Supercalifragilisticexpialidocious ou Dociousaliexpisticfragicalirepus?

Vou começar com uma confissão: o clássico da Disney “Mary Poppins” é sim um dos meus filmes favoritos. Fazer o que? Existe um fato curioso da minha relação com o filme: lembro de passar horas e  horas e horas tentando aprender a falar a palavra supercalifragilisticexpialidoucious (para quem quiser tentar, clique aqui). Sem saber, eu fazia o que fazem os experimentos clássicos de memória. Assistia à cena várias vezes, desligava a TV e tentava repetir a palavra. Por meses, sem sucesso!

Palavras longas são mesmo difíceis de serem lembradas. Lembro que antes de estudar alemão, eu tinha a impressão de que seria preciso uma memória extraordinária para lembrar todas aquelas palavras gigantes (erfrischungsgetränk ainda é a minha favorita). No entanto, quem fala alemão fluentemente (obviamente incluindo os falantes nativos), sabe que não é necessário nenhum esforço sobre-humano para se comunicar em alemão.

Em Psicologia Cognitiva, um dos tópicos mais estudados é a memória humana. Acho que todo mundo, pelo menos uma vez na vida, já ouviu falar nos termos memória de trabalho (ou memória de curto-prazo) e memória de longo-prazo. Sendo bem sucinto, quando se trata de informação verbal, a memória de curto-prazo utiliza um mecanismo (cunhado por Alan Baddeley e Graham Hitch em 1974) conhecido como “volta fonológica” (phonological loop) — segundo Marcus Vinícius Alves (ver comentário abaixo), o termo em Português é “alça fonológica”. Basicamente ele diz que a capacidade limitada da memória de curto prazo está relacionada com a capacidade de reter traços fonológicos. É por esse motivo que lembrar palavras longas é muito mais difícil do que lembrar palavras mais curtas: simplesmente palavras longas têm mais sons e consequentemente envolve mais informação para ser lembrada.

No entanto, algumas pesquisas têm sugerido que a representação fonológica envolvida na “alça fonológica” não está totalmente dissociada das representações semânticas (de significado) guardadas na memória de longo-prazo. Em outras palavras, se sabemos o significado da palavra, não importa o tamanho da palavra: vamos lembrá-la de qualquer maneira. É por isso que para mim — um falante nativo da língua portuguesa — é mais fácil aprender a palavra “otorrinolaringologista” do que aprender a palavra “erfrischungsgetränk“. E aprender “erfrischunsgetränk” é muito mais fácil do que aprender “supercalifragilisticexpialidocious“.

Um estudo recente (e muito bacana) desenvolvido por Liz Jefferies, Clive Frankish e Katie Nobel (todos na Inglaterra) mostrou mais evidência em favor disso. Na verdade eles mostraram que, a depender de como você apresenta uma lista de palavras (misturada com pseudo-palavras – tipo NOGUM) ou associadas semanticamente (tipo: MESA e CADEIRA), palavras longas são lembradas mais facilmente que palavras pequenas. Em outras palavras: no estudo deles, as palavras longas eram lembradas muito mais facilmente do que as pseudo-palavras curtas, mostrando que saber o significado da palavra tem sim um papel super importante em como os traços fonológicos são representados na memória de curto-prazo.

Com isso em mente, minha meta agora é aprender a palavra supercalifragilisticexpialidocious ao contrário. Talvez basta eu associar um significado à ela???

Referência:

Jefferies, E., Frankish, C., & Noble, K. (2011). Strong and long: Effects of word length on phonological binding in verbal short-term memory The Quarterly Journal of Experimental Psychology, 64 (2), 241-260 DOI: 10.1080/17470218.2010.495159

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4 respostas para Supercalifragilisticexpialidocious ou Dociousaliexpisticfragicalirepus?

  1. none disse:

    >Otorrinolarigologista é mais fácil de se lembrar se a gente quebrá-la em seus elementos de composição – a maioria das palavras longas são formadas por composição. E tem tb a motivação: crianças aprendem rapidamente os longos nomes dos dinossauros, coisa que adultos consideram trava-línguas.[]s,Roberto Takata

  2. André L. Souza disse:

    >yep. You're right! 🙂

  3. Marcus Vinicius Alves disse:

    >Parabéns pelo post, admito que entrei pela curiosidade em relação ao título, boa sacada.Só uma coisa, apesar de ser comum encontrarmos o termo 'memória de trabalho' se referindo a 'working memory', os trabalhos em português costumam a traduzir como 'memória operacional' e a 'phonological loop' como 'alça fonológica'.Até.

  4. André L. Souza disse:

    >Oi Marcus,Valeu pela correção. Quanto à "working memory" eu já vi alguns trabalhos utilizando o termo "memória de trabalho". Mas quanto ao termo "phonological loop", eu realmente nunca li nada em Português, por isso a minha tradução tabajara!!! hahahah :-)Valeu mesmo!!!!

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