Erika Medeiros: veste o jaleco

No Planteia, cientistas de ciências biológicas e agrárias compartilham suas experiências. Republicamos hoje nossa entrevista com Erika Valente de Medeiros, professora da Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE). Do sonho de vestir jaleco à carreira acadêmica, Erika destaca que fazer ciência exige dedicação e coragem.

Inteligência emocional é o mais importante nessa profissão, determina até onde você irá e com quem você vai

Erika Valente de Medeiros

O que a influenciou a seguir carreira científica?

Sonho. Quando crian√ßa, eu vivia em uma realidade em que as oportunidades eram √≠nfimas e a viol√™ncia imperava. Sonhava em sair ou minimizar essa realidade e a √ļnica forma que encontrei foi estudando. Sonhava em ser astronauta ou cientista. Logo percebi que a primeira op√ß√£o seria muito dif√≠cil. Na minha adolesc√™ncia, meu pai fazia hemodi√°lise. A realidade que j√° era ruim, ficou pior. Diante da doen√ßa dele, descobri um s√≠mbolo que me acalmava: pessoas de jaleco. A vontade de vestir um jaleco aumentou e ser cientista se tornou a melhor op√ß√£o.

Sabia que no Brasil as chances de você ser uma cientista aumentariam muito como professora universitária. Minha vontade de seguir a carreira acadêmica se fortaleceu. Já no primeiro ano de graduação, procurando estágio, soube que uma professora de química do Departamento de Antibióticos buscava alunos. Ela não aceitava biólogos, mas me deu uma chance. Com o tempo, ela passou a preferir biólogos por ver um diferencial para a pesquisa que ela fazia. Fui aceita para o mestrado em Recife e no Rio Grande do Norte. Antes de decidir, fui assaltada e quase estuprada e optei por sair de Recife.

Fiz mestrado e doutorado no Rio Grande do Norte. N√£o foi f√°cil. Fui a primeira bi√≥loga aceita no curso de p√≥s-gradua√ß√£o em agronomia e sofri um bocado. O descr√©dito por ser bi√≥loga me impulsionou a provar minha compet√™ncia. Fiz mestrado em um ano e oito meses e o doutorado em apenas dois anos. As pessoas comentavam que bi√≥logo com p√≥s-gradua√ß√£o em agronomia teria dificuldade em conseguir emprego. A maioria dos concursos na √°rea de fitopatologia exigia forma√ß√£o em agronomia e eu n√£o podia me candidatar. 

Optei por concursos na √°rea de microbiologia, coerentes com minha tese em microbiologia agr√≠cola. Comecei a vida acad√™mica com 27 anos, uma das professoras mais jovens da minha institui√ß√£o, a Universidade Federal do Agreste de Pernambuco, em Garanhuns, interior de Pernambuco. Hoje dou aulas, oriento alunos de gradua√ß√£o, p√≥s-gradua√ß√£o e p√≥s-doutorado e sou bolsista de produtividade em pesquisa, um sonho que realizei h√° cinco anos atr√°s. E n√£o parei por a√≠… 

Qual a motivação que direciona o seu trabalho?

Minha maior motivação é ajudar a mudar a realidade da minha Região. Acredito que a pesquisa deve mitigar ou solucionar problemas da sociedade. A universidade tem papel social. Essa busca por mudanças tem dois grandes aspectos. O primeiro é mudar a realidade de alguns discentes brilhantes, com potencial de se tornarem atores de mudança na sociedade. Se não fosse a universidade, eles não seriam descobertos. O segundo é dar respostas diretas aos problemas do campo através de pesquisas aplicadas. Por exemplo, eu moro em uma região considerada o bolsão de pobreza de Pernambuco. A maioria dos produtores plantam para subsistência, com pouca ou nenhuma tecnologia, o que gera perdas na produção. Desde que iniciei na carreira acadêmica em 2009, minha motivação é diminuir essas perdas com ferramentas sustentáveis e torná-las acessíveis a esses produtores.

Quais as contribui√ß√Ķes que voc√™ fez para a ci√™ncia?

Enquanto bolsista de inicia√ß√£o cient√≠fica sintetizei mol√©culas e avaliei suas fun√ß√Ķes, principalmente como antibi√≥ticos. Vi camundongos com convuls√£o ter uma melhora no quadro cl√≠nico ao receber essas mol√©culas. Tamb√©m, participei de pesquisas em que mol√©culas extra√≠das de plantas eram testadas para fun√ß√Ķes biotecnol√≥gicas diversas.

No mestrado e no doutorado trabalhei com um fungo (Monosporascus cannonballus) que dizimou a produ√ß√£o de mel√£o do Rio Grande do Norte e no Cear√°. Na √©poca ambos os Estados eram respons√°veis por cerca de 95% da exporta√ß√£o de mel√£o do Brasil. No mundo, poucas pessoas estudam esse fungo e no Brasil, somente meu orientador e eu. 

Descobrimos que esse fungo era um habitante natural do solo. Dependendo do manejo do meloeiro, o fungo vira um potente patógeno. Desenvolvi duas moléculas capazes de combatê-lo, sem matá-lo, ajudando as plantas a se desenvolverem melhor. As moléculas eram promissoras também para o manejo de outros patógenos habitantes do solo.

Já como pesquisadora em início de carreira tive três projetos aprovados por agências de fomento para descobrir qual o principal patógeno do solo que estava dizimando a produção de mandioca em Pernambuco e buscar formas alternativas de manejo para a cultura. A pesquisa foi demanda de um grupo de agricultura familiar que eu participava com outros atores da sociedade, entre eles, secretarias de agricultura, órgãos de extensão, cooperativas e produtores. Desde então, desenvolvemos diversas ferramentas para mitigar o problema da podridão radicular da mandioca, incluindo publicação de artigos em revistas internacionais de impacto e registro de patentes.

No pós-doutorado na França, os pesquisadores do centro de pesquisa queriam entender a forma de recuperação de áreas degradadas por agricultura na Caatinga, maior floresta tropical seca do mundo. O estudo foi realizado através de três redes de pesquisadores: SISBIOTA-Matas Secas, NEXUS-Caatinga e INCT:ONDACBC. Os estudos permitiram caracterizar a identidade da microbiologia de solo degradados, com diferentes manejos ou em recuperação, usando a enzimologia ambiental como ferramenta. Os primeiros trabalhos de enzimologia na área de Caatinga é do nosso grupo!

A relação com a França estimulou o meu grupo a trabalhar com biochar (carvão vegetal, conhecido também como biocarbono, empregado na correção do solo) e ampliar minha rede de colaboradores no Brasil e no exterior. O estudo envolve diversas abordagens multidisciplinares, por exemplo, uso do biochar como componente alternativo no manejo de doenças de plantas e na fertilização do solo.

Quais s√£o os maiores desafios das cientistas no Brasil? 

