Celebrando Nancy Grace Roman, a primeira mulher a ter uma posição de liderança na NASA

Publicado por Juliana Aguilera Lobo em

Nancy Roman em 1962 com um modelo do “Orbiting Solar Observatory” (OSO)

O início

Nancy Grace Roman nasceu em 1925 em Nashville, nos Estados Unidos. Filha de um geofísico e de uma professora de música, mudou várias vezes de cidade na infância até que sua família se estabeleceu no entorno da cidade de Reno, Nevada, onde o céu era estrelado e a poluição luminosa não afetava a paisagem.

Fascinada pelas estrelas, Nancy, aos 11 anos, formou um clube de astronomia com suas amigas, espaço onde aprendeu sobre as constelações e começou seus estudos sobre os mistérios do cosmos. Incentivada por seus pais¹, ela nunca perdeu o interesse pelas estrelas e formou-se em Astronomia pela Swarthmore College em 1946.

Em 1949, concluiu seu doutorado, também em Astronomia, pela Universidade de Chicago, e passou a trabalhar no Observatório Yerkes, órgão ligado à instituição de ensino. No início de sua carreira científica, publicou um catálogo de estrelas de alta velocidade com cerca de 600 destes corpos celestes, além de descobrir que estrelas compostas por hidrogênio e hélio se movem mais rápido do que estrelas constituídas por elementos mais pesados.

Dez anos depois, em 1959, Nancy foi recrutada pela NASA, dando início uma carreira de grande sucesso na organização (que havia sido criada um ano antes).

O trabalho na NASA

Ainda em 1959, Nancy foi a primeira Chefe de Astronomia no Office of Space Science (“Escritório de Ciência Espacial”, em tradução literal) da NASA e a primeira mulher a assumir uma posição executiva na organização. 

Em 1961, Nancy tornou-se chefe de Astronomia e Física Solar na entidade, cargo que exerceu até 1963. Seu papel na NASA também tinha forte caráter administrativo e executivo e envolvia preparar o orçamento para diversos projetos e planejar iniciativas que incluíam o uso de satélites e de foguetes. 

A astrônoma viajava pelos Estados Unidos dando palestras aos departamentos de Astronomia das universidades e discutindo programas da NASA. Outra função desempenhada por ela era a de entender quais as necessidades e os interesses de outros astrônomos em termos de possibilidades e de campos de estudo nas diversas linhas de pesquisa da Astronomia.

Nancy Roman em 1972 no Centro de Voos Espaciais Goddard

Nancy Roman em 1972 no Centro de Voos Espaciais Goddard. Imagem via arquivos da NASA. Todos os direitos reservados.

O papel fundamental no projeto do telescópio espacial Hubble

Nancy já havia deixado a NASA quando em 1978 foi chamada para voltar e encabeçar o projeto que deu origem ao telescópio espacial Hubble.  

O Hubble foi o primeiro telescópio óptico de grande escala em órbita no espaço. Nancy teve um papel essencial sobretudo no início do projeto, e como cientista-chefe da empreitada, organizou os diálogos e os trabalhos dos astrônomos e engenheiros espaciais envolvidos.

O projeto conseguiu financiamento do Congresso estadunidense graças em grande parte aos esforços da astrônoma, que chegou a escrever os discursos dos representantes da NASA no Congresso. Não é à toa que a comunidade científica a considera, até hoje, como a “mãe do Hubble”.

O Hubble entrou em órbita em abril de 1990, e nos anos seguintes expandiu massivamente o conhecimento que nós, humanos, temos do Universo. Conforme explica artigo do NY Times, o Hubble “aumentou a compreensão acerca de galáxias distantes e de planetas do nosso próprio sistema solar ao transmitir imagens que chegariam distorcidas caso houvessem sido obtidas através de equipamentos operados na atmosfera terrestre”.

Telescópio Espacial Hubble na órbita da Terra em abril de 1990

Telescópio Espacial Hubble na órbita da Terra em abril de 1990. Imagem via arquivos da NASA. Todos os direitos reservados.

O legado de Nancy Grace Roman

Ao longo de sua trajetória, Nancy Roman foi uma importante defensora da inclusão das mulheres nas ciências. Desde muito jovem, a astrônoma percebeu que teria mais dificuldades de seguir a carreira dos seus sonhos simplesmente por ser mulher.

Um episódio narrado por ela explica o viés de gênero pelo qual somos submetidas e submetidos socialmente até os dias atuais. No ensino médio, Nancy pediu permissão para cursar álgebra ao invés de latim, e a resposta da professora veio em forma de indagação: “que tipo de moça faria aulas de matemática e não de latim?”.

Por conta das dificuldades que enfrentou em sua carreira, Nancy dedicou-se a fomentar o interesse de meninas e de jovens mulheres nas ciências. Um de seus objetivos era mostrar que a ciência poderia sim ser divertida. Depois de se aposentar, ela deu aulas de Astronomia para estudantes de quinta série em Washington na década de 1990.

Em 2015, a NASA criou uma bolsa de estudos em Astrofísica em seu nome, a “Nancy Grace Roman Fellowship”, com o objetivo de incentivar jovens pesquisadoras e pesquisadores a desenvolverem tecnologias para ajudar no avanço das investigações relacionadas à origem do Universo e à exploração de planetas fora do nosso sistema solar.

Dois anos depois, em 2017, a LEGO, em parceria com a NASA, criou o set “Women of NASA” (”Mulheres da NASA”), com figuras representando cinco mulheres que fizeram história na organização, desde astrônomas e engenheiras a astronautas. Nancy foi uma das homenageadas.

Nancy Grace Roman morreu aos 93 anos em dezembro de 2018, deixando contribuições que foram essenciais para o avanço da Astronomia no século 20.

Nancy Roman em 2017 segurando a figura Lego criada para homenageá-la

Nancy Roman em 2017 segurando a figura Lego criada para homenageá-la. Imagem via Twitter Lego Nasa Women. Todos os direitos reservados.

Para ler mais posts sobre mulheres na Astronomia e na Astrofísica, acesse:

Maritza Soto e Lia Medeiros: duas mulheres que estão fazendo a diferença na Astronomia

Celebrando Williamina Fleming: de trabalhadora doméstica a astrônoma pioneira em Harvard

O universo extraordinário com Emma Osborne

Nota:

¹ A astrônoma relatou em entrevista à NASA que as pessoas que mais a inspiraram foram seus pais. O pai de Nancy era cientista e respondia às perguntas científicas da filha, e a mãe dela a levava para passeios à noite para observar as constelações e a aurora.

Referências:

https://www.nytimes.com/2018/12/30/obituaries/nancy-roman-dies-at-93.html 

https://www.nasa.gov/home/hqnews/2011/aug/HQ_11-277_Astro_Fellows.html

https://www.aip.org/history-programs/niels-bohr-library/oral-histories/4846 

https://women.nasa.gov/nancy-grace-roman-2/ 

ideas.lego.com/projects/147876


Juliana Aguilera Lobo

Graduada em Relações Internacionais pela UNESP Franca, atualmente é aluna especial no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. Realiza pesquisa nas áreas de Ciência Política e Estudos de Gênero e tem interesse em Divulgação Científica. É fascinada pelo céu estrelado desde que se entende por gente.

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