfera rochosa” como a de alguns hot jupiters. Como não é, está evaporando feito um cometa gigante. A cada segundo o planeta lança 100.000 toneladas de vapor ultra-fervente ao espaço! Parece uma perda desesperadora, mas o planeta não vai sumir amanhã. Nem depois. O “Frevo” só vai se vaporizar completamente dentro de 200 milhões de anos. Um otimista panglossiano diria que a situação lá está mais para um banho-maria do que para um alto-forno.

Se tudo for confirmado, o que estamos observando no sistema KIC 12557548 é só uma prévia do que deve acontecer futuramente no sistema solar. Sabemos que o sol vai se expandir dramaticamente dentro de uns 5 bilhões de anos, mas antes mesmo disso deve se tornar tão quente que vai começar a vaporizar Mercúrio, deixando-o muito bem-passado antes de engoli-lo.

Em tempo: um planeta com vapor de mercúrio na atmosfera seria uma lâmpada gigante?

Referência:

RAPPAPORT, Saul et al. Possible Disintegrating Short-Period Super-Mercury Orbiting KIC 12557548 http://arxiv.org/abs/1201.2662

[via Newscientist e Bad Astronomy]


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Magnetismo alienígena em planetas travados | hypercubic · 14 de outubro de 2015 às 20:34

[…] pra cá, quanto mais planetas extrassolares são encontrados, mais perguntas aparecem. O que são hot Jupiters ou hot Netunos? Do que são feitas as Super-Terras? Exoplanetas terrestres podem ter campos […]

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