Muitos s√£o os desafios dos cientistas no Brasil e um pouco mais para as mulheres cientistas. O primeiro desafio √© tornar-se uma cientista. Para isso, voc√™ ter√° que passar pelo mestrado e pelo doutorado. √Č necess√°rio estudar por mais anos, ganhando uma bolsa com dedica√ß√£o exclusiva, longe do mercado de trabalho. Diante dos cortes de investimento na ci√™ncia brasileira, ter uma bolsa aprovada √© ganhar um pr√™mio. Contudo, o fato de consegui-la n√£o garantir√° estabilidade, tampouco voc√™ ter√° qualquer direito trabalhista. 

Depois voc√™ ter√° que passar em um concurso p√ļblico, perto ou longe de onde voc√™ mora. Ter√° que trabalhar muito para publicar os trabalhos, √†s vezes colocando dinheiro do pr√≥prio bolso, e concorrer aos editais com pesquisadores do Brasil inteiro para conseguir financiamento de √≥rg√£os de fomento para montar um laborat√≥rio ou uma estrutura m√≠nima de trabalho. Esses desafios s√£o mais leves quando se tem parcerias.

Se você for uma cientista que trabalha em universidade, terá que ministrar aulas, fazer extensão, orientar alunos, formular projetos, comprar materiais de custeio e permanentes, administrar verbas, prestar contas e lidar com burocracias antipesquisa. Hoje, por exemplo, uma das maiores dificuldades que tenho é comprar reagentes que dependem de autorização da Polícia Federal. O pedido deve ser solicitado pela universidade e a autorização não chega. Estamos aguardando há meses e, por isso, interrompemos as análises.

O que mais a entusiasma na atividade de cientista?

Entregar respostas para uma agricultura sustentável em um país cuja economia é baseada no setor agrícola. Ver minha pesquisa divulgada em grandes revistas da área e ter o reconhecimento de pesquisadores do exterior. Tudo isso mostra que você está no caminho certo. Fiquei muito feliz ao ver na plataforma Researchgate, que o pesquisador que inventou um dos métodos de análise de atividade enzimática baixou e leu meu artigo!

A forma√ß√£o de recursos humanos me anima. Pensar que os alunos poder√£o se tornar parceiros, cientistas, v√™-los crescendo profissionalmente e pessoalmente, ganhando o mundo e trazendo novidades. √Č muito orgulho! 

Tamb√©m fico muito feliz em ter meu nome entre os contemplados em um edital, dada a grande concorr√™ncia no pa√≠s. Ser aprovada para a minha primeira bolsa de produtividade foi um desses momentos. √Č um grande pr√™mio de reconhecimento para quem trabalha com pesquisa. Sonho ainda em progredir na carreira e chegar √† pesquisadora 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient√≠fico e Tecnol√≥gico (CNPq). Outra honra foi ser convidada para reuni√Ķes da Coordena√ß√£o de Aperfei√ßoamento de Pessoal de N√≠vel Superior (CAPES) para contribuir com a avalia√ß√£o de projetos de pesquisa importantes para o pa√≠s. Aprendi muito nessas reuni√Ķes, fiz novos contatos e me sinto realizada. 

Algum conselho para as jovens aspirantes a cientista?

Estude muito e tenha gosto pelo estudo. Se dedique ao ingl√™s, pois √© a l√≠ngua oficial da ci√™ncia. Procure fazer diferente do que todo mundo faz. Seja determinada, teimosa, n√£o desanime, mesmo que os outros digam que voc√™ n√£o consegue. Quando disserem isso, ressignifique e use como combust√≠vel para seguir. Se imponha, pois a sociedade ainda favorece os homens. Chore quando o seu experimento der errado, respire fundo e retorne. Algumas das grandes descobertas foram feitas com erros. 

Respeite seus limites. Tenha metas e diga n√£o a tudo que te desvie delas. Forme parcerias com quem te coloque para cima, pois ningu√©m consegue nada sozinho, especialmente neste meio onde a concorr√™ncia √© desenfreada. Tenha humildade, ou√ßa mesmo aquele que voc√™ acha que n√£o pode contribuir com voc√™, pois um insight pode te tirar da “caixinha”. 

Saia da sua zona de conforto. V√° longe, abrace todas as oportunidades que tiver para passar um tempo fora do pa√≠s, aprenda outras culturas e forme parcerias com outros pesquisadores, mostre o seu diferencial e n√£o repita o que eles est√£o fazendo. Intelig√™ncia emocional √© o mais importante nessa profiss√£o, pois determinar at√© onde voc√™ ir√° e com quem voc√™ vai. Como costumo dizer aos meus alunos, parafraseando o astronauta Buzz Lightyear nos filmes da franquia Toy Story… V√° ao infinito e al√©m!!!

Como está o andamento das pesquisas em meio a pandemia de COVID-19? Quais os desafios e as estratégias adotadas para superá-los?

No in√≠cio a adapta√ß√£o a pandemia da COVID-19 foi dif√≠cil, pois nunca t√≠nhamos passado por isso. Como l√≠der do grupo de pesquisa, tive que tomar algumas decis√Ķes doloridas para quem estava no meio das an√°lises, com experimentos em andamento. Me senti respons√°vel por vidas, mais importantes do que qualquer outra coisa, e proibi o acesso dos alunos ao laborat√≥rio. Afinal, tudo poder√° ser refeito. Paramos tudo e aceitamos as determina√ß√Ķes para enfrentar o desconhecido. O que d√≥i mais √© n√£o saber quando termina a crise e como voltaremos a normalidade. 

Olho esse per√≠odo como uma oportunidade para repensar a vida em todos os seus aspectos, inclusive na pesquisa. Uma boa oportunidade para desengavetar artigos e aprender coisas novas. Existe a pesquisa de dados, j√° publicados ou dispon√≠vel em bancos de dados, que podem ser usados para formular e testar hip√≥teses in√©ditas sem sair de casa. 

Fa√ßo reuni√Ķes virtuais com o meu grupo para falar de trabalho ou outros assuntos. A estrat√©gia que bolei foi dividir os participantes em equipes com linhas de trabalho similares. Passei algumas diretrizes para repensarmos todos os trabalhos, acolhendo os alunos em suas dificuldades, ouvindo ideias, para acharmos sa√≠das para cada caso.

O importante √© perceber que tem dias mais dif√≠ceis. Neles precisamos dar espa√ßo aos sentimentos, “respirar” um pouco para, ent√£o, voltar com toda disposi√ß√£o. Permita-se passar por isso, pois voc√™ n√£o √© uma m√°quina. Mantenha a mente ativa, reinvente-se, respire fundo, cuide da vida pessoal e profissional, siga, pois sairemos pessoas melhores dessa. E quem sabe pesquisadores melhores! Vai passar!

Sobre a cientista convidada  

Erika Medeiros √© bi√≥loga pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e fez mestrado e doutorado em Fitotecnia pela Universidade Federal Rural do Semi-√Ārido (UFERSA). O p√≥s-doutorado em ecologia microbiana de solos foi realizado na Fran√ßa. Hoje √© professora na Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE) e faz pesquisas multidisciplinares com foco em microbiologia e bioqu√≠mica de solos. Atua como consultora da CAPES na avalia√ß√£o quadrienal dos programas da √°rea de Ci√™ncias Agr√°rias I.

