Pensamento Analógico e Nossas Atitudes

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Citei na minha última postagem que eu gosto muito de analogias. Elas relevam aspectos interessantes e importantes da nossa cognição. Analogias têm uma influência grande no nosso pensamento e consequentemente, nas nossas ações. É por isso que, já a algum tempo, a Psicologia Cognitiva tem tido um interesse cada vez maior na investigação das principais características do pensamento analógico.

O pensamento analógico envolve a representação mental que fazemos das relações existentes entre objetos e/ou pessoas. Essas representações são cruciais na vida do ser humano. É basicamente o que nos diferencia (em termos cognitivos) das outras espécies de animais. Pare e pense: a nossa capacidade de resolver um problema que nunca vimos antes está intimamente ligada à nossa capacidade de pensar de maneira relacional, ou seja, na nossa capacidade de pensar analogiacamente. Utilizamos o conhecimento que temos sobre uma área específica do conhecimento (a física, por exemplo) para entender melhor uma outra área que temos pouco conhecimento (química, por exemplo). Mas, é necessário que essas representações sejam abstratas. Quanto mais abstrata a representação de uma relação, maior a nossa capacidade de aplicar essa abstração em outros domínios.

Vamos lembrar o exemplo clássico de analogia: o Sistema Solar e o átomo. Essa analogia existe porque sabemos que em ambos existe uma estrutura central (núcleo no caso do átomo e o Sol no caso do Sistema Solar) e estruturas menores que giram em torno dessa estrutura central (elétrons e planetas). Para entender a analogia, precisamos entender a “relação” entre núcleo e elétrons por um lado e Sol e planetas por outro lado. É óbvio, no entanto, que sabemos que o Sol e o núcleo de um átomo são estruturas diferentes. Quando fazemos a analogia, não queremos que alguém pense que exista vida nas partículas que giram em torno do núcleo, assim como existe vida em alguns dos planetas que giram em torno do Sol. Não se apegar a esses detalhes é o que chamamos de abstração.

Quando pensamos analogicamente, podemos focalizar tanto nos objetos que compõem a cena ou situação que analisamos quanto nas relações entre esses objetos. Por exemplo: imagine que eu te mostre duas fotos. Uma das fotos mostra um robô consertando um carro. Na outra foto, há um robô parecido com o da foto 1 (não o mesmo) sendo consertado por um homem. Se eu pedir a você que me aponte a analogia entre as duas fotos (o que existe de semelhante nelas), você tem duas opções: se você focalizar nos objetos/personagens das fotos, você vai me falar que o robô da foto 1 é análogo ao robô da foto 2. Já se você focalizar na relação entre os personagens das fotos (carro e robô na foto 1 e homem-robô na foto 2), você vai dizer que a analogia está no robô da foto 1 e no homem da foto 2, pois ambos estão consertando alguma coisa. Isso é o que os pesquisadores chamam de alinhamento estrutural.

O que grande parte das pesquisas mostram é que algumas pessoas têm uma dificuldade muito grande de abstrair o suficiente para enxergar a semelhança relacional entre duas cenas. Em outras palavras, as pessoas se apegam tanto à concretude dos objetos envolvidos (que podem ser extremamente distintos entre duas situações) que não conseguem ver que as relações entre esses objetos são bem semelhantes.

Um estudo bacana publicado recentemente pelos pesquisadores Jonathan Rein e Arthur Markman na Universidade do Texas nos Estados Unidos explorou a noção de que o nível de abstração com a qual representamos as relações entre objetos influencia a nossa capacidade de transferir essa relação para outras situações. Jon e Art mostraram para os participantes do estudo alguns padrões relacionais (círculos e triângulos nas mais diversas configurações — em linhas verticais ou horizontais, por exemplo) e depois pediram a eles que identificassem outros padrões semelhantes. Assim como esperavam, as pessoas mostraram uma tendência forte para representar as relações e objetos de maneira muito concreta, o que dificultou a identificação de relações semelhantes em outros domínios.

