Erro Fatal: O Computador Precisa Ser Reiniciado

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Eu adoro analogias. Sempre que eu quero explicar alguma coisa a alguém, mesmo que seja um conceito pouco complexo, eu gosto de usar analogias. Hoje pela manhã, eu estava re-lendo algumas páginas do livro Just Listen: Discover the Secret to Getting Through to Absolutely Anyone do psiquiatra Mark Goulston e encontrei uma analogia super interessante sobre casamento/relacionamento e por que muitos deles dão errado.

Para Mark, casamento é como comprar e manter um computador. Quando você compra um computador, ele vem equipado com vários programas pré-instalados, o que facilita muito o primeiro acesso e uso. Raramente, os computadores novos apresentam problemas. Tudo funciona perfeitamente e você tem uma relação de amor e felicidade com sua nova máquina.

No entanto, um belo dia — depois de alguns meses, talvez até anos — a tela congela e você precisa reiniciar a máquina. Você faz isso, uma, duas, até três vezes. Na quarta vez, você já começa a se irritar. Às vezes pede ajuda aos seus amigos, leva à um técnico de informática que reinstala alguns softwares para você. Após alguns dias de nova felicidades, o computador trava novamente. Dessa vez, o técnico diz que você deverá reinstalar o sistema operacional. E diz ainda que não tem como recuperar os arquivos que você não salvou no último back-up. Rapidamente, o amor que você sentiu pelo computador no dia da compra vira frustração, desapontamento e, às vezes, a depender das perdas, se torna ódio.

O mais interessante é que não odiamos apenas o computador em questão. Ficamos amargos e receosos com todo tipo de tecnologia. Alguns chegam até a falar que não querem mais ter um computador, ou qualquer outra coisa que envolva tecnologia — uma tecnologia que remotamente lembre as mazelas e “sofrimentos” que passaram com o computador em questão.

Tenho certeza que já deve ter montando a analogia que Mark Goulston faz sobre relacionamentos. Para ele, todo relacionamento vem pré-equipado com alguns programas básicos e indispensáveis. Os programas são: química (o que faz você se sentir atraído(a) pela outra pessoa. Tem haver com sexo e paixão. Essas coisas carnais mesmo), respeito (quando um se sente orgulhoso de ter o outro como companheiro/a), felicidade (um sabe como colocar um sorriso no rosto do outro), aceitação (cada um aceita a essência do outro. Não há imposição de valores e crenças), confiança (nem precisa de definição….), empatia (saber entender e ser entendido). Para Mark, esses são os programas pré-instalados quando tiramos nosso relacionamento da caixa.

Enquanto sentimos que esses programas estão intactos e em perfeito funcionamento, nos sentimos seguros e motivados com o relacionamento. No entanto, quando algum desses programas “trava” começamos a ver e perceber o relacionamento de uma maneira um pouco diferente. Geralmente, a maioria dos casais deixa cair na rotina, o que antes era especial e notório. Se antes ele abria a porta do carro, agora ele desce e espera que você feche a janela. Se antes ela se preocupava se ele estava cansado, agora ela nem sequer nota que seu semblante mudou. Com isso, o que antes era “não vejo a hora de deitar com ele/a”, vira “hoje estou com dor de cabeça”. Eis o programa “química” com defeito.

Consequentemente, o programa “respeito” também fica com defeito, pois o orgulho de se ter alguém como parceiro/a se foi. Já que o respeito se esvaece frente à falta de química e orgulho, logo começam a não se aceitarem. Já viu quando casais começam a “dar conselhos” um ao outro? “Você é muito assim, deveria mudar”, ou “o seu jeito X poderia ser mais Y” — basicamente dando conselhos quando nenhum dos dois quer escutar conselhos. Nesse momento, os conselhos se tornam acusações que se enchem de ressentimento e sentimentalismo. Eis o programa “aceitação” com defeito. Obviamente, depois disso tudo, fica difícil arrancar um sorriso do rosto do outro. Eis o programa “felicidade” travado.

Com a distância crescendo cada vez mais (você começa a não querer mais usar o seu computador), cresce também a falta de confiança. Você arriscaria salvar um documento importante em um computador que pode dar defeito de uma hora para outra? Eis o programa “confiança” precisando ser reinstalado.

O principal sinal de que o programa “empatia” já não funciona mais é quando casais se pergutam: “o que você quer que eu faça?” Essa pergunta é sinal de que a compreensão da necessidade do outro já não faz parte da vida “nada saudável” do casal. E essa pergunta é uma maneira implícita de acusar o outro.

Basicamente, Mark diz que a maioria dos casais separam pois são incapazes de reinstalar os programas na hora certa. Eles convivem muito tempo com as travas e “telas congeladas” a ponto de se sentir uma frustração enorme com o computador. A frustração desmotiva a reinstalação desses programas e até mesmo a instalação de outros programas que supostamente melhorariam a performance do computador.

O mais interessante é que no final das contas, a frustração e desapontamento com o computador não é vista como a consequência de uma série de pequenos “defeitos” que foram se acumulando com o tempo. A frustração passa a ser vista como objeto independente e difculta qualquer tentativa de reparo. Um aspecto que Mark não menciona no livro (não com relação à essa analogia) é que a “má utilização dos programas” é o que muitas vezes causa os defeitos. Poucos casais têm ciência do que realmente incomôda o outro e onde estão suas fraquezas.

É óbvio que a analogia não é perfeita (aliás, nenhuma analogia é perfeita… por isso o nome analogia). Mas certamente, é útil para os casais que estão constantemente procurando entender o por quê do insucesso na vida a dois, repensem em como estão “utilizando” os programas. Relacionamento envolve seres humanos com sentimentos, e esses sentimentos são complexos e variados. Antes de desligar a tomada do relacionamento, procure entender os defeitos “do programa” (e não do parceiro) e reinstale-o o mais rápido possível, antes que o sistema operacional não aguente mais e precise ser completamente reinstalado — o que para casais, eu acho impossível (Mark pensa diferente de mim. Vale a pena ler o livro).

Referência:
Goulston, Mark (2010). Just Listen: Discover the Secret to Getting Through to Absolutely Anyone American Management Association

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1 respostas para Erro Fatal: O Computador Precisa Ser Reiniciado

  1. RABELO, Aline disse:

    >Ameeeei!!! Falou tudo agora!!!

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