Entrevista publicada originalmente em 10 de junho de 2020.

Di√°rio de Israel #7: J√° estivemos aqui antes

Para dar o tom:  “Sign of the Times”, de Harry Styles

Na sexta-feira, dia 06 de outubro de 2023, eu esbo√ßava mentalmente uma entrada no di√°rio sobre o medo de bombas, mencionado na postagem anterior De p√© no ch√£o. Refleti sobre a serenidade dos primeiros meses em Israel, interrompida pelos bombardeios de maio de 2021. 

Eu estava em Israel h√° seis meses e a crise entre Israel-Palestina parecia distante. A pandemia estava no auge e vencer a COVID-19 parecia um risco mais iminente do que uma guerra. Enquanto no Brasil, a vacina√ß√£o ainda avan√ßava lentamente nos grupos priorit√°rios, eu j√° estava imunizada com duas doses da vacina da Pfizer. A rotina de trabalho seguia sem restri√ß√Ķes e eu me sentia segura. 

Mesmo com a calmaria aparente, Reut ‚Äē uma das estudantes no meu laborat√≥rio ‚Äē considerou que era hora de me familiarizar com uma mamad (acr√īnimo do hebraico “merhav mugan dirati“, que significa espa√ßo protegido em pr√©dios). Essa decis√£o foi tomada depois de um debate acalorado entre aqueles que achavam o assunto desagr√°vel para depois de um almo√ßo pregui√ßoso.

A mamad representa o epítome da vida do cidadão israelense

Ao entrar na sala de estudos, sempre animada com alunos de pós-graduação e com a porta sempre aberta, surpreendi-me ao encontrar ali uma mamad. Estrategicamente localizada no centro do corredor e ao lado da escada de incêndio, a mamad é acessível aos pesquisadores distribuídos em três grandes laboratórios.

No edif√≠cio Nella & Leon Benoziyo de Ci√™ncias Biol√≥gicas, onde trabalho, h√° quatro mamadim (plural de mamad) por andar, totalizando seis andares. Em todo o campus do Instituto Weizmann de Ci√™ncia, existem onze miklatim (plural de miklat, abrigo anti-bombas) e seis mamadim em espa√ßos p√ļblicos, como estacionamentos e jardins.

Logo depois do estabelecimento do Estado de Israel (1951), a construção de abrigos antibombas já era incentivada em todo o país. Em 1992, tornou-se obrigatória a construção de mamadim em todas as unidades habitacionais, e hoje mais de 40% das residências estão em conformidade com a lei.

A mamad √© um quarto de cinco a doze metros quadrados, com paredes, piso e teto revestidos por 20 a 40 cent√≠metros de concreto maci√ßo, al√©m de uma porta de a√ßo que se abre para fora e uma janela √† prova de explos√Ķes em formato quadrado, tamb√©m revestida com a√ßo. As vers√Ķes mais modernas incluem at√© um sistema de ventila√ß√£o para ataques biol√≥gicos e qu√≠micos.

No ambiente dom√©stico, a mamad desempenha diversos pap√©is, desde quarto de crian√ßa, quarto de visitas, escrit√≥rio, sala de televis√£o at√© simples quartos de bagun√ßa. Em edif√≠cios mais antigos, como o meu atual, contamos com uma miklat comunal localizada no primeiro piso, utilizada pelos cond√īminos como um espa√ßo extra de armazenamento.

Mamad na minha segunda residência em Israel (2023).

A mamad representa o ep√≠tome da vida do cidad√£o israelense, independentemente de sua etnia ou status socioecon√īmico. Essa constru√ß√£o √© considerada um vetor de resili√™ncia emocional, tornando a vida poss√≠vel mesmo durante intensos bombardeios ao mesmo tempo que cria uma complexa e amb√≠gua am√°lgama entre normalidade e estado de emerg√™ncia.

A supress√£o moral da esperan√ßa pela paz, em troca de uma rotina poss√≠vel, √© tamb√©m uma estrat√©gia pol√≠tico-militar que torna o conflito administr√°vel e menos suscet√≠vel √† press√£o popular. Em uma sociedade onde guerra e paz n√£o s√£o fen√īmenos distintos ‚Äē alguns autores a descrevem como um continuum “nem guerra, nem paz” ou “quase guerra, quase paz” ‚Äē, as mamadim, combinadas com a tecnologia do Domo de Ferro (sistema de defesa antim√≠sseis), tornam-se quase terap√™uticas, embora n√£o sejam um ant√≠doto para a depress√£o e o estresse p√≥s-traum√°tico.

Mamad na minha primeira residência em Israel (2021).

Antes do sono, revisitei as rea√ß√Ķes fisiol√≥gicas de viver em um pa√≠s em estado de guerra, apenas para acordar no s√°bado (7) √†s 6:30 ao som estridente das sirenes. Meu cora√ß√£o acelerou, e uma onda de oxig√™nio e adrenalina inundou meu corpo. Levantei-me com agilidade da cama, calcei os chinelos, abri a porta com destreza e desci as escadas, pulando degraus. Em Rehovot, tenho um minuto e meio para alcan√ßar um local seguro. A cada andar, as portas se abriam, e as fam√≠lias emergiam em filas, algumas com crian√ßas ainda adormecidas no colo, acompanhadas por cachorros; a escada ficou cheia. Meu corpo, no modo aut√īmato, conhecia o percurso de cor.

Leia mais:

BIRD-DAVID, N.; SHAPIRO, M. Domesticating spaces of security in Israel. In: LOW, S.; MAGUIRE, M. (Ed.) Spaces of security: ethnographies of securityscapes, surveillance, and control. Nova Iorque: New York University Press, 2019. p. 163-183.

Camila Pinto da Cunha, engenheira agr√īnoma, jornalista cient√≠fica e pesquisadora de p√≥s-doutorado no Instituto Weizmann de Ci√™ncias, escreve sobre viv√™ncias pessoais e experi√™ncias cient√≠ficas em Israel.

Crédito imagem: DALL*E
Revis√£o de texto: ChatGPT

Diário de Israel #6 De pé no chão

Para dar o tom:  “Principia”, de Emicida

Setembro tem profundo significado na tradi√ß√£o judaica, marcando o in√≠cio de diversas celebra√ß√Ķes e festividades. Em 2023, o Rosh Hashan√° (Ano Novo Judaico) e o Yom Kippur, celebrados entre 15 e 25 de setembro, trouxeram √† tona lembran√ßas do in√≠cio da minha jornada em Israel, em 2020. 

A exaust√£o t√≠pica do final do ano, combinada com as m√ļltiplas confraterniza√ß√Ķes, culminou na minha primeira contamina√ß√£o pela COVID-19. O per√≠odo de isolamento para recupera√ß√£o evocou mem√≥rias do auge da pandemia, meus primeiros momentos em Israel e o di√°rio que permaneceu intocado por quase tr√™s anos.

