Apesar da abundância de livros produzidos, as livrarias visitadas por John Gunther lhe pareceram pobres:

As livrarias soviéticas têm algo de melancólico. Os livros não exibem sobrecapas vistosas e a exposição das obras em vitrinas, à nossa maneira, é coisa que se ignora. Algumas lojas vendem gravuras – reproduções de arte russa e estrangeira – e os clientes as disputam avidamente para colecioná-las, mesmo a preços exorbitantes. Em Gorkovo, uma grande livraria especializada em literatura estrangeira expõe seus livros chineses com o maior destaque, seguindo-se, na ordem, livros da Alemanha Oriental: sobre artes, obras didáticas e manuais técnicos; atrás da Alemanha vêm a Iugoslávia e a Hungria. Um dos livros que encontrei em alemão foi Tom Sawyer Detektiv. Os livros em inglês são poucos e a respectiva estante é notavelmente reduzida. Em grande parte são obras como Navios Ingleses e Primeiras Lições de Cerâmica. Em certa loja de livros usados de Kunetsky Most, os três primeiros livros ingleses que me caíram sob os olhos foram o First Man in the Moon, de H. G. Wells, um livro de Mrs. [Elizabeth] Gaskell [1810-1865] e um romance sobre os campos auríferos da Austrália, The Roaring Nineties. Encontrei também alguns clássicos dispersos, como [Walter] Scott e Thackeray. Mas se eu tivesse que ficar retido na URSS por um par de anos e minhas leituras se restringissem aos livros americanos e ingleses que eu pudesse encontrar em inglês nas livrarias russas, por certo morreria de inanição muito cedo. — GUNTHER, John. A Rússia por dentro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1959. p. 319.

Como se pode observar na imagem de abertura, mesmo em 1985, já no começo da abertura soviética, com o relaxamento de regras sobre literatura estrangeira, as livrarias ainda eram ambientes acanhados e pouco espaçosos, mais parecidos com sebos.


0 comentário

Brenno Machado · 2 de novembro de 2017 às 17:37

Gosto desse tipo de ambiente, inclusive adoro alguns sebos que vou por causa disso. É aconchegante, diferente de livrarias no geral. Acho que a única livraria que eu me senti à vontade foi a Livraria Cultura do Conjunto Nacional em São Paulo, mas ainda sim foi de uma forma mais artificial e menos intimista do que as experiências de alguns sebos.

Luciano · 3 de novembro de 2017 às 11:02

Uma literatura que teve Gogol, Dostoievski, Tolstoi não haveria de se render e ter literatura em inglês, será que no mesmo período as bibliotecas americanas estavam cheias de livros em russo?

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