Encontram-se coisas muito estranhas nos anúncios e classificados dos jornais britânicos de meados do século XVIII. Naquela época, o governo tentou coibir fraudes comerciais e propaganda enganosa cobrando um imposto sobre os anúncios (o que ainda rendia algumas libras a mais para o Erário). Mesmo assim, anúncios que têm cara de hoax ou são simplesmente bizarros não deixaram de aparecer. É possível que algumas dessas bizarrices sejam apenas uma espécie de código dos quacks. Ou talvez sejam pequenos pedaços de humor tipicamente britânico. Joseph Robins, por exemplo, deve ter sido alguém que perde o amigo mas não perde a piada. Ele explica-se num anúncio de um jornal de Bristol:

Bristol, 19 de janeiro de 1732/3

Considerando que por volta do 10º. dia de Novembro último eu declarei, na Presença de Diversas Pessoas, Que Anthony Coller, morador do “Ship and Dove” em Pithay, em Bristol, foi mandado para Newgate por colocar Sapos Vivos em sua Cerveja, para pagar multa por isso; declaro agora, solenemente, Que eu nunca soube que tal coisa tenha sido feita pelo dito Coller nem acredito que ele jamais tenha sido o culpado da Prática supramencionada ou de qualquer coisa similar. Aqui estou, portanto, arrependido do fundo do coração pelo que disse por este peço Perdão pelo mesmo dito da Pessoa supra que, eu temo, tem sido grandemente prejudicada pela indiscreta Língua de

JOSEPH ROBINS

Esse anúncio é um prato cheio de contradições. Primeiro Robins diz que não é o responsável pelo boato dos sapos na cerveja. Depois ele pede perdão e se diz “arrependido do fundo do coração” por ter dito o que diz que não disse. Por fim, além da língua, sua pena também é indiscreta. Pior: para reviver um boato de dois meses ele simplesmente o publica num anúncio de jornal! Será que houve um anúncio pedindo perdão pelo anúncio que pedia perdão, mas ofendia de novo? Não sabemos. Pode até ser que Robins tenha sido um cervejeiro concorrente, rival mesmo, de Coller. Ou talvez fosse só um senhor de humor excentricamente inglês.

Os 2/3 no final do ano da data não são erro tipográfico. Naquela época, o Reino Unido ainda não havia adotado oficialmente o calendário gregoriano e muita gente só comemorava o ano-novo em março. Assim, era comum que nos primeiros três meses do ano não se tivesse muita certeza do ano certo. Algumas publicações usavam frações dos numerais finais do ano (que, de certo modo, parece um odômetro). Os britânicos só resolveriam isso em 1750, quando finalmente sincronizaram seus calendários com os do Continente.

O próximo anúncio foi publicado em 5 de fevereiro de 1739-40 no London Daily Post and General Advertiser [Correio Diário de Londres e Anunciante em Geral] (haja cabeçalho!):

Se qualquer pessoa entregar Andorinha, Andorinhão (comumente chamado Jack Squeeler) ou Martim vivos para Mr. Thomas Meysey, em Bewdley, Worcestershire, antes do 22º. dia do corrente Fevereiro, receberá Dez Guinéus em pagamento de Recompensa, além de todas as despesas de sua jornada até o dito Thomas Meysey. Ou, se qualquer pessoa entregar algum dos pássaros citados para Mr. John Perrins, Distilador, em Butcher Row, Londres, com antecedência suficiente para que o mesmo possa ser enviado ao referido Thomas Meysey, de Bewdley, antes de 22 do corrente Fevereiro; e o pássaro tem que estar vivo quando entregue ou venha a viver após ser entregue ao referido Thomas Meysey; [quem o fizer assim] terá Dez Guinéus pagos em Recompensa, e todas as despesas razoáveis cobertas pelo dito John Perrins.
Estes pássaros são frequentemente encontrados em penhascos de grandes rochedos, velhas chaminés e velhas casas, aparentemente mortos. Mas, quando postos diante do fogo, tornarão à vida.
Nota — Não pode ser um pássaro que tenha sido mantido numa gaiola.

Ah, droga! Seria tão fácil ganhar dez guinéus se não fosse por essa nota! Meysey parece ter sido um agricultor, mas não sabemos porque fez tanta questão de uma andorinha viva antes do dia 22/02. Será que ele acreditava que uma andorinha só faz verão? Será que a usaria para algum ritual de magia negra para encurtar um inverno possivelmente desastroso para sua lavoura? Seria Maysey um fazendeiro-bruxo? Ou seria apenas um golpe de alguém que detesta andorinhas?

Certamente deve ter havido muita caça às andorinhas e similares nas cercanias de Londres nas primeiras semanas de fevereiro de 1740. Algumas, talvez já mortas, devem ter acabado tostadas. Outras devem ter sido apresentadas mortas (e tostadas) mesmo. Ou talvez os caçadores de passarinhos tenham se esforçado à toa. É bem possível que os pássaros citados possam ter sido codinomes para algum tipo de mercadoria ilegal.


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Uma retrospectiva como esta | hypercubic · 2 de janeiro de 2014 às 17:03

[…] Sapo na cerveja e andorinhas tostadas. Pout-pourri cosmoteológico. Trompete flamejante. Eixos, engrenagens e motores pensantes. Poesia Cthulhu. Piquenique com formigas. O sétimo mês do ano foi um típico carnaval fora de época e hypercúbico. Ainda merecem destaque um conto traduzido de H.G. Wells e a história de John Broughton, pioneiro do boxe. […]

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