Dentre os diversos feriados judaicos como Hanukkah, Lag Ba‚Äôomer, Tu Bishvat, Shavuot, Sukkot, Purim e Passover, meu favorito √© o Yom Kippur. Distinto dos outros, o Yom Kippur, tamb√©m conhecido como Dia da Expia√ß√£o, n√£o √© uma inova√ß√£o cultural dos sionistas. Ao contr√°rio, √© uma manifesta√ß√£o popular que se faz presente no espa√ßo p√ļblico, tocando tanto judeus quanto n√£o-judeus.

Esse dia reflete as nuances e complexidades da sociedade israelense, contrapondo-se √†s vis√Ķes tanto dos religiosos conservadores quanto dos seculares cosmopolitas, mas unindo a todos.

No Yom Kippur, Israel experimenta uma paralisa√ß√£o completa. Atividades econ√īmicas, de transporte e de lazer s√£o suspensas. Estabelecimentos por todo o pa√≠s, desde bancos, aeroportos, lojas, bares, restaurantes, parques e museus, permanecem fechados. At√© mesmo os servi√ßos b√°sicos, tanto estaduais quanto municipais, incluindo √°reas vitais como sa√ļde e seguran√ßa, cessam suas opera√ß√Ķes. A programa√ß√£o de r√°dio e TV √© interrompida e os jornais impressos n√£o circulam. N√£o h√° movimenta√ß√£o de transporte p√ļblico ou autom√≥veis particulares. Durante essa pausa, o pa√≠s respira melhor, com n√≠veis reduzidos de poluentes na atmosfera.

Na v√©spera do Yom Kippur, as ruas se enchem de vida. Fam√≠lias se re√ļnem para longas caminhadas ou bate-papos com vizinhos, escolhendo passear pelas faixas de tr√Ęnsito ao inv√©s das cal√ßadas. √Č comum ver muitos trajando roupas brancas, simbolizando boas vibra√ß√Ķes para o ano novo que se inicia. As crian√ßas, em especial, tomam conta do espa√ßo urbano: andam de bicicleta, patinete, patins e skate, aventurando-se por ruas, avenidas e at√© rodovias. √Č impressionante observar os pequenos, muitas vezes sem a supervis√£o direta de adultos, se divertindo em grupos ou at√© mesmo sozinhos. Por 25 horas, a cidade pertence a eles.

Para a maioria dos adultos, o Yom Kippur √© um momento de jejum, de refletir sobre as transgress√Ķes do ano passado e pedir perd√£o. Tamb√©m √© a √©poca de fazer um balan√ßo moral, conhecido em hebraico como ‘heshbon nefesh‘, em prepara√ß√£o para o ano novo. Enquanto alguns veem o dia como uma pausa introspectiva, outros o acham restritivo e mon√≥tono. Al√©m disso, para muitos, o feriado carrega as sombrias mem√≥rias da guerra de 1973, quando Israel foi atacado de surpresa por Egito e S√≠ria exatamente no Yom Kippur daquele ano.

Para mim, o Yom Kippur oferece uma oportunidade de enxergar a cidade sob uma perspectiva renovada e de conectar-me profundamente ao lugar onde resido. Nos anos anteriores, ao final da tarde, peguei minha bicicleta e em meio às crianças explorei Rehovot e a vizinha Yavne. Este ano, para minimizar a propagação do vírus, optei por apreciar e absorver o dia através da minha janela.

As √ļltimas postagens do di√°rio datam de novembro de 2020, ‚ÄúO pi√£o entrou na roda‚ÄĚ e “Laranja madura na beira da estrada‚ÄĚ. O tempo voa. Desde ent√£o, a quantidade e a velocidade das experi√™ncias e viv√™ncias em Israel deixaram os pensamentos embaralhados demais para serem escritos. 

Enfrentei temores inesperados, como o medo de bombas, abelhas e aeroportos, e consegui superar outros, como a hesita√ß√£o de me mostrar em fotos e v√≠deos. Assimilei novas formas de organiza√ß√£o do trabalho de pesquisa em equipe, dominei t√©cnicas e protocolos. Tive o prazer de guiar jovens rumo √† ci√™ncia. Percorri Israel de ponta a ponta e tive o privil√©gio de conhecer not√°veis pesquisadores brasileiros, que hoje constituem minha rede de suporte aqui. 

Ainda h√° muito a se compartilhar!

Leia mais:

Hizky Shoham (2013) Yom Kippur and Jewish public culture in Israel. Journal of Israeli History, 32:2, 175-196, DOI: 10.1080/13531042.2013.822732

Camila Pinto da Cunha, engenheira agr√īnoma, jornalista cient√≠fica e pesquisadora de p√≥s-doutorado no Instituto Weizmann de Ci√™ncias, escreve sobre viv√™ncias pessoais e experi√™ncias cient√≠ficas em Israel.

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Quarentenados: cientistas na pandemia

Em meio à pandemia, três jovens aspirantes a cientistas da Unicamp contam como fazer ciência, sobreviver e viver durante a quarentena

 

A chegada de uma nova doen√ßa infecciosa causada pelo novo coronav√≠rus e seu r√°pido espalhamento pelo mundo imp√Ķem a busca de solu√ß√Ķes pela ci√™ncia. No momento em que a sociedade mais precisa da ci√™ncia, ela reage em meio ao crescente ataque ao conhecimento cient√≠fico (o anticientificismo), √†s universidades p√ļblicas e aos cortes de recursos para pesquisa. 

Neste cen√°rio, cientistas de todo o mundo buscam incansavelmente por vacinas e medicamentos eficientes contra o SARS-CoV-2 e analisam modelos matem√°ticos e m√©todos de conduta social que ajudem os gestores p√ļblicos a conter o cont√°gio. Contudo, n√£o s√£o os √ļnicos, a ci√™ncia n√£o parou. Cientistas de todas as √°reas experimentaram mudan√ßas em seu trabalho e em sua vida.

Tr√™s cientistas ligados ao Laborat√≥rio de Gen√īmica e bioEnergia (LGE) da Unicamp, em diferentes etapas de forma√ß√£o, d√£o seus depoimentos sobre os efeitos da quebra abrupta de rotina e a reorganiza√ß√£o de suas vidas em meio a esse marco hist√≥rico. A pandemia e o isolamento social imp√Ķem diferentes n√≠veis de dificuldades para estes jovens cientistas. Muitos trabalhos s√£o pr√°ticos e dependem da infraestrutura do laborat√≥rio e do contato com pesquisadores mais experientes e orientadores. √Č sob essa supervis√£o que eles aprendem e crescem como cientistas. 

Luan Beschtold √© apaixonado por ci√™ncias e com 19 anos j√° experimentou ser cientista. Ele completou o est√°gio do ensino t√©cnico em Biotecnologia no LGE e se prepara para o vestibular. Jennifer n√£o perde tempo e aproveita a gradua√ß√£o, participando de diversos projetos. Graduanda em Ci√™ncias Biol√≥gicas, ela faz inicia√ß√£o cient√≠fica. J√° Fellipe √© um cientista maduro com doutorado. Engenheiro Qu√≠mico de forma√ß√£o, continua sua pesquisa no p√≥s-doutorado. Os tr√™s concederam entrevistas por e-mail e aplicativo de mensagens contando a panaceia para seus projetos de vida ap√≥s o COVID-19.  

