Superstições e Crenças sob uma Perspectiva Cognitiva!

ResearchBlogging.orgHá alguns dias atrás, recebi um desses email-corrente pedindo que eu listasse as minhas superstições mais comuns. Como o email já havia passado por milhares de pessoas antes de chegar a mim, decidi ler as superstições das outras pessoas. São muitas e variadas. E até certo ponto, criativas. Uma as pessoas, por exemplo, disse que não tinha superstição alguma, pois isso dá azar!

Por muito tempo, o estudo de crenças, religiões, superstições e teorias de conspiração era da alçada de antropólogos sociais e estudiosos culturais. No entanto, dos anos 70 pra cá, um importante movimento nas Ciências Cognitivas tem buscado investigar o surgimento de crenças e superstições de um ponto de vista mais cognitivo. Basicamente, a idéia é investigar como a mente humana cria crenças e superstições, quais fatores estão implicados nesse processo e como podemos entender essas criações.

Em outubro de 2008, Jennifer Whiston da Universidade do Texas e Adam Galisnky da Universidade Northwestern, executaram uma série de experimentos mostrando que, um dos fatores responsáveis pela formação de “padrões ilusórios” (ver imagens onde não há, perceber conspirações e desenvolver superstições) é a falta de controle em certa situação. Segundo esses pesquisadores, o desejo de combater incertezas é uma das forças que guiam os serem humanos. Sempre que enfrentamos uma situação que não temos controle é natural que imediatamente tentemos re-estabelecer o controle da siuação, de uma maneira ou de outra.

Para esses pesquisadores, quando não conseguimos re-estabelecer o controle da situação de maneira objetiva, nós o fazemos de forma perceptiva. Assim, quando não temos controle da situação, “vemos” padrões e correlações que não existem, e atráves dessa visão começamos a ter controle da situação. Os experimentos executados pelos pesquisadores tinham o objetivo geral de mostrar isso: que a falta de controle de uma situação é responsável pelo surgimento de padrões perceptuais ilusórios.

No primeiro experimento, os pesquisadores tinham o objetivo de mostrar que a falta de controle cria a necessidade de “ver” padrões onde não existem. Para controlar “controle da situação” os pesquisadores utilizaram uma espécie de tarefa de identificação conceptual. Nessa tarefa, participantes tinham que explicar conceptualmente uma série de estímulos. No grupo “falta-de-controle”, o feedback que os participantes recebiam não era consistente com as respostas. No grupo base nenhum feedback era dado aos participantes. Para acessar a necessidade de perceber padrões, os pesquisadores utilizaram a escala “Personal Need for Structure Scale“. Os resultados mostraram que os participantes no grupo “falta-de-controle” demonstraram uma necessidade maior de perceber padrões.

No segundo experimento, os pesquisadores utilizaram a mesma tarefa para manipular o “controle da situação” e verificaram em que medida as pessoas no grupo “falta-de-controle” enxergariam padrões inexistentes. Para acessar isso, os pesquisadores utilizaram uma versão modificada do “picture snowy task“. Os resultados mostraram que os participantes no grupo “falta-de-controle” quando comparados com o grupo base, enxergaram mais padrões inexistentes.

No terceiro experimento, os pesquisadores manipularam o controle da situação pedindo que os participante contassem uma situação onde eles tinham total controle ou não tinham controle algum. Após a recontagem, eles tinham que responder perguntas referentes à crenças supersticiosas. Os participantes que contaram uma situação onde não tinham controle tenderam a adotar uma posição muito mais superstisiosa que os participantes que contaram uma situação em que tinham controle.

O experimento IV teve como objetivo mostrar que não é uma situação de “ameaça” que é responsável pela visão de padrões inexistentes, mas sim a falta de controle. Participantes contaram uma situação onde algo ameaçador aconteceu e então os pesquisadores manipularam o controle ou não da situação. Além da tarefa de identificar objetos (picture snowy task), os pesquisadores acessaram a percepção de conspiração. Assim como nos experimentos anteriores, os participantes do grupo “falta-de-controle”, quando comparados com o grupo base, viram mais padrões inexistentes e endossaram mais teorias de conspiração.

Nos últimos dois experimentos, os pesquisadores testaram a mesma hipótese, mas no campo das financias. Eles manipularam controle ou não da situação do mercado financeiro e verificaram se participantes tediam a ver duas afirmações não relacionadas, como relacionadas. Novamente, os resultados mostraram que a falta de controle levou os participantes a julgar frases não-relacionadas como relacionadas.

Esses experimentos em geral são importantes por dois motivos principais: primeiro, eles mostram que é possível estudar, sob uma perspectiva experimental, assuntos que antes eram estudados apenas de maneira expeculativa. Segundo, eles mostram que pensar em superstições, crenças, teorias de conspiração sob uma perspectiva cognitiva não é algo “sem-noção”. Muito pelo contrário, é uma área bastante promissora dentro das Ciências Cognitivas.

Fique ligado para mais posts.

Referência:

Barrett, J. (2000). Exploring the natural foundations of religion Trends in Cognitive Sciences, 4 (1), 29-34 DOI: 10.1016/S1364-6613(99)01419-9

Esta entrada foi publicada em Psicologia Cognitiva. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.