Flexibilidade Atencional e Representacional em Processos de Inferência

ResearchBlogging.orgHá mais ou menos um ano, a Pixar lançava nos cinemas mundiais o filme Wall-e. Esse longa-metragem protagoniza um robôzinho muito simpático e suas aventuras num planeta Terra destruído e abandonado. Em uma das cenas do filme, Wall-e chega em sua casa e começa a “guardar” os objetos que recolheu ao longo do dia. Cada tipo de objeto tem seu lugar específico. Eis que então, Wall-e se depara com a dificuldade de guardar um “garfo” que ele encontra. Depois de oscilar entre “garfos” e “colheres”, Wall-e desiste e coloca o objeto em local separado.
Pare um telespectador “normal”, essa foi apenas uma cena engraçada. No entanto, para “malucos” como eu — que não desliga de ‘processos cognitivos’ — a cena como um todo é um exemplo espetacular de um processo cognitivo muito comum ao ser humano: categorização.
Os seres humanos são experts no processo de categorização. Fazemos isso o tempo inteiro. A partir dos processos de categorização criamos/aprendemos conceitos acerca dos objetos que nos cercam e com os quais interagimos. O estudo dos processos de categorização são antigos. Datam da década de 20, com estudos do psicólogo norte-americano Clark Leonard Hull.
Estudos mais recentes incorporaram aos estudos de categorização noções de atenção. A idéia básica é de que, para categorizar, precisamos alocar nossa atenção para traços que são relevantes no processo em questão. Obviamente, os traços relevantes para um processo de categorização varia de acordo com o contexto. Por exemplo: se precisamos distinguir entre “cerveja” e “refrigerante”, um traço relevante pode ser o “teor alcóolico” e não o fato de serem líquidos (já que esse traço não os distingue. No entanto, para distinguir entre “cerveja” e “vinho”, o traço “teor alcóolico” passa a não ser relevante e a atenção deve ser alocada para um outro traço.
O problema com essa visão é que, sempre que engajamos em processos de categorização, precisamos “re-aprender” sobre o objeto que categorizamos.
Aaron Hoffman do Departamento de Psicologia da Universidade do Texas e Bob Rehder do Departamento de Psicologia Universidade de Nova York exploraram, em um experimento muito interessante, os fatores atencionais envolvidos no processo de categorização. Mais especificamente, esses pesquisadores tinham interesse de saber (1) como que as pessoas sabem qual traço/informação é relevante para processos de categorização em contextos distintos e (2) e por quanto tempo as pessoas devem alocar a atenção para diferentes traços.
O experimento consistiu de uma série de tarefas de classificação e inferência. Nas tarefas de classificação, os participantes foram treinados acerca de duas categorias (A e B) e depois classificavam outros membros de acordo com os traços relevantes para a distinção entre A e B (no total foram manipulados três traços). Nas tarefas de inferência, os participantes tinham que prever os traços que estavam faltando entre duas categorias. Os pesquisadores utilizaram técnicas de rastreamento ocular (eye-tracking) para monitorar a alocação da atenção dos participantes durante as tarefas de classificação e inferência.
Os resultados são bem interessantes: apesar de os dois grupos (inferência e classificação) terem demonstrado aprendizagem nos blocos de treinamento, a classificação pareceu mais fácil que a inferência, com uma proporção maior de acertos por parte dos participantes. Existe um corpo grande de pesquisas mostrando que, em tarefas de inferência, as pessoas são mais sensíveis a traços internos às categorias (por exemplo, as pessoas seriam mais sensíveis aos traços que definem “cerveja” e não apenas aos traços que distinguem “cerveja” de outras bebidas). Assim, uma vez que os processos inferenciais são mais flexíveis que processos de categorização (já que requerem uma atenção global à TODOS os traços de uma categoria), os pesquisadores esperavam encontrar uma alocação da atenção mais distribuída nas tarefas de inferência (o olhar estaria mais distribuído que nas tarefas de classificação), e com isso, teriam uma representação mais flexível das categorias aprendidas.
Interessantemente, no entanto, os pesquisadores encontraram que, tanto nas tarefas de classificação quanto nas tarefas de inferência, os participantes fixaram o olhar em traços específicos. Segundo Aaron e Bob, o que distingue as tarefas de classificação das tarefas de inferência são as demandas atencionais de cada processo e não fatores motivacionais, como afirmam alguns estudiosos. A partir de algumas outras manipulações, os pesquisadores mostraram que tarefas de classificação podem ser mais flexível de uma maneira geral. Esse resultado, apesar de não corroborrar a hipótese inicial (de que tarefas de inferência são mais flexíveis), mostra que a alocação da atenção durante as tarefas de inferência é mais uma função do que é pedido na tarefa do que uma função do processo em si.
O estudo de processos de categorização que levam em consideração fatores atencionais são de extrema valia. Eu sei que Aaron Hoffman anda desenvolvendo outros estudos interessantes, assim, fiquem ligados aqui no blog! Logo logo vamos falar mais de atenção e categorização.
Ps.: O trabalho que comentei aqui não está publicado ainda. Será apresentado na próxima CogSci Conference em Amsterdam. Agradeço ao Aaron Hoffman que não só gentilmente me passou o trabalho como disse que não teria problema algum que eu o comentasse aqui no blog!
Referência:

Hoffman, A.B., & Rehder, B. (2009). Attentional and Representational Flexibility of Feature Inference Learning Cognitive Science Society

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1 respostas para Flexibilidade Atencional e Representacional em Processos de Inferência

  1. RABELO, Aline disse:

    >Esse texto foi decodificado aqui no meu humilde conhecimento como "as famosas 'gavetinhas' da Thaïs Cristófaro".(Um comentário nada psicolinguistico, eu sei… rs…)

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