Jennifer Wellen

Jennifer Wellen, 21 anos, estuda Ciências Biológicas na Unicamp e já está no final de sua graduação. Antes do estabelecimento da quarentena, ela estava animada escrevendo seu projeto de iniciação científica e acompanhando experimentos em andamento no Laboratório de Estudos da Dor e Inflamação no Instituto de Biologia.

A influ√™ncia de altera√ß√Ķes na dieta sobre comportamentos depressivos √© o foco da pesquisa, que usa o camundongo como modelo para os testes, oferecendo a eles uma dieta rica em a√ß√ļcar e gordura. T√©cnicas para o estudo de dor e depress√£o, como o teste de Von Frey, para quantificar a dor que o animal est√° sentindo, e o teste de intera√ß√£o social s√£o aplicados para detectar o desenvolvimento de comportamentos depressivos.

Esse fluxo de trabalho, contudo, foi modificado. Os experimentos laboratoriais tiveram de ser interrompidos, dando mais espaço para análises feitas no computador. Através de um software livre Jennifer analisa os vídeos dos camundongos para o teste de interação social.

Com a queda de seu notebook durante a quarentena, com a tela virada para baixo, Jennifer teve problemas para continuar realizando as análises. Por sorte, ela conseguiu salvar os arquivos do projeto, mas precisou continuar seus estudos com um notebook fornecido pela coordenação do Instituto de Biologia.

“A comunica√ß√£o fica muito falha √† dist√Ęncia. O aprendizado √© bem mais te√≥rico do que seria um projeto bem experimental. Isso deixa tudo meio falho. Eu sinto que estou aprendendo muito menos e quando depende das pessoas para aprender est√° sendo muito demorado”, contou. As intera√ß√Ķes com cientistas mais experientes, os experimentos e todo o aprendizado no laborat√≥rio enriqueciam a pesquisa de Jennifer, que lamenta estar aprendendo menos e mais lentamente.

Jennifer, de Indaiatuba, est√° morando em uma Rep√ļblica com seu namorado e outros tr√™s moradores. Ela teve de ficar em Bar√£o Geraldo por conta de seus estudos e pesquisas e considera que voltar para a casa de seus pais agora seria quebrar a quarentena e trazer riscos desnecess√°rios √† sua fam√≠lia.

Mesmo com a saudade, Jennifer est√° feliz. A rela√ß√£o com seu namorado est√° muito mais pr√≥xima. O apoio e companheirismo nesses tempos cresceram. Os dois caminham cerca de 5 Km nas tardes com Greg, o cachorro da rep√ļblica, e depois se exercitam em casa. Fora de casa e durante as caminhadas, ambos usam m√°scaras e mant√™m um distanciamento adequado de outras pessoas.

A arte e a cultura t√™m se mostrado ref√ļgios n√£o s√≥ para os cientistas, mas para todos n√≥s que enfrentamos esses momentos dif√≠ceis. Devorar novas s√©ries, filmes, m√ļsicas e animes s√£o fontes de divers√£o para a estudante. “Nessa quarentena est√° at√© dif√≠cil indicar s√©rie e filme, porque eu virei uma otaku. Assisto muitos animes e eu terminei uns cinco.” Ela tamb√©m conta que o lan√ßamento do √°lbum Future Nostalgia da cantora Dua Lipa salvou a sua quarentena, com destaque para a m√ļsica Break my Heart.

Felipe Mello

Fellipe Mello, 29, graduado em Engenharia Qu√≠mica e doutorando em Bioenergia, todos na Unicamp, est√° em seu primeiro ano do p√≥s-doutorado. Logo que Fellipe terminou de montar um plasm√≠deo, a Unicamp decretou o fim das atividades n√£o essenciais. “Eu precisava editar um gene de uma levedura minha, na verdade fazer o nocaute, que √© deletar o gene do genoma de uma linhagem, substituindo esse gene por outro. E, da√≠, para isso, eu preciso de um plasm√≠deo, o CRISPR. CRISPR √© aquela metodologia de edi√ß√£o gen√©tica.” Montar um plasm√≠deo √© um processo complicado, ele conta, que leva mais de um m√™s para ser finalizado. Felizmente, Fellipe conseguiu terminar a tempo essa etapa do trabalho, evitando perdas ao seu projeto.

As idas ao laborat√≥rio e os trabalhos de bancada diminu√≠ram. Embora Fellipe v√° algumas vezes por semana l√° para viabilizar o uso do rob√ī de pipetagem, pelo qual ele √© respons√°vel, a maior parte do trabalho ele faz em casa. Mesmo distante, ele est√° em contato di√°rio com seus alunos, discutindo projetos e os ajudando com an√°lises de dados. A maioria dos alunos ainda trabalha no laborat√≥rio seguindo um esquema de rod√≠zio para respeitar o distanciamento social. “Estamos trabalhando normalmente. A gente est√° em contato di√°rio. A gente sempre conversa. Eu estou sempre ajudando elas [orientadas], principalmente a analisar dados. Muitas v√≠deo chamadas! Al√©m das reuni√Ķes do laborat√≥rio convencionais, eu tenho feito bastante reuni√Ķes com as minhas alunas.”

Al√©m de orientar seus alunos √† dist√Ęncia, Fellipe est√° focado em escrever um novo projeto, se lan√ßando em uma nova etapa de seu trabalho. O objetivo √© desenvolver um biosensor baseado na levedura Saccharomyces cerevisiae capaz de detectar o v√≠rus da COVID-19. Gon√ßalo Pereira, coordenador do laborat√≥rio, e a mestranda Carla Maneira tamb√©m est√£o envolvidos na proposta, que j√° foi aprovada pela Inova para ser patenteada. Os tr√™s desenvolveram o projeto no in√≠cio da quarentena, o submeteram recentemente √† FAPESP e agora aguardam o resultado para financiamento. Em pouco tempo Fellipe conseguiu avan√ßar em seus estudos, indo al√©m de suas expectativas.

“Eu achei que n√£o conseguiria trabalhar em casa porque meu trabalho era puramente experimental e de bancada, mas tem sido bem produtivo e estou conseguindo fazer bastante coisa.” Apesar de apegado √† rotina e gostar das atividades presenciais no laborat√≥rio, o p√≥s-doutorando est√° feliz com a rotina imposta pela quarentena.

O que mant√©m Fellipe animado √© a atividade f√≠sica. Antes da quarentena, ele praticava tri√°tlon, crossfit, corrida e ciclismo. Hoje, com a compra de alguns equipamentos, ele  treina em casa e se mant√©m saud√°vel. Para Fellipe, os esportes, principalmente os individuais, oferecem uma forma de se conectar consigo mesmo.

Fellipe, assim como Jennifer, tamb√©m est√° isolado em casa com seu namorado e tr√™s outros amigos, longe da fam√≠lia. “Est√° todo mundo junto, o que ajuda bastante o processo. Ficar sozinho eu acho mais complicado.”

