Por dentro da URSS: visita a uma escola

O que mais me interessou foi o currículo, especialmente o tratamento extraordinário que dispensa à ciência. Aqui reside o maior fator de desafio ao nosso sistema. As crianças russas estudam duas matérias durante dez anos: aritmética, que evolui para matemática, e o vernáculo. Nesta última o curso vai desde o alfabeto até Puchkin e os autores da atualidade. Também é obrigatório o estudo de um idioma estrangeiro durante cinco anos, como, por exemplo, o inglês, a partir do quinto ano do curso. A escolha do idioma é a única matéria optativa de todo o currículo. As demais são uniformes e obrigatórias. Cerca de 70% dos estudantes preferem o inglês; em segundo lugar vem o alemão. O estudo de História se inicia no quarto curso [ano]: num ano é dada a História da Rússia antiga, nos quatro seguintes a do resto do mundo, devotando-se o último ano à Rússia contemporânea e ao estado soviético. Não há cursos específicos de marxismo-leninismo. A geografia ocupa-os durante seis anos: dois para a Rússia, quatro para o resto do mundo. O ensino de arte abrange seis anos, e o de música, sete; a ginástica e o esporte são obrigatórios durante os dez anos do curso. — GUNTHER, John. A Rússia por dentro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1959. p. 277.

Gunther visitou a Escola Pública nº. 151 de Moscou, dirigida por uma mulher identificada apenas como Madame Khadarovskaya e que, pelos nossos padrões, oferecia ensino fundamental e médio. Segundo ele, embora o ensino fosse gratuito, era necessário pagar pelos livros (“disseram-me que são baratíssimos”) e pelas refeições na cantina, a partir de 1,50 rublo – inclusive café, que “a maior parte das crianças russas bebe desde a mais tenra idade”.

Nos primeiros quatro anos, as turmas tinham em média 40 (!!) alunos por sala, quantia que caía a 35 nos anos seguintes. Dos mil alunos daquela escola, apenas 47 haviam sido reprovados no ano letivo de 1957, enquanto os formandos eram 145, dos quais a diretora estimava que 60 a 70% haviam entrado na universidade. O currículo científico, que tanto chamou a atenção de Gunther, era formado por Química (4 anos), Física (5) e Biologia (6), além dos 10 anos de Aritmética e Matemática. Em comparação, apenas 10% das high schools dos EUA da época ofereciam algum curso científico, geralmente de Química.

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  • Brenno Machado

    Olá, esse relato é inteiro da década de 50? Eu não entendi muito bem o porquê disso não estar muito bem contextualizado no texto… tanto que me faz questionar como é o ensino nos dias atuais pelas bandas de lá.
    [EDIT] Dei uma olhada em outros textos e acho que capturei um pouco a linha dos textos. Desculpe o texto anterior que faço questão que fique. Acredito que serviu d’algo, visto que atiçou a curiosidade sobre o educação soviética.
    Abraços.

  • Gelson Mendes

    Boa noite, também não consegui interligar o texto com uma lógica, por ser um relato de informações de uma época, o que não deixa de ser interessante por apresentar detalhes de uma escola em determinada cultura e tempo, porém deixa uma lacuna no propósito da leitura. Seria uma comparação política ou apenas educacional?

    • Renato Pincelli

      A lógica por trás deste texto é ser parte de uma série baseada em excertos do livro citado, que buscam mostrar aspectos da vida na URSS em meados do século XX. Este texto, em específico, tem a meu ver uma motivação mais educacional que política mas o leitor pode tirar as conclusões que quiser dessa leitura.

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