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Atenção!

O texto a seguir é gentilmente dedicado aos leitores, não apenas àqueles que leem este blog, mas a todos  os que fizeram da leitura mais que um hábito e acabaram viciados. Nos momentos de fissura ou tédio (ou em nossos tronos particulares), nós procuramos alívio, informação  e diversão em dicionários e enciclopédias; livros, jornais e revistas; HQs e animes; rótulos de alimentos, cosméticos e shampoos; bulas de remédio e manuais de instrução; sites e blogs ou qualquer outra coisa que contenha letras que formam sílabas, as quais formam palavras, que juntas se tornam parágrafos, que, em sequência, viram texto e por aí vai. Talvez o texto que começa logo a seguir seja divertido ou maçante, ofensivo ou elogioso, nonsense ou genial. Tudo dependerá do leitor que vai ler. Obrigado a todos e boa leitura!

Cara(o) Leitor(a),

O texto que estou começando a escrever, que, aliás, já comecei a escrever; este texto vai apresentar digressões, como o próprio título já indica. Agora o leitor já deve estar impaciente pelo meu suspense ou talvez sinta que sua inteligência foi ferida pela obviedade do primeiro período. Acalmem-se, leitores. Acomodem-se, por favor. Sintam-se à vontade, pois o texto já começou a progredir, ou melhor, digredir (pelo menos é o que me parece). A leitura de textos digressivos não é tarefa fácil e exige tanto do leitor que deveria ser considerada um esporte radical, tamanhos são os saltos e as mudanças bruscas de assunto. Leitores sedentários, não se desanimem, pois não exigirei uma leitura dinâmica. Mas o leitor que tiver medo de entrar nessa montanha-russa textual pode se retirar. Os cardíacos e psicóticos também, pois não quero ser responsabilizado por eventuais danos físicos ou psicológicos que este texto pode causar aos mais frágeis ou a terceiros. Embora seja contra o uso de drogas, estendo meu convite aos leitores bêbados, noiados ou que estejam numa trip alucinógena. Faço isso não apenas em consideração a esses leitores marginalizados, mas acho que talvez apenas eles venham a entender esse texto. Ou talvez nem eles, sei lá. Afinal, não posso fazer ideia de quem é ou de quem são os meus leitores. Pode até mesmo haver leitores com múltiplas personalidades e aí a coisa fica mais imprevisível ainda. Os leitores mais conservadores ou pudicos (eu acho que deveríamos dizer “púdicos” em vez de “pudícos”; a pronúncia correta é muito ridícula) ou aqueles que temem encontrar leitores estranhos ou potencialmente perigosos neste texto podem interromper a leitura agora. Antes disso, porém, eu gostaria de recomendar a este grupo de leitores que se dirijam rapidamente – corram, se quiserem ser mais ágeis – à caixa de comentários lá embaixo para me detratar e me criticar antes mesmo de conhecer minha obra. Eu os desprezarei por isso. E, por favor, sejam maduros. Nada de “first!” ou “primeiro!” nos comentários. Os leitores mais atentos já devem ter notado que me alonguei demais nesse parágrafo e alguns certamente estão sem fôlego a esta altura. Desculpem-me, não consegui conter minha empolgação.

Respirem agora, se ainda estão aí. Como podem ver, esta verborragia toda do parágrafo anterior é uma característica dos textos digressivos. Opa, acho que fui muito didático no período anterior. Afinal, isso aqui não é uma aula de gramática ou redação. Eis por que os leitores mais cultos já vêm me acusar de falta de criatividade, dizendo que eu começo um texto à moda de Clarice Lispector para criar, em seguida, um diálogo com o leitor típico de Machado de Assis. Entendam, porém, que este texto não tem tamanha pretensão literária. Afinal, ele nasceu num sobressalto que tirou o Autor da cama durante uma noite vaga e incerta de inverno e está publicado no blog obscuro do desconhecido Autor. Não, senhoras e senhores, meninas e meninos, gurias e guris, moças e rapazes, minas e manos, não, eu não quero a fama instantânea e artificial de um Dan Brown, de uma J.K. Rowling, de uma Stephenie Meyer ou de um Paulo Coelho. Talvez meu discurso tenha sido um tanto político, o que deve ter afastado alguns leitores. Outros já devem estar cansados novamente com outro parágrafo longo. Senhores leitores, tenham a gentileza de me acompanhar no próximo parágrafo.

Pronto, aqui estamos nós em um novo parágrafo. Foi só pular uma linha. Mas o problema de vocês, leitores, é que se cansam muito rápido e me obrigam a cortar meu raciocínio só para criar outro parágrafo. Talvez vocês já estejam muito (mal-)acostumados com aqueles míseros 140 caracteres do Twitter ou com as poucas palavras de uma mensagem de texto de telefone celular. Enganam-se, porém, se acham que esse negócio de escrever com poucas palavras é mais uma moda moderna (juro que a aliteração foi acidental). É que vocês nunca receberam um telegrama e jamais tentaram mandar um. Ah, é, vocês sequer sabem o que é um telégrafo, não é mesmo? Se quiserem saber o que são essas coisas antigas e desconhecidas, podem ir pesquisar no Google ou na Wikipédia. Eu só não vou usar links neste texto por que não quero perder leitores num clique. Abram uma nova aba e pesquisem, mas voltem para cá, por favor. Ainda tenho mais a dizer escrever.

