Lewis Carroll analisa a tensão superficial em um experimento mental. É um exemplo perfeito de lógica escorregadia:

Suponha um sólido mantido sobre a superfície de um líquido e parcialmente imerso: uma porção do líquido é deslocada enquanto o nível sobe. Mas, evidentemente, com essa elevação do nível, um pouquinho a mais do sólido acaba imerso. Assim, temos um segundo deslocamento do líquido e um consequente aumento do nível. Novamente, essa segunda elevação do nível causa ainda outra imersão e porseguinte outro deslocamento e mais outra elevação do nível do líquido. É auto-evidente que esse processo deve continuar até que o sólido seja inteiramente imerso e que o líquido passará a imergir o que quer que tenha mantido o sólido ou que esteja em contato com ele ou que possa ser temporariamente considerado parte dele. Se você mantém um galho de seis pés em contato com a superfície de uma poça d’água e esperar o bastante, eventualmente vai acabar sendo imerso. A questão da fonte de onde a água vem — que pertence a um alto ramo da matemática e está além de nosso presente escopo — não se aplica ao mar. Vamos, portanto, considerar o caso familiar de um homem parado à beira-mar, durante a maré-vazante, com um sólido em sua mão, o qual ele imerge parcialmente. Nesse caso, ele [o homem] mantém-se firme e imóvel, embora saibamos que ele deveria acabar afogado.

As multidões daqueles que perecem diariamente dessa maneira para atestar uma verdade filosófica — cujos corpos as ondas rabugentas lançam indiferentemente em nossas praias ingratas — merecem ser chamados de mártires da ciência mais do que um Galileu ou um Kepler.


0 comentário

Igor Santos · 25 de janeiro de 2013 às 20:04

Existe um enigma meio baseado nisso, o do homem num barco segurando uma bola de boliche. Conhece?

    Renato Pincelli · 27 de janeiro de 2013 às 17:23

    Não conheço, Igor. Mas até que faz sentido.

Raphael · 25 de janeiro de 2013 às 23:20

Taí, um sujeito que confunde ciência moderna e, portanto, experimental nos termos das observações práticas e objetivas de Kepler e Galileu, com qualquer filosofia barata (e qualquer outra “pseudo-ciência”) com suas “verdades filosóficas” e “experimentos mentais” (que podem se dar ao “luxo” de atenderem apenas a princípios lógico-filosóficos e subjetivos). Pretende, AINDA, que os defensores destas ultimas sejam considerados MAIS do que os dois ilustres primeiros; a despeito de toda imensa contribuição que deram pra historia e desenvolvimento do método científico. É, simplesmente, fantástico!

    Renato Pincelli · 27 de janeiro de 2013 às 17:24

    Raphael, creio que Carroll esteja sendo irônico em relação a Kepler e Galileu.

Igor Santos · 28 de janeiro de 2013 às 9:42

Um sujeito está num lago/lagoa/piscina em pé num barco/jangada/balsa segurando uma bola de boliche/bala de canhão/algo de ferro bem pesado.
Após medir o deslocamento da água na borda/margem, ele solta o objeto e este afunda.
A pergunta é: o nível da água retraia, avança ou permanece igual? O espaço que o objeto ocupa imerso é maior, igual ou menor que sua influência por flutuabilidade?

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