Precisa Tomar uma Decisão Importante? Escolha Bem o Seu Cardápio!

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“Passei uma noite em claro e tenho coisas importantes para decidir. O que fazer?” Muita gente não sabe, mas o nosso estado fisiológico influencia muito as nossas preferências e decisões. Em outras palavras, quando estamos com fome, raiva, sede, sono ou sentindo dor, temos preferências e escolhas diferenciadas (mesmo que as escolhas não tenham nada haver com o que causou a nossa mudança fisiológica). O exemplo mais conhecido desse efeito é o fato de sermos mais impulsivos, por exemplo, quando estamos com fome e ou com raiva. Algumas pesquisas mostram, por exemplo, que pessoas que vão às compras com fome acabam comprando coisas que realmente não precisam, compram produtos de qualidade inferior e acabam se arrependendo das escolhas anteriores. E vale a pena lembrar: não estou falando apenas de sair com fome para comprar comida. A fome aumenta a impulsividade na compra de qualquer coisa, até mesmo roupas.

Mas de onde vem essa influência? O que tem haver a fome (e essas outras alterações físicas tais como sede, dor, raiva, etc.) com o nosso comportamento na hora de decidir alguma coisa? A resposta está na compreensão de como o cérebro funciona. Os componentes básicos do cérebro — os neurônios — se comunicam uns com os outros atráves do que chamamos de neurotransmissores. Os neurotransmissores são moléculas químicas que são enviadas de um neurônio ao outro. A depender do tipo de informação que se quer transmitir, diferentes neurotransmissores são lançados de um neurônio para o outro. Eles são responsáveis não só pela transmissão de informações, mas também são responsáveis pela regulação (controle) de algumas reações do nosso corpo: por exemplo, ansiedade, fome, sono, etc.

A serotonina é um exemplo de um neurotransmissor. Várias pesquisas mostram que a serotonima está diretamente involvida no controle da impulsividade, controle cognitivo e até mesmo agressividade. Altas dosagens de serotonina aumentam a capacidade de controle cognitivo e diminuem a impulsividade. Em contrapartida, baixas doses dessa molécula estão relacionadas com aumento do comportamento impulsivo, ou seja, a inabilidade de controlar algumas decisões e respostas.

A serotonina é sintetizada a partir do amino-ácido conhecido como triptofano. Triptofano pode ser encontrado em vários alimentos, tais como leite, iogurte desnatado e nozes (dica nutricional: pessoas com quadros de ansiedade, insônia e ou princípio de depressão devem ingerir alimentos ricos em triptofano juntamente com alimentos ricos em carboidratos. O carboidrato tem a capacidade de aumentar a concentração relativa de triptofano, e consequentemente, aumenta a produção de serotonina, que por sua vez vai atuar na melhoria do controle cognitivo e tomada de decisões: menos ansiedade).

Bom, dito tudo isso, podemos pensar o seguinte: se precisamos tomar uma decisão e não queremos ser impulsivos, a ingestão de alimentos ricos em triptofano e carboidrato pode nos auxiliar na ponderação de todas as possibilidades na hora de tomar uma decisão. Em outras palavras: será que o consumo de alimentos ricos em triptofano e carboidratos diminui a impulsividade de pessoas consideradas cronicamente impulsivas? Vale ressaltar que impulsividade em si não é um comportamento ruim. O valor do comportamento impulsivo deve ser julgado contextualmente. Ele pode ser ruim, por exemplo, quando você compra alguma coisa que não vai conseguir pagar depois, ou quando você diz ou faz alguma coisa ruim para alguém que ama e depois se arrepende. Mas pode ser algo positivo quando você está desenvolvendo uma tarefa que requer agilidade e rapidez na sua resposta (no trânsito, por exemplo).

Arul Mishra e Himanshu Mishra, dois pesquisadores da Escola de Negócios da Universidade de Utah nos Estados Unidos investigaram essa questão. Eles estavam interessados em saber se a ingestão de triptofano (para a sintetização de serotonina) influencia na inibição (ou não) do comportamento impulsivo. Explicando o experimento de uma maneira bem simples: um grupo de participantes bebeu um líquido com triptofano enquanto um outro grupo bebeu um líquido sem triptofano. Após beber os líquidos, os participantes fizeram duas tarefas: uma que media a capacidade de “segurar” uma resposta (não responder à certos estímulos) e uma que media a capacidade de escolher entre duas opções (uma delas claramente impulsiva).

Os resultados foram interessantes: os participantes que beberam o líquido com triptofano mostraram menos impulsividade (tanto na tarefa de “segurar” uma resposta, quanto na tarefa de decidir entre duas opções). Já os participantes que não beberam o triptofano demonstraram um algo grau de impulsividade nas duas tarefas. Vale lembrar que os grupos não sabiam que estavam ingerindo (ou não) o triptofano. Eles nem sequer sabiam que o objetivo do experimento era esse.

Duas lições devem ser tiradas da leitura dessa postagem:

1) saber que nosso estado físico (fome, raiva, sede sono, etc.) tem impacto direto nas nossas decisões e atitudes. Decidir alguma coisa importante na sua vida depois de uma noite mal dormida pode não ser uma boa idéia. Você pode acabar se arrependendo da sua decisão (e arrependimento causa uma serie de outros problemas).

2) aquilo que você come pode sim influenciar diretamente no seu processo de tomada de decisão e no controle das suas atividades cognitivas. Fique atento, afinal de contas, você é aquilo que você come! 🙂

Referência:
Mishra, Arul, & Mishra, Himanshu (2010). We Are What We Consume: The Influence of Food Consumption on Impulsive Choice Journal of Marketing Research, XLVII, 1129-1137 Other: 1547-7193

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