Celebrando Williamina Fleming: de trabalhadora doméstica a astrônoma pioneira em Harvard

Williamina Fleming por volta de 1890. Domínio Público. Cortesia dos Curadores das Fotografias Astronômicas do Harvard College Observatory.

Por Juliana Aguilera Lobo

A história de vida de Williamina Fleming, astrônoma que viveu entre meados do século 19 e o início do século 20, é carregada de simbologias e de episódios que ilustram as dificuldades e as oportunidades que permeiam a jornada das mulheres nas ciências.

Williamina Fleming por volta de 1890. Domínio Público. Cortesia dos Curadores das Fotografias Astronômicas do Harvard College Observatory.

O começo

Nascida na Escócia em 1857, Williamina desde cedo demonstrou aptidão e interesse pelos estudos, e aos 14 anos já atuava como professora assistente de crianças mais novas. Tendo em vista todos os limites impostos pelo contexto social de sua época, aos 20 anos ela casou-se com um homem 16 anos mais velho e em 1878, migrou grávida para Boston.

Abandonada pelo marido ao chegar nos Estados Unidos, Williamina achou emprego como trabalhadora doméstica na residência do físico e astrônomo Edward C. Pickering, que acabara de assumir o posto de diretor do Harvard College Observatory (HCO). Fundado em 1839, o HCO ainda hoje é um importante centro de pesquisas do departamento de Astronomia da Universidade de Harvard.

No final dos anos 1870, o trabalho de análise de dados astronômicos dependia de cálculos matemáticos manuais. Diários da época relatam que Pickering, frustrado com a performance de seus assistentes numa equipe até então integralmente masculina, exclamou: “Minha empregada escocesa poderia fazer melhor!”. Pouco tempo depois, o diretor do HCO convidou Williamina para realizar trabalhos administrativos no Observatório. O ano era 1879.

O trabalho no Observatório de Harvard

Em 1881, quando Williamina já era funcionária do HCO, a equipe do Observatório de Harvard estava nos primeiros passos de uma empreitada que se intensificaria nos anos seguintes e se estenderia por décadas, resultando em avanços enormes para a compreensão dos astros do Cosmos: a análise de centenas de milhares de chapas fotográficas de vidro que continham imagens de corpos celestes.

As Calculadoras de Harvard, com Edward Pickering à esquerda e Williamina Fleming em pé ao centro. 1891. Creative Commons. Cortesia da Harvard Library.

Essas fotos eram tiradas por meio de um prisma e capturavam muito mais detalhes do que se comparado ao que uma pessoa conseguia ver a olho nu com um telescópio. O objetivo era analisar o espectro, a coloração e as linhas que se formavam quando a luz das estrelas se dispersava no prisma – para que, assim, a equipe pudesse chegar a um método de classificação estelar.

Williamina – ou Mina, como era chamada pela equipe do HCO – logo tomou a frente do projeto junto a Pickering, que contratou um grupo de mulheres que ficariam conhecidas como “Harvard Computers” (As Calculadoras de Harvard).¹ A atuação de Williamina no HCO não se limitava à análise dos dados estelares: ela continuou coordenando as atividades administrativas do observatório, além de organizar todas as publicações científicas do instituto.

As descobertas

Em 1888, a astrônoma identificou em uma das chapas de vidro uma grande nebulosa no cinturão de Órion que tinha um formato peculiar, semelhante a uma cabeça de cavalo. Infelizmente, a comunidade científica da época não deu o devido crédito à Williamina pela sua descoberta, algo que foi corrigido em publicações de anos posteriores.²

O corpo celeste recebeu o nome de Nebulosa Horsehead (“cabeça de cavalo”, em inglês), que hoje em dia é uma das nebulosas mais reconhecidas pelos entusiastas da Astronomia.

Nebulosa de Cabeça de Cavalo. Creative Commons. Imagem feita por Ken Crawford.

Dois anos depois, em 1890, o HCO lançou o Catálogo Draper de Espectro Estelar, que continha as análises realizadas pelas calculadoras de Harvard até aquele momento. Para o catálogo, Williamina – desafiada por Pickering – montou um método de classificação de estrelas baseado no espectro e que ficou conhecido como Sistema Pickering-Fleming.

Este sistema serviu de inspiração para um outro sistema posteriormente desenvolvido pela também astrônoma de Harvard (e pupila de Fleming) Annie Jump Cannon, que lançou as bases para os modelos atuais de classificação estelar.