Os avós de Fellipe foram fazer o isolamento junto com seus pais em Resende, no interior do Rio de Janeiro, para facilitar os cuidados. Fellipe sente falta da família, mas não arrisca visitá-los.

Luan Beschtold

Luan Beschtold, 19, terminou o Ensino Médio em 2019 e agora seu foco principal é o estudo para o vestibular. Sua meta é cursar Engenharia Química na Unicamp. Ele também pensa na possibilidade de fazer Ciências Biológicas ou Farmácia como segunda opção.

No ano passado, Luan fez est√°gio no Laborat√≥rio de Gen√īmica e bioEnergia da Unicamp como parte do curso t√©cnico em Biotecnologia. Apesar do est√°gio encerrado, Luan fez muitas amizades, que o ajudaram nos estudos para o vestibular. Ele conta que recebeu uma grande quantidade de livros para pr√©-vestibular do pessoal do laborat√≥rio e est√° se guiando por eles. Quando ele n√£o entende algum conte√ļdo, procura por videoaulas na internet.

Luan organiza uma rotina de estudos semanal no Excel, com a separa√ß√£o de mat√©rias em per√≠odos. “Eu estou estudando de segunda a s√°bado, das 8h √†s 18h com intervalo de 10 minutos a cada 50 minutos de estudo”. Durante a noite, ele descansa e aproveita para aperfei√ßoar suas habilidades na guitarra, treinando novas m√ļsicas.

Luan est√° em isolamento em sua casa com a fam√≠lia e afirma que, durante a quarentena, somente seu padrasto costuma sair para a compra de produtos. “Me sinto um pouco preocupado em rela√ß√£o com o que pode vir pela frente. Para me distrair de todo esse caos estou treinando novas m√ļsicas na guitarra e assistindo animes”, comenta.

Atividades f√≠sicas s√£o uma forma importante de manter o corpo e a mente saud√°veis. Luan lamenta que agora sua rotina de esportes e exerc√≠cios se tornou muito limitada, mas tenta se adaptar √†s circunst√Ęncias da quarentena. “Eu recentemente comecei um treinamento em casa e √†s vezes ando de bicicleta no meu bairro.”

Caminhando juntos

Os tr√™s cientistas est√£o lidando com momentos de ansiedade. Al√©m da preocupa√ß√£o com amigos e familiares, h√° um grande sentimento de incerteza em rela√ß√£o ao futuro. O estabelecimento de uma rotina leve, que d√™ espa√ßo para o lazer e atividades f√≠sicas √© essencial para a manuten√ß√£o da sa√ļde mental. Estamos vivendo per√≠odos de mudan√ßas e √© normal levar tempo para adaptar-se. Para que os cientistas continuem fazendo ci√™ncia √© necess√°rio que o bem-estar esteja em primeiro lugar nas preocupa√ß√Ķes.

A arte e a cultura tamb√©m foram citadas pelos cientistas como ref√ļgios para o enfrentamento desse momento dif√≠cil. E voc√™? Como est√° lidando com a quarentena? Tem dicas de livros, m√ļsicas, filmes ou s√©ries? Conta pra gente nos coment√°rios!

Jennifer, Fellipe e Luan indicam:

Ang√©lica Franceschini , comunicadora social ‚Äď midialogia pela Unicamp, participou do programa M√≠dia Ci√™ncia da Fapesp no Laborat√≥rio de Estudos Avan√ßados em Jornalismo (Labjor/Unicamp). Hoje faz mestrado em multimeios na Unicamp.

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Di√°rio de Israel #5 Laranja madura na beira da estrada

Para dar o tom: “Laranja Madura”, de Ataulfo Alves

 

Rehovot √© uma cidade de m√©dio porte, localizada √† 20 Km ao sul de Tel Aviv, e foi fundada em 1890 pelos primeiros colonos judeus. No bras√£o v√™-se uma laranja, um microsc√≥pio e um livro representando os citros, a ci√™ncia e o esp√≠rito. Os tr√™s itens me chamaram a aten√ß√£o nos primeiros dias na cidade, mesmo antes de saber o significado deles para a regi√£o. 

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Apesar de industrial e tecnol√≥gica, a cidade foi no passado um polo agr√≠cola, batizada por uma passagem b√≠blica em que Isaac, filho de Sara e Abra√£o, e seus homens chamam “Rehobot” o local onde abriram o terceiro po√ßo sem causar conflito com locais, “porque agora, disse ele, o Senhor nos p√īs ao largo, e prosperaremos na terra” (G√™nesis 26:22).

Em 1904, Zalman Minkov, judeu polon√™s, compra as terras de um crist√£o √°rabe e transforma os vinhedos de √°rvores improdutivas em pomares de laranja. Com uma esta√ß√£o de trem, infraestrutura para exporta√ß√£o e a chegada de novos colonos judeus iemenitas, russos e et√≠opes, os laranjais se expandem e geram riquezas. Mais tarde, com a mecaniza√ß√£o e a competi√ß√£o internacional, os pomares perdem a import√Ęncia.

Hoje, p√©s da laranja “limta“, com frutos perfeitamente redondos, amarelos e amargos, enfeitam as ruas da cidade e as pra√ßas mantendo o passado vivo na mem√≥ria. As oliveiras tamb√©m s√£o frequentes e me encanta as flores, ervas e plantas arom√°ticas que brotam nas varandas, sacadas e quintais. Caminhando pelas ruas, me pego bisbilhotando dentro das casas e apartamentos. A quantidade de plantas mantidas no interior tamb√©m impressiona.

O cultivo das plantas √© toda uma ci√™ncia. Al√©m do Instituto Weizmann de Ci√™ncias, a cidade abriga o campus de agricultura, nutri√ß√£o e medicina veterin√°ria da Universidade Hebraica de Jerusal√©m, grandes empresas israelenses do setor aliment√≠cio e in√ļmeras startups de alta tecnologia.

Os livros representam o esp√≠rito, parte do trip√© da cidade, e est√£o por toda a parte. H√° prateleiras de livros em todos os halls de entrada de pr√©dios sempre gratuitos e acess√≠veis a qualquer leitor. Rehovot tamb√©m foi casa e ponto de encontro de alguns dos primeiros escritores e poetas da l√≠ngua hebraica, entre eles Rachel Bluwstein, Moshe Smilansky e Benjamin Tammuz, para citar alguns exemplos. Parte da literatura, arte e cultura israelense nasceu aqui. 

Entre citros, ciência e espírito, sinto-me em casa.

“Numa gentil noite suave, eu irei

Para fora e imóvel,

Sem falar com uma √ļnica alma,

Vou sentar um pouco.

Vou descansar como quem busca ref√ļgio

Do calor do siroco,

À sombra de uma árvore frondosa,

Enquanto sento sob seus p√©s.‚ÄĚ

Parte do poema “Four Poems – One Gentle Evening Suave” de Rachel Bluwstein. Tradu√ß√£o do hebraico para o ingl√™s de Elias Pater. Minha tentativa de tradu√ß√£o para o portugu√™s.