Notaram como, apesar de parecer um pouco rabugento, eu fiquei menos formal no último parágrafo, trocando “senhores leitores” por um simples “vocês”? Eu achei que os leitores que o alcançaram e tiveram paciência de terminar de lê-lo já me eram íntimos só por dedicarem tamanha atenção e interesse ao meu texto, ocupando um bom tempo de suas vidas lendo isto. Talvez apenas os jovens mais audazes, os leitores mais curiosos e insaciáveis tenham se atrevido a chegar até aqui. Eu os agradeço profundamente e os parabenizo. Sei que certamente querem continuar, e, assim, vou ser gentil e descer mais um parágrafo só pra vocês.

Já devem ter percebido que eu falei muito de leitores até agora. É melhor me voltar um pouco para o texto, antes que ele fique repetitivo demais. Mas eis que, num sobressalto, surge um leitor japonês só para me lembrar que aquele negócio de escrever com poucas palavras é anterior ao próprio telégrafo. E ele tem razão mesmo, pois muito antes do telégrafo os japoneses já faziam poesias curtíssimas chamadas hai-kais. Os leitores-pesquisadores que foram atrás do telégrafo no Google e acabam de voltar poderiam – se quiserem, é claro – fazer outra pesquisa agora mesmo sobre os hai-kais e a cultura japonesa. Leitura é para isso mesmo, para ampliar nossos conhecimentos e nossa bagagem cultural. Agora eu acho que posso tentar começar a falar do texto, mas acho melhor fazer isso em outro parágrafo. Como vocês viram, este foi subitamente invadido por um ninja que acabou sequestrando todo o parágrafo, apesar de todos os meus esforços para ser mais sucinto.

Pois bem, agora vamos, finalmente, falar, ou, de certo modo, ler sobre este texto. Meu deus, que feio! Quantas pausas e vírgulas num só período. Foi sem querer. Mas como eu já disse, esse texto não tem qualquer pretensão literária a não ser demonstrar – de forma tanto prática quanto lúdica – o estilo digressivo de escrever. Os seguidores do modernismo vão dizer que este texto não passa de um fluxo de pensamentos. Para os psicanalistas, é uma livre associação de ideias. Mas há um co
nsenso entre os bibliófilos, os filólogos, os gramáticos, os professores de letras, os de redação e os de literatura: todos eles dizem que este é apenas um texto metalinguístico. Os alunos e leitores com inclinação para a área de humanidades concordam. Os que gostam de exatas já pararam de ler há muito tempo para continuar com seus cálculos. Os que apresentam uma forte queda para as ciências biológicas já devem ter saído e foram organizar um protesto para salvar as baleias. O cara fodão fortão que senta lá no fundão já deve ter dormido antes mesmo do fim do primeiro parágrafo. Após levar todas essas “pauladas” dos mais diversos leitores – embora algumas tenham sido pertinentes – eu me limito a citar aquele velho e conhecido ditado: “Em todos esses anos nesta indústria vital, essa é a primeira vez que se aproveitam da minha nobreza”. Talvez essa resposta tenha sido cômica ou até mesmo cínica. Não era a minha intenção. Sério. Desculpem-me novamente.

Já devem ter reparado que pedi desculpas reiteradamente. Acontece que este texto ainda não me parece suficientemente bom e, para mim, não passa de uma tentativa amadora de digredir um pouco. Caro leitor, me entenda: eu sou um pobre Autor que aspira os aromas ásperos dos jornais velhos e os doces odores das revistas com folhas amareladas pelo tempo… Acho que agora eu me desviei completamente de meu rumo e quase comecei uma prosa poética com aquela breve sinestesia do período anterior. Nossa, eu não consigo mais parar de digredir! Será um novo vício? Ah, é que eu tropecei e caí na polissemia do verbo “aspirar” e acabei digredindo de novo quando já começava a encerrar este texto. O que eu queria dizer é que eu sou um pobre Autor que aspira a ser cronista. O Capitão Nascimento já perdeu a paciência pois acha que eu sou um “aspira de merda” e já me pediu pra sair. Vou tentar ser o mais breve possível, Capitão. Juro. Aliás, acho até que já me alonguei demais para uma crônica. Será que isso já não é um conto, caro leitor? Mas já não há nenhum outro personagem. Somos só nós dois nos comunicando silenciosamente. Não há nada de especial ou fantástico nisso. Por isso mesmo – e também por que a madrugada avança e me cansa – eu vou acabar este texto por aqui mesmo. Ponto Final. Ou melhor:.


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