$%#$#@%: Falar Palavrão Pode Aliviar Dor Física!

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Há alguns dias, eu estava assistindo ao show “Nóis na fita” de Leandro Hassum e Marcius Melhem e, em uma parte do show, os comediantes falam do papel catártico que palavrões exercem na nossa vida. Apesar de engraçado, temos a sensação de que isso é verdade. Quem nunca deu aquela topada na quina da cama e, ao soltar um palavrão (que parece ser uma resposta automática) parece ter a dor aliviada instantaneamente?
Um grupo de pesquisadores da Escola de Psicologia da Universidade de Keele na Inglaterra (Richard Stephen, John Atkins e Andrew Kingston) resolveram investigar essa hipótese empiricamente. Eles investigaram em que medida falar palavrão afeta não só nossa perpepção da dor, mas também a nossa tolerância à dor.
Os pesquisadores pediram que os participantes (homens e mulheres) colocassem a mão em um balde com água gelada e a mantivesse lá até que não aguentassem mais. O tempo total em que o participante mantinha a mão no balde foi a medida de tolerância à dor. Foram também acessadas a percepção da dor pelo participante (Perceived Pain Scale), batimento cardíaco, ansiedade (Spielberg State-trait Anxiety Index) e o medo de dor (Fear Pain Questionnarire).
Antes de imergir a mão na água gelada, os pesquisadores pediram aos participantes que falassem cinco palavrões que eles falariam se martelassem o próprio dedo e cinco palavras que eles usariam para descrever uma mesa.
Durante o experimento propriamente dito, os participantes na condição “palavrão”, deveriam colocar a mão no balde de água gelada e repetir o primeiro palavrão da lista de cinco palavrões que escolheram. Na condição “controle”, eles deveriam colocar a mão na água gelada e repetir a palavra que escolheram para descrever a mesa.
Os resultados são interessantes: eles mostraram que o tempo de imersão na água gelada na condição “palavrão” foi maior que na condição controle, sugerindo que a tolerância à dor é maior quando se fala palavrão. Houve também um efeito do sexo: homens suportaram mais a dor do que as mulheres. No quesito percepção da dor, os pesquisadores encontraram que tanto homens quanto mulheres mostraram uma redução dessa percepção na condição “palavrão”, mas a diferença foi maior para as mulheres. Os batimentos cardíacos foram maiores para a condição “palavrão”, e muito maiores para as mulheres do que para os homens.
De uma maneira geral, os resultados sugerem que, falar palavrão, além de desencadear uma resposta emocial, desencadeia também uma resposta física. O aumento do batimento cardíaco pode ser indício de agressividade. Existem estudos, por exemplo, que mostram que a agressividade diminui a sensação de dor. Os pesquisadores acreditam que, no passado, esse aumento de agressividade seria importante em situações de risco, pois aumentaria a tolerância à dor, o que facilitaria a luta contra um agressor.
Importante, ou não, o que sabemos é que muitas vezes o palavrão sai de forma tão automática algumas situações de dor, susto, etc., que não é um absurdo sugerir que eles já fazem parte da nossa cognição. De qualquer forma, já temos respaldo científico para justificar o palavrão que sai depois da topada na quina da cama!
Referência:
Stephens, R., Atkins, J., & Kingston, A. (2009). Swearing as a response to pain NeuroReport, 20 (12), 1056-1060 DOI: 10.1097/WNR.0b013e32832e64b1
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