Camila Pinto da Cunha, engenheira agr√īnoma, jornalista cient√≠fica e pesquisadora de p√≥s-doutorado no Instituto Weizmann de Ci√™ncias, escreve sobre viv√™ncias pessoais e experi√™ncias cient√≠ficas em Israel.

Crédito imagem: DALLE*E

Texto publicado originalmente em 13 de dezembro de 2020

Di√°rio de Israel #4 O pi√£o entrou na roda

Para dar o tom: “Roda Pi√£o”, de Dorival Caymmi

 

Um dia antes do t√©rmino da quarentena, fechei as malas, me dediquei a uma limpeza superficial do cub√≠culo e empacotei os lixos de acordo com as instru√ß√Ķes de seguran√ßa. Era uma ter√ßa-feira ensolarada, quando finalmente abri a porta do n. 103. Um corredor longo e dois lances de escada me separavam da sa√≠da principal do pr√©dio. 

Arrastei as malas uma hora antes do combinado com a carona para fora do pr√©dio. A rua sem sa√≠da limitava o tr√Ęnsito de pedestres. Segura, retirei a m√°scara do rosto para sentir a brisa leve que passava √† sombra de um jacarand√°. 

Ziva e Grace organizaram suas agendas para me ajudar com a mudan√ßa para o apartamento oficial, fazer a primeira compra de supermercado e trocar um pouco de dinheiro para emerg√™ncias. N√£o demorou muito para o carro entrar no bols√£o. A din√Ęmica do tempo mudou quando entrei no carro em dire√ß√£o √† avenida principal de Rehovot, Herzl. 

Juntas √©ramos um time participando de uma gincana. As duas olhavam atentamente cada segundo do rel√≥gio. Os movimentos eram coreografados, sem espa√ßo para improvisa√ß√£o. As malas foram deixadas no apartamento, e seguimos o trajeto mais curto para cumprir todas as tarefas. 

A lista de itens essenciais para sobreviver √†s primeiras semanas foram lidas em voz alta por mim ainda no carro. No supermercado, elas se dividiram na busca pelos produtos. Eu, at√īnita, esperei junto ao carrinho e acatei todas as sugest√Ķes sobre as melhores aquisi√ß√Ķes. Tudo escrito em hebraico. As compras foram colocadas no apartamento sem nenhuma ordem, e voltamos para o Instituto Weizmann de Ci√™ncias.

No almo√ßo, os integrantes do laborat√≥rio se reuniram com p√£o pita, homus e tahini, descumprindo as regras do distanciamento social. As mesas foram arranjadas ao ar livre em um v√£o do pr√©dio protegido do sol. Por alguns instantes voltei √† vida antes da Covid-19. 

√Ä tarde, o professor me apresentou as instala√ß√Ķes do laborat√≥rio. Entrei em todas as salas e conversei pessoalmente com cada um dos alunos. Paramos apenas para um caf√© turco com cardamomo e doces t√≠picos no meio da tarde e seguimos para mais um tour guiado pelos jardins e pr√©dios at√© as casas de vegeta√ß√£o.  

Tudo rodava muito r√°pido como um tuf√£o. No final do dia, j√° em casa, sentada na escrivaninha, como um pi√£o, minha cabe√ßa ainda dava as √ļltimas voltas como que por in√©rcia. Tento pensar sobre o que aconteceu e refazer mentalmente o dia. As imagens passam borradas e distorcidas.

O corpo inteiro do√≠a, da cabe√ßa aos p√©s. Depois do banho, meu c√©rebro parecia um arquivo em branco com o cursor piscando, excitado para come√ßar a digitar algo. A cada piscada, um batimento card√≠aco e nada mais. Bloqueio. A √ļnica certeza foi estar grata pelo pr√≥ximo dia. 

Camila Pinto da Cunha, engenheira agr√īnoma, jornalista cient√≠fica e pesquisadora de p√≥s-doutorado no Instituto Weizmann de Ci√™ncias, escreve sobre viv√™ncias pessoais e experi√™ncias cient√≠ficas em Israel.

Crédito imagem: DALL*E
Revis√£o de texto: Nat√°lia Flores


Texto publicado originalmente em 25 de novembro de 2020

Madelaine Venzon: inseto praga, inseto solução

Madelaine Venzon, pesquisadora da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG) e coordenadora do Programa Estadual de Pesquisa em Agroecologia, estuda insetos benéficos para eliminar agrotóxicos dos cultivos e reduzir a contaminação ambiental.

 

Entusiasmo-me pela pesquisa que busca solu√ß√Ķes para a agricultura baseada na natureza

Madelaine Venzon

O que a influenciou a seguir carreira científica?

No final do curso de agronomia na Universidade Federal de Pelotas, Rio Grande do Sul, me interessei pelo estudo dos insetos, principalmente, o controle de pragas por métodos alternativos, sem uso de agrotóxicos. As notícias de contaminação ambiental por agrotóxicos e outros agentes químicos me incomodavam na época e continuam me incomodando hoje.

Logo ap√≥s formada, trabalhei com agr√īnoma por alguns meses em Caxias do Sul, minha terra natal. O excesso e a exclusividade do controle qu√≠mico como m√©todo de controle de pragas e doen√ßas na regi√£o chamava a aten√ß√£o e me preocupava. Um ano ap√≥s formada, iniciei o mestrado na Universidade Federal de Lavras (UFLA), Minas Gerais, sob supervis√£o do Prof. Cesar Freire Carvalho, quem me introduziu ao mundo dos insetos predadores. Desde ent√£o, meu interesse pelo controle biol√≥gico s√≥ aumenta.

Qual a motivação que direciona o seu trabalho?

Ser √ļtil e realizar pesquisas necess√°rias para a sociedade. Sinto uma enorme realiza√ß√£o pessoal com o meu trabalho! Minha motiva√ß√£o continua a mesma do in√≠cio da carreira: a busca por alternativas ao uso de agrot√≥xicos. A forma√ß√£o de recursos humanos na minha √°rea de estudo e as atividades de populariza√ß√£o da ci√™ncia me motivam muito tamb√©m.

Por exemplo, quando em uma atividade de interc√Ęmbio com agricultores, voc√™ v√™ que uma simples explica√ß√£o com demonstra√ß√£o pr√°tica de como os insetos s√£o ben√©ficos para a agricultura, transforma o olhar dessas pessoas sobre um determinado organismo. √Č motivador! Por isso, falo sempre aos meus colegas: ‚Äď Saiam do conforto dos seus laborat√≥rios e das salas de aula de vez em quando e interajam com as pessoas, com os agricultores, os estudantes, etc. Isso d√° uma vis√£o diferenciada √† pesquisa, especialmente quando queremos realmente ser √ļteis!

Quais as contribui√ß√Ķes que voc√™ fez para a ci√™ncia?

Comecei a carreira de pesquisadora na Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), na cidade de Uberaba, Minas Gerais, em 1992, logo após finalizar o mestrado. Ali fui pioneira na implantação de um projeto de controle biológico de percevejos da soja.

Depois do doutorado em controle biol√≥gico realizado na Universidade de Amsterd√£ na Holanda, continuei minha pesquisa na EPAMIG de Vi√ßosa, Minas Gerais. O desafio era aplicar os conhecimentos adquiridos na agricultura familiar. Foi nessa √©poca que iniciei meus estudos em controle biol√≥gico conservativo, com foco em estrat√©gias para aumentar as popula√ß√Ķes de inimigos naturais nos cultivos de caf√© e de hortali√ßas.

Considero importante o trabalho que fa√ßo que une pesquisa cient√≠fica b√°sica e aplicada na √°rea de manejo agroecol√≥gico de pragas em benef√≠cio, principalmente, dos pequenos agricultores. Meu trabalho √© feito em diferentes escalas ‚Äď laborat√≥rio, casa de vegeta√ß√£o e campo ‚Äď e os resultados s√£o publicados em peri√≥dicos indexados para a comunidade cient√≠fica. No entanto, na minha opini√£o, meu diferencial est√° nas a√ß√Ķes de populariza√ß√£o da ci√™ncia que fa√ßo. Tenho sempre a preocupa√ß√£o de comunicar meus resultados de pesquisa em linguagem f√°cil e acess√≠vel em circulares t√©cnicos ou informes agropecu√°rios publicados pela EPAMIG.¬†

Outra contribui√ß√£o √© a edi√ß√£o do livro 101 Culturas: Manual de Tecnologias Agr√≠colas, editora UFV (ed. 2, 2019), considerado o “Manual do Agr√īnomo” por ser uma fonte relevante sobre temas do dia a dia de agr√īnomos, como exig√™ncias clim√°ticas, √©pocas de plantio, cultivares dispon√≠veis, tratos culturais, colheita e comercializa√ß√£o para 101 culturas de import√Ęncia econ√īmica. O livro re√ļne 250 especialistas e √© fruto das pesquisas realizadas na EPAMIG e tamb√©m em outras institui√ß√Ķes de pesquisa e ensino do pa√≠s.¬†

Quais s√£o os maiores desafios das cientistas no Brasil?

Fazer ciência é um desafio no Brasil. O tempo para nos dedicarmos exclusivamente à pesquisa é um dos entraves. Grande parte do tempo é gasto em atividades burocráticas e na busca por recursos para trabalhar, financeiros e logísticos. Sobra pouco tempo efetivo para mergulhar fundo nas pesquisas. A falta de financiamento e de infraestrutura para pesquisa, para citar alguns exemplos, são outros gargalos, que representam sérias dificuldades.

O que mais a entusiasma na atividade de cientista?

Entusiasmo-me pela pesquisa que busca solu√ß√Ķes para a agricultura baseada na natureza. √Č um trabalho sem fim, cheio de descobertas e desafios!

Algum conselho para as jovens aspirantes a cientista?

Usem bem o tempo, especialmente durante a pós-graduação. Leiam muito. Há uma infinidade de fontes a serem exploradas. Visitem o campo e observem a natureza e o comportamento dos organismos. Observem como as plantas reagem ao ataque dos insetos e como os insetos se relacionam. Cumpram sempre seus compromissos de trabalho e, se possível, façam um treinamento no exterior, pois a experiência de vida pessoal e profissional é imensa.

Sobre a cientista convidada

Madelaine √© engenheira agr√īnoma formada pela Universidade Federal de Pelotas, fez mestrado em Fitossanidade (Entomologia) na Universidade Federal de Lavras (UFLA) e doutorado pela Universidade de Amsterd√£, Holanda. Come√ßou a carreira de pesquisadora na Empresa de Pesquisa Agropecu√°ria de Minas Gerais (EPAMIG) em 1992. Em 2017 recebeu o pr√™mio de Destaque M√©rito Cient√≠fico da EPAMIG pelos trabalhos desenvolvidos em prol do controle biol√≥gico.

Já escreveu mais de 100 artigos em jornais científicos arbitrados, além de 15 livros e 45 capítulos de livros de editoras nacionais e internacionais. Orientou mais de 120 alunos, entre iniciação científica, treinamento técnico, trabalho de conclusão de curso, especialização, pós-graduandos (mestrandos e doutorandos) e pós-doutorandos. Atualmente é professora nos cursos de Pós-Graduação em Entomologia e em Defesa Sanitária Vegetal, ambos pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), e coordena o Programa Estadual de Pesquisa em Agroecologia.

Inseto praga, inseto solução

Madelaine busca solu√ß√Ķes na natureza para uma agricultura menos dependente de qu√≠micos e mol√©culas sint√©ticas e mais saud√°vel e segura para os seres humanos e demais organismos do planeta Terra. A tarefa requer o estudo dos ecossistemas e da teia de rela√ß√Ķes entre diferentes organismos que os comp√Ķe. Observar e contemplar a natureza faz parte do seu ‚Äúfazer ci√™ncia‚ÄĚ.¬†

Uma das solu√ß√Ķes para evitar ou reduzir o uso de agrot√≥xicos para controlar pragas e doen√ßas que causam preju√≠zos √†s lavouras est√° no controle biol√≥gico conservativo, tema de estudo da cientista. O controle biol√≥gico conservativo re√ļne pr√°ticas de manejo que promovem e protegem popula√ß√Ķes de organismos considerados inimigos dos organismos que se quer combater. Os chamados ‚Äúinimigos naturais‚ÄĚ podem ser insetos, fungos, bact√©rias, etc. que se alimentam do organismo praga, predam seus ovos ou formas jovens, depositam seus ovos nele ou infectam-no com alguma doen√ßa. As possibilidades na natureza s√£o in√ļmeras.¬†

Um pr√°tica do controle biol√≥gico conservativo √© o plantio na lavoura de plantas n√£o-cultiv√°veis ou n√£o-comerci√°veis que sejam fonte de alimento ou que sirvam de ninhos artificiais para os inimigos naturais. Para ilustrar, o uso de gergelim ao redor de planta√ß√Ķes de arroz aumenta o n√ļmero de inimigos naturais das pragas comuns √† essa cultura e, na China (entre 900 e 1200 a.C.), ninhos da formiga-verde (Oecophylla smaragdina) eram espalhados deliberadamente pelas lavouras de citros para o controle de insetos, que danificavam folhas.¬†

Usar um organismo contra o outro √© ecologicamente correto e mais barato que o uso dos famigerados agrot√≥xicos. De acordo com um estudo recente, o uso do controle integrado de pragas com o controle biol√≥gico conservativo aumenta a produ√ß√£o em 5-40% e reduz o uso de qu√≠micos do grupo pesticidas em 30-70%. Apesar de antigas, essas pr√°ticas s√£o ainda pouco estudadas e exploradas comercialmente. O fato √© que os benef√≠cios econ√īmicos, principalmente, para pequenos agricultores e as vantagens ecol√≥gicas e ambientais dessas pr√°ticas poder√£o ser estrat√©gicas para a produ√ß√£o de alimentos em um futuro incerto de crise clim√°tica.

Crédito de imagem: Pixabay no Pexels

Entrevista publicada originalmente em 29 abril de 2020.