Em seus últimos anos de vida, Williamina Fleming continuou dedicada à rotina de trabalho no Observatório de Harvard. A astrônoma foi a primeira pessoa a constatar, a partir da tipificação do espectro, a existência das anãs brancas³, estrelas “mortas”  extremamente densas. Em 1910, a descoberta foi publicada por Fleming junto a Pickering e ao jovem astrônomo Henry Norris Russell.

O legado de Williamina

Além de conciliar múltiplas funções no Observatório de Harvard e de criar seu filho sozinha, Williamina também escrevia sobre como era ser uma mulher nas ciências na virada do século 19 para o século 20. Em 1893, por exemplo, ela publicou um artigo em que falava um pouco sobre a rotina de trabalho das calculadoras de Harvard. No texto, ela também incentivou a adesão de mais mulheres na Astronomia:

“Muitas mulheres atualmente devem ter uma aptidão e um gosto para a Astronomia – e se tivessem as mesmas oportunidades, sem sombra de dúvidas se devotariam ao trabalho com o mesmo zelo incansável, e, dessa forma, aumentariam muito nosso conhecimento sobre a constituição e a distribuição das estrelas.”⁴

Durante sua trajetória como astrônoma, que começou em 1881 e se estendeu até 1911, ano em que faleceu devido a uma pneumonia, Williamina classificou 28.266 espectros de 10.351 estrelas em 633 chapas de vidro, além de descobrir a existência de mais de 300 estrelas de luminosidade variável, 52 nebulosas e 10 estrelas novas.

Ela também foi a primeira mulher na história a ter um cargo institucional em Harvard (sob o título e a função de Curadora de Fotografias Astronômicas) e a primeira a ser nomeada membro da Royal Astronomical Society.

As contribuições de Williamina Fleming pavimentaram o caminho para as mulheres que vieram depois e, mesmo mais de cem anos mais tarde, o trabalho das calculadoras de Harvard, sob a liderança de Mina, continuam inspirando jovens pesquisadoras da atualidade a trilharem suas carreiras na Astronomia e na Astrofísica.⁵

Notas

¹ É documentado que Pickering resolveu contratar uma equipe composta majoritariamente por mulheres para analisar os dados estelares porque ele acreditava que as mulheres eram trabalhadoras mais cuidadosas e porque elas aceitavam uma remuneração mais baixa do que os homens. As astrônomas e matemáticas que trabalhavam para o diretor do Observatório de Harvard também eram chamadas de “o Harém de Pickering”, termo depreciativo que ilustrava a mentalidade da sociedade patriarcal da época.

² A nebulosa Horsehead também é conhecida como Barnard 33. O astrônomo E. E. Barnard, que foi um dos primeiros a descrever as características da nebulosa, inicialmente omitiu a participação – e a importância – de Williamina Fleming na descoberta.

³ Aula do Profº João Steiner, da USP, sobre as anãs brancas: https://youtu.be/Ycx_X02gV-4

⁴ Tradução livre. FLEMING, Williamina. “A Field for Women’s Work in Astronomy”, in: Astronomy & Astrophysics Journal, 1893. p. 683.

⁵ O Projeto PHaEDRA é uma iniciativa de pesquisadoras ligadas à biblioteca Wolbach, de Harvard, para catalogar, digitalizar e transcrever mais de 2500 diários e jornais pessoais das mulheres que trabalharam no HCO. Saiba mais: https://www.bbc.com/portuguese/geral-41091733

Referências:

https://harvardmagazine.com/2017/01/williamina-fleming

http://www.newenglandhistoricalsociety.com/williamina-fleming-boston-maid-discovered-stars/

https://library.cfa.harvard.edu/phaedra/fleming

http://altbibl.io/gazette/the-first-computer-williamina-fleming-and-the-horsehead-nebula/

http://altbibl.io/gazette/every-star-speaks-for-itself/

Agradecimentos especiais a Julio Lobo, astrônomo do Observatório Municipal de Campinas Jean Nicolini (OMCJN), pela consultoria técnico-científica durante a elaboração deste texto.

Graduada em Relações Internacionais pela UNESP Franca, atualmente é aluna especial no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. Realiza pesquisa nas áreas de Ciência Política e Estudos de Gênero e tem interesse em Divulgação Científica. É fascinada pelo céu estrelado desde que se entende por gente.

Sobre Juliana Aguilera Lobo 2 Artigos
Graduada em Relações Internacionais pela UNESP Franca, atualmente é aluna especial no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. Realiza pesquisa nas áreas de Ciência Política e Estudos de Gênero e tem interesse em Divulgação Científica. É fascinada pelo céu estrelado desde que se entende por gente.

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