Amikejo, o quase-país do Esperanto

Quando se fala em (ou melhor, sobre) Esperanto, há sempre a objeção de que não é uma língua natural, que não tem uma cultura própria ou falantes nativos. Pois bem, o Esperanto quase foi a língua oficial de um pequeno país europeu.

http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Moresnet.pngTudo começou muito antes do Dr. Zammenhoff. Ironicamente, a culpa é de Napoleão. Durante a reorganização do mapa europeu no período pós-napoleônico, uma fatia de 3,44 km² de terra ficou em litígio entre a Prússia e os Países-Baixos (nº. 3 no mapa acima; 4 é a atual Alemanha; 1 é a Holanda e 2, a Bélgica). A disputa arrastou-se silenciosamente por décadas e área ficou conhecida como Neutral Moresnet e virou uma terra de ninguém.

Já que a terra era de ninguém, que tal falar uma língua de ninguém ali? Em 1908, o imigrante e esperantista alemão Wilhelm Molly propôs transformar o minúsculo território de Neutral Moresnet no primeiro país esperantófono do mundo.

Os esperantistas mais entusiasmados logo batizaram o que seria o seu país de Amikejo (lit. “lugar dos amigos”) e compuseram um hino nacional (em esperanto, é claro). Até mesmo o Congresso Internacional Esperantista decidiu mudar sua sede de Haia para a nova “capital mundial” da língua internacional.

O que era para ser, não foi. A Alemanha não tardou em abocanhar aquele naco de terra durante a I Guerra Mundial. Após outro redesenho europeu — o Tratado de Versalhes —, a área acabou ficando com a Bélgica.

O destino da língua oficial de Amikejo não foi muito diferente (não que a Bélgica o tenha adotado): o Esperanto também é uma ideia não pegou. Mas talvez seja melhor que Amikejo não tenha se realizado. Não faria muito sentido que uma língua cujo objetivo era ser internacional se tornasse apenas mais uma língua nacional, de uma micronação.

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  • rafinha.bianchin

    quem nunca tentou criar uma sociedade perfeita com sua própria cultura que atire a primeira pedr… AI!

  • Igor Santos

    Quer dizer que, não fosse a guerra, os três meses que passei aprendendo esperanto não teriam sidos completamente em vão?

    • Renato Pincelli

      “Talvez sim, talvez não…” – Cléber Machado

  • rafinha.bianchin

    eu já aprendi muitas coisas em “vão” pelo simples prazer de aprender. não fale assim de novo, igor. nunca, NUNCA se aprende algo em vão. isso foi bem grave.

  • Anderson

    Igor, só para você se motivar:
    -Música bacana do Amindaj http://www.youtube.com/watch?v=q3_eFAIFyc0

    – Outra música bacana http://www.youtube.com/watch?v=qtaNjhDSNXA
    – China, Japão e Esperanto: http://benjamins.com/series/lplp/32-1/art/05lin.pdf
    – Desafio das linguas: http://stoa.usp.br/yuridi/files/-1/970/desafiodaslinguas.pdf
    – Desafio das Línguas em Vídeo http://www.youtube.com/watch?v=H0D9S5aUn70&feature=BFa&list=PLE209C6FCB733961D

    E assim vai… O Esperanto é o Opensource dos idiomas, enquanto que o inglês é a Microsoft (hoje é a Apple) dos idiomas. Aí veio a Samsung (sei que é coreana, mas na analogia representa o idioma Chinês) tentando tomar o mercado. Mudar do inglês pro chinês não vai resolver nossos problemas. Chega de lamber os pés dos anglo-saxões.

    Ah, e aprender um idioma não destroi a oportunidade de aprender outra. O inglês não vai deixar de ser importante. Por que não aprender os dois? O Esperanto não quer substituir nenhum idioma, ele que ser a ponte igualitária de todos.

    Abraços.

  • Igor Santos

    rafinha, eu já estudei latim, código morse, russo, braile e código de bandeiras náutics (não lembro o nome agora). Eu sei o que é aprender pelo prazer, o que não isenta aquilo de ser, no fim das contas, inútil além da minha própria vontade.

  • rafinha.bianchin

    ah, ok, agora ficou menos herégico 😉
    eu prefiro estudar motores, e passo o tempo todo lendo sobre isso, mas ainda estou no primeiro semestre de mecânica, e não tenho idade nem pra trabalhar em oficina.
    outra “inutliidade”
    mas quando é pra ser feliz… o que mais importa? “eu podia estar roubando, eu podia estar extorquindo, mas eu estou lendo!”

  • A saideira de 2012 | hypercubic

    […] trimestre com um caso extremo de amor a uma perna. Depois encontramos filosofia na porra, Amijubi Amikejo,o quase-país do Esperanto e até o cinquentão George Jetson. Perdemos a vida, mas não a elegância, escrevinhamos em outras […]

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