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Cansados da exploração humana, os animais da Granja Solar, na Inglaterra, resolvem se rebelar. Mas a revolução dos bichos, como todas as grandes revoluções históricas, não é um movimento libertário. Os bichos explorados, tal como os humanos explorados, são usados como massa de manobra por um grupo ambicioso e com sede de poder.

No caso da Granja Solar, esse grupo é formado pelos porcos. E uma vez no poder, os porcos deixam de ser revolucionários, e “endireitam-se”:  fazem de tudo para calar opositores e vivem fazendo um constante revisionismo histórico para justificar os privilégios que se acumulam – mas apenas para a nova classe dirigente. Ao fim e ao cabo, fica quase impossível distinguir os ex-revolucionários dos humanos, os  velhos donos do poder. Este é o pano de fundo d’A Revolução dos Bichos (Animal Farm no original em inglês; eis um dos poucos casos em que o título traduzido é melhor que o original), obra-prima do escritor indo-britânico Eric Arthur Blair (1903-1950), mundialmente conhecido sob o pseudônimo George Orwell.

GeoreOrwell George Orwell é pseudônimo de Eric Arthur Blair (1903-1950)

Orwell nunca escondeu o fato de que a revolução retratada na obra era uma sátira à Revolução Russa (1917-1921) e ao regime soviético que se seguiu, especialmente ao período stalinista (1924-1953). A Revolução dos Bichos foi escrita entre 1937 e 1943 – muito antes de se falar em ecologia ou direito dos animais, como muitos pensam sobre este livro.

Foi, portanto, durante um período bastante conturbado numa Europa cercada por duas grandes guerras sangrentas e motivadas por razões ideológicas: a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

OS DOIS LADOS DA HISTÓRIA

O escritor indo-britânico participou dos dois conflitos, mas de formas distintas – diametralmente opostas, para falar a verdade. Durante o conflito espanhol, ele lutou como voluntário ao lado dos trotskistas e foi perseguido com apoio dos grupos esquerdistas espanhóis orientados pelos soviéticos. Quase acabou preso e assassinado. Evidentemente, ele perdeu a ilusão soviética.

Na mesma época (1936-1937), Josef Stálin promovia os grandes expurgos na URSS e seus principais opositores, liderados por Leon Trotsky, fundador do poderoso Exército Vermelho, foram duramente perseguidos, torturados, exilados e executados. Tudo em nome da segurança da revolução.

Apesar de tudo –  e por causa da Grande Depressão que se abateu sobre o mundo capitalista ocidental a partir de 1929 –, a imagem externa da União Soviética era a melhor possível. Evidentemente pouco se falava – se é que se podia falar – sobre a tirania autocrática reinante em Moscou.

Stálin era, de fato, um czar vermelho e agia à moda dos últimos imperadores da dinastia Romanov que ele mesmo ajudara a derrubar em 1917. A manutenção da segurança da revolução era, enfim, a manutenção do novo status quo da burocracia soviética que substituíra a aristocracia russa.

Já na Segunda Guerra Mundial, George Orwell vive o conflito do ponto de vista de um cidadão britânico comum, numa Inglaterra que, ameaçada pelos ataques aéreos e as bombas-voadoras da Alemanha Nazista, forma uma aliança política e ideologicamente inusitada com a União Soviética de Stálin.

Orwell nota, então, um fenômeno contraditório: embora a liberdade de imprensa tenha sido mantida pelo governo de Londres durante todo o conflito, era praticamente impossível lançar na imprensa críticas à realidade economicamente miserável da URSS e do governo ditatorial de Stálin.

Churchill e o governo inglês, porém, poderiam ser aberta e até duramente criticados, mesmo que isso colocasse em risco a segurança nacional do Reino Unido. E o motivo para tal é muito simples: o medo de perder um aliado de peso como a União Soviética era forte demais.

Tão forte que  fica muito fácil ver que a Inglaterra, outrora toda-poderosa senhora do mundo, curvava-se diante do poder militar do país dos sovietes. Mesmo sendo esquerdista, isso era inaceitável para Orwell, que, afinal, apoiara o imperialismo inglês durante a juventude trabalhando para o exército na distante Birmânia.

UMA FÁBULA ATUAL

Diante de tudo isso, e após conhecer a realidade por trás da cortina de ferro através dos relatos da oposição trotskista, Orwell se sentiu impelido a contar a verdadeira história da Revolução Russa através de uma fábula de simples entendimento e fácil de traduzir para várias línguas. Começava a nascer A Revolução dos Bichos.

Como toda fábula, nela os animais, dotados de fala e inteligência, representam personagens humanos. No caso d’A Revolução dos Bichos, isso é claramente visível para o leitor dotado de conhecimentos históricos. A ideologia do Animalismo é o equivalente animal do Socialismo e é lançada muito antes da Revolução pelo velho e moribundo porco Major, representante de Karl Marx.

A revolução que derruba o Sr. Jones, czar dono da Granja Solar, é liderada por outros dois porcos, Bola-de-Neve (um Trotsky de quatro patas) e Napoleão (um Stálin suíno e não aquele porquinho simpático dos filmes da sessão da tarde). O simplório, porém forte, cavalo Sansão e sua companheira Quitéria atuam como os camponeses russos e são sempre facilmente ludibriado pelos porcos, como Garganta (um líder socialista animalista puxa-saco de Stálin, ops, Napoleão). Sansão é muito trabalhador – seu lema: “Trabalharei ainda mais” – e é admirado por toda a Granja dos Bichos (a Granja Solar muda de nome, tal qual o Império Russo, que  passa a ser chamado de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

napoleãoporcoCartaz do Camarada Líder Napoleão 

O lema fundamental da Granja dos Bichos é “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”, repetido incessantemente e em todas as
situações pelas ovelhas doutrinadas (operariado propagandista). As aves tem um papel à parte nesta fábula. Moisés, o corvo domesticado do Sr. Jones, é uma espécie de líder religioso, que vive pregando um mundo melhor e uma vida após a morte na mágica Montanha de Açúcar-Cande (paraíso judaico-cristão). Ele foge após a revolução.

bichosPombo doutrinado 

Os pombos também são doutrinados pelos porcos e atuam como agentes e diplomatas do animalismo nas granjas vizinhas. Apesar de todos os esforços, eles jamais conseguem replicar a revolução dos bichos e subverter a ordem das outras fazendas.

As galinhas vivem descontentes após a revolução e são os primeiros animais a se rebelar e a esboçar uma oposição. Como recompensa, são executadas ou condenadas aos trabalhos forçados (qualquer semelhança com os prisioneiros dos gulags siberianos não é mera coincidência). O Exército Vