O progresso tecnológico de Wakanda seria viável no mundo real?

[Esta é uma versão expandida de um texto homônimo que escrevi para a edição 357 da Revista Ciência Hoje]

 

Se você assistiu ao filme do Pantera Negra deve ter se surpreendido com tamanho avanço tecnológico de Wakanda. Toda a tecnologia desse reino é baseada no metal fictício “Vibranium”, encontrado apenas por lá e em abundância. Em outro texto do Ciência Nerd já abordei a viabilidade de se produzir o uniforme do Pantera com a nossa tecnologia atual. Neste, vou falar de algo um pouco menos possível de acontecer no mundo real: o super avanço científico e tecnológico de uma sociedade isolada.

 

Invenção, Inovação e Difusão de tecnologia

Joseph Schumpeter (1883-1950) foi um importante economista austríaco e um dos primeiros estudiosos a considerar o papel das inovações tecnológicas enquanto um dos motores do desenvolvimento do capitalismo e ele elaborou sua teoria econômica inspirado pela biologia evolucionista de Charles Darwin. Uma das teorias atribuídas ao economista é a do ciclo “invenção-inovação-difusão”.

A invenção consiste na concepção de uma ideia, que ainda não passou pelo crivo do mercado. Por exemplo, antes dos aviões serem criados e se tornarem produtos, muitos outros inventores já haviam esboçado estruturas capazes de levar o ser humano aos céus.

Esboço de uma espécie de helicóptero feito por Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci, que dentre várias outras coisas era um exímio inventor, chegou a desenhar até modelo de helicóptero. Mas por ser um gênio muito à frente do seu tempo, era inviável que suas engenhocas fossem produzidas em larga escala naquela época. Paraquedas, robôs, trajes de mergulho, asa-delta, tanque de guerra são algumas das invenções do italiano que só ganharam o mercado tempos mais tarde.

Quando uma invenção é transformada em uma mercadoria que possa ser explorada economicamente ele se torna, então, uma inovação. Geralmente, no processo de transformação de uma invenção em uma inovação busca-se maior facilidade na aquisição da matéria-prima; menor custo de produção; maior segurança do produto e, consequentemente, maior confiabilidade do consumidor; possibilidade de produção em larga escala. Em suma, busca-se tornar essa invenção comercializável.

Tecnologia da caneta elétrica de Thomas Edison.
Patente da caneta elétrica de Thomas Edison

Uma invenção pode nunca virar uma inovação. Boa parte das pessoas conhecem Thomas Edison como o inventor da lâmpada elétrica, uma invenção que rapidamente se tornou um produto comercializável, ou seja, uma inovação. Mas o empresário norte-americano também criou várias outras coisas, como por exemplo a caneta elétrica de estêncil, que ao invés de tinta possuía uma agulha que escrevia perfurando o papel. À época, essa caneta não foi capaz de competir com as máquinas de datilografia, que eram muito populares, o que impossibilitou sua popularização. Mas anos mais tarde, Samuel O’Reilly fez modificações no design da caneta de Edison e chegou ao primeiro modelo da máquina de tatuagem, que muito se parece com as atuais.

 

Segway PT, exemplo de tecnologia frustada

Outro exemplo atual de invenção que quase virou uma inovação é o famoso Segway Personal Transporter, um diciclo motorizado com duas rodas bem grandes e um guidom que se movimenta conforme a inclinação do seu corpo. A promessa de revolucionar o transporte urbano acabou se tornando um enorme fracasso tecnológico.

Mesmo com o aporte financeiro de gigantes, como Jeff Bezos (presidente e CEO da Amazon), o produto encontrou barreiras legais para ser utilizada no dia-a-dia (entre outros problemas) e acabou se tornando um desnecessário meio de transporte de seguranças de shopping, com pouquíssimas unidades vendidas.

A terceira etapa do ciclo é a difusão, também conhecida como “imitação tecnológica”, que é quando outras empresas e países começam a produzir imitações de uma inovação com técnicas e processos diferentes. É comum as pessoas pensarem que esse processo é de menor importância, mas a teoria de Schumpeter mostra que imitar uma tecnologia é um processo tão importante quanto criar uma inovação. Alguns autores até afirmam que a imitação é mais importante do que a própria inovação.

 

A importância da imitação da tecnologia

Muitos estudos mostram que a China, segunda maior economia do mundo, viveu um acelerado crescimento baseado na imitação tecnológica. E o Brasil, assim como outras economias emergentes que não conseguem atuar nas fronteiras do desenvolvimento científico e tecnológico, tem a imitação como atividade crucial para fomentar a produção de tecnologias, aumentar a competitividade das empresas e viabilizar aprendizagem e capacitação de cientistas, engenheiros, etc.

A grande importância da imitação reside no fato de que ela não é uma simples cópia idêntica do produto original. Quando uma tecnologia é imitada ela está sendo levada a um novo contexto. A disponibilidade de matéria prima local é diferente, a mão de obra é diferente, o investimento é diferente, os custos dos processos são diferentes, as demandas locais da população são diferentes, o letramento tecnológico da população é diferente.

Por isso, não basta apenas copiar. É preciso que a tecnologia seja também adaptada à realidade local. E essas adaptações muitas vezes acabam se tornando também inovações. As chamadas inovações incrementais são pequenas melhorias ou adaptações que não alteram substancialmente a dinâmica do produto no mercado. Por serem mais baratas e não-disruptivas (portanto, de fácil recepção pelo consumidor), elas são as mais comuns de acontecerem. E essas inovações são essenciais para que tecnologias sejam difundidas e aperfeiçoadas.

Com isso, percebemos que o avanço tecnológico se dá por meio da participação de muitos agentes, de diferentes países e empresas. Sem isso, levaria muito mais tempo para que um produto fosse testado em larga escala, para que defeitos e limitações fossem identificadas, para que aperfeiçoamentos fossem feitos.

Além disso, para que haja inovação incremental dentro da própria empresa, não se configurando como um processo de difusão ou imitação tecnológica, ainda assim é essencial a participação de outros atores.

evolução da tecnologia dos celulares
Evolução dos Iphones. Desde o 2G (2007) até o XR (2018)

Celulares são exemplos de aparelhos que se valem com frequência das inovações incrementais. Muitos dos incrementos implementados são demandas da própria população, do mercado, ou de outras tecnologias. Por exemplo, para se criar jogos em realidade aumentada (como o famoso Pokemon Go!), não basta que se desenvolva o jogo. É preciso de aparelhos preparados para recebê-los, baterias que deem conta de suportar tamanho processamento em tempo real, uma internet móvel minimamente razoável, a tecnologia do GPS e do giroscópio, etc.

E apesar de estarmos focando na discussão da tecnologia, vale dizer que não é só ela que depende dessas interações em larga escala. O filósofo da ciência Karl Popper (1902-1994) foi claro ao dizer que a reprodutibilidade é um critério importante em experimentos científicos na busca de consensos. Experimentos que são reproduzidos (ou imitados) em diferentes partes do mundo e em diferentes circunstâncias adquirem um status de maior confiabilidade científica. E esse elemento é tão importante que um grupo de cientistas brasileiros, financiados pelo Instituto Serrapilheira, criou a Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade, que visa estimar a reprodutibilidade da ciência biomédica brasileira. A meta do grupo é reproduzir de 50 a 100 experimentos de artigos científicos brasileiros em 3 a 5 áreas diferentes de pesquisa.

 

E o que isso tem a ver com Wakanda?

O reino de Wakanda é completamente fechado e escondido do resto do mundo, ou seja, praticamente nenhuma tecnologia ou conhecimento científico produzido lá é exportado. Isso significa que suas tecnologias não passam pelo crivo do mercado global. Como afirma Nathan Rosenberg (1927-2015), um importante economista e historiador das revoluções tecnológicas, quando se trabalha isoladamente é muito difícil identificar o potencial mercadológico e econômico de uma tecnologia, ou seja, converter invenções em inovações. O mesmo vale para a ciência que Wakanda produz, que deveria ser bastante limitada, uma vez que ela não passa pelo crivo de outros cientistas e nem é reproduzida em outros lugares e por outras pessoas.

Costuma-se pensar que a cadeia ciência, tecnologia e mercado funciona de forma linear e sequencial: pesquisa científica gera tecnologia que, por sua vez, provoca impactos econômicos quando (e se) chega ao mercado. Mas essa interação é muito mais complexa e imprevisível. Muitos são os casos em que a tecnologia se desenvolve primeiro, o que causa um impacto no mercado e, posteriormente, a ciência investiga explicações para o funcionamento dessa tecnologia: é o caso dos altos-fornos e dos aviões, que foram criados muito antes dos cientistas elaborarem as teorias da combustão e da turbulência. Já os transistores, por sua vez, nasceram no meio científico, como teorias, depois se tornaram tecnologias e, por fim, chegaram no mercado, causando uma das maiores revoluções tecnológicas da história.

Fazer ciência e tecnologia são coisas cada vez mais caras e de longo prazo. Por isso, ambas dependem muito das respostas e necessidades do mercado, que, por sua vez, também é muito afetado pelo avanço das outras duas. O desenvolvimento científico-tecnológico não depende só da mente genial e do esforço de cientistas. Depende também de forças e motivações econômicas. Assim, nos perguntamos: como o pequeno de restrito mercado de Wakanda dava conta de fomentar a produção de inovações? De onde vinham os investimentos para desenvolver tanta tecnologia?

Além disso, ao longo da história, é possível observar que eventualmente nos deparamos com alguns gargalos tecnológicos e científicos, impedimentos inerentes à própria tecnologia ou à ciência, que impedem seus avanços. Esses obstáculos, muitas vezes, só são superados mediante processos de focalização em escala global, ou seja, através dos esforços de vários países e empresas com o objetivo de fazer a ciência e a tecnologia caminharem novamente. Se a solitária Wakanda enfrentasse um gargalo tecnológico similar a qualquer um dos grandes gargalos que a humanidade já viveu, sua superação certamente seria muito mais demorada.

Tecnologia do transistor
Um simpático alien transistor

 

E esse processo de superação de gargalos é tão importante, que muitas vezes eles levam a humanidade a grandes transformações tecnológicas. Por exemplo, a invenção dos transistores, responsáveis por desencadear a revolução da eletrônica, foi fruto de um programa de pesquisa da Bell Telephone na tentativa de superar um gargalo crítico nas telecomunicações.

 

Portanto, é inimaginável que Wakanda fosse capaz de deter tecnologias muito mais avançadas do que todo o resto do mundo. Isoladamente, ela não teria os impulsos do mercado, o processo da difusão tecnológica, a colaboração de outros países e empresas na superação de gargalos e o crivo de um público consumidor massivo, que são elementos essenciais para o desenvolvimento científico-tecnológico. Feliz ou infelizmente, há uma relação de dependência muito grande entre os países, ao menos quando lidamos com ciência e tecnologia. Por isso, desconsiderando o provável assédio e sucateamento que o reino sofreria das grandes potências (como aconteceu com todos os países do continente africano), a melhor política para Wakanda no quesito científico seria a sua abertura para o mundo.

 

Essas análises sobre a inviabilidade do desenvolvimento da ciência e tecnologia de Wakanda diminuem o valor do filme?

De forma alguma! Na realidade, o fechamento de Wakanda para o mundo é essencial para a trama e traz muito mais coerência para a narrativa. Afinal, é bem mais fácil nos convencer de que Wakanda foi capaz de se desenvolver daquele modo sozinha do que nos convencer de que haveria diplomacia no mundo capaz de impedir que as suas terras fossem rapidamente colonizadas e degradantemente exploradas pelas grandes potências. Ou seja, se considerarmos o aspecto histórico e geopolítico, poderíamos dizer que é a abertura de Wakanda para o mundo que inviabilizaria seu desenvolvimento científico-tecnológico.

Nesse aspecto, o filme tem um grande mérito em mostrar, em um pedacinho da África, o que poderia ter acontecido se o continente não tivesse sido completamente sugado pelo imperialismo europeu. E essa é uma discussão muito valiosa e necessária, embora geralmente negligenciada pelo cinema.

Esse texto apenas se aproveita de uma oportunidade que o filme nos deixa para discutir essa questão. Mas, assim como nós aceitamos os variados “problemas científicos” dos super-heróis e seus superpoderes, a inviabilidade de um país do mundo real se desenvolver tal como Wakanda em nada atrapalha a narrativa.

 

Esse artigo não seria possível sem as valiosas aulas da professora Maria Beatriz Machado Bonacelli, do Instituto de Geociências da Unicamp.

 

O texto foi baseado na seguinte bibliografia:

VIEIRA, R. M. Teorias da firma e inovação: um enfoque neo-schumpeteriano. Cadernos de Economia, 2010.

ALBUQUERQUE, E. M. Nathan Rosenberg: historiador das revoluções tecnológicas e de suas interpretações econômicas. Revista Brasileira de Inovação. Campinas, p. 9-34, 2017.

POSSAS, M. L. Economia evolucionária neo-schumpeteriana: elementos para uma integração micro-macrodinâmica. Estudos avançados. 22 (63), 2008. <http://www.scielo.br/pdf/ea/v22n63/v22n63a21.pdf>

ARBIX, G.; MIRANDA, Z. Inovação tecnológica pode ser obtida pela imitação. Disponível em: <http://www.techoje.com.br/site/techoje/categoria/impressao_artigo/968>

MOWERY, D.; ROSENBERG, N. Trajetórias da inovação. Trad. Marcelo Knobel. 2005.

SCHUMPETER, J. A. Teoria do desenvolvimento econômico. São Paulo: Abril Cultura, 1982.

Físico e mestre em Divulgação Científica pela Unicamp. É professor no Sistema Anglo de Ensino, Colunista da Revista Ciência Hoje, Coordenador do projeto Ciência ao Bar e Cinegrafista, Editor e Tradutor na TV NUPES (Fac. de Medicina - UFJF)

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