O que essa pesquisa sugere em termos práticos? Eu sempre fico super intrigado pelo fato de que algumas pessoas parecem agir de forma completamente diferente em situações que, ao meu ver, são estruturalmente semelhantes. Em outras palavras, é como se alguém soubesse que 2 laranjas + 3 é igual a 5 laranjas, mas não soubesse dizer quanto é 2 bananas + 3 bananas.

Pense na seguinte situação: você está andando pelas ruas da sua cidade quando vê uma criança sendo explorada por um adulto. Na cena, você tem dois personagens (adulto e criança) cada um exercendo uma “função” nessa relação: o adulto — um ser hierarquicamente mais importante que a criança — exercendo seu poder ‘chefe’, e a criança — um ser hierarquicamente menos importante — sendo coibida pelo adulto, portanto explorada (sem muito poder de escolha). Qualquer pessoa que avalia uma cena como essa irá dizer que é (1) a situação é um absurdo, (2) que criança não pode ser tratada assim, etc. etc. No entanto, a representação da cena parece não ser abstrata o suficiente para possibilitar aplicar “esse modelo de relação” — exploração de um ser hierarquicamente superior a outro — em outras situações semelhantes.

Aqui em Belo Horizonte, uma pequena ’empresa’ (atuante no ramo de fabricação de placas de automóveis) tem a seguinte prática: muitos de seus funcionários não têm a carteira assinada. O horário e a carga de trabalho são definidos sem qualquer respaldo na CLT. As ausências — mesmos aquelas com justificativas médicas — são integralmente descontadas do salário dos funcionários, assim como o valor integral do transporte do funcionário. E no caso de algum funcionário não concondar com essa prática (como aconteceu ontem), esse funcionário é prontamente “demitido” sem qualquer tipo de ressarcimento trabalhista.

Em termos relacionais, a história da criança é muito semelhante à história da empresa: dois personagens, onde um, hierarquicamente mais baixo que o outro, é explorado. Interessante, no entanto, é que o impacto da história 1 parece ser bem maior e mais proeminente comparado ao impacto da história 2. Conversando com alguns funcionários e pessoas que conhecem a empresa, eu notei que muitos deles são condescendentes com a atitude da chefia da empresa: quando um funcionário é demitido, por exemplo, outros se juntam para ajudar na função do funcionário demitido, minimizando assim o trabalho que teria a diretora para contratar um outro funcionário. Nenhum deles, eu presumo, auxiliaria o adulto da primeira história na sua exploração e nem sequer procurariam entender se há, por parte do adulto, alguma justificativa plausível para a atitude dele.

Obviamente, vários fatores parecem influenciar a atitude dos funcionários e da diretoria da empresa. No entanto, uma forma plausível de interpretar a situação e a atitude das pessoas envolvidas é em termos da dificuldade que as pessoas têm de representar relações de maneira abstrata. Essa dificuldade, por sua vez, gera a dificuldade de pensar em outras situações de maneira semelhante. Podemos não perceber, mas a capacidade de formar alinhamentos estruturais — analogias — acaba tendo um impacto grande nas nossas atitudes e ações diante das coisas que vivemos no nosso dia-a-dia.

Referência:
Rein JR, & Markman AB (2010). Assessing the concreteness of relational representation. Journal of experimental psychology. Learning, memory, and cognition, 36 (6), 1452-65 PMID: 20919782

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1 respostas para Pensamento Analógico e Nossas Atitudes

  1. Renato Costa disse:

    >Depois da linguagem, a analogia é a capacidade humana mais poderosa! Seguindo a linha dos exemplos, também podemos fazer a analogia racismo e especismo. Ter ato contra um ser humano por causa da cor de sua pele é um absurdo hoje, mas um ato contra um ser vivo por causa de sua espécie é normal. Escravisamos os animais como faziamos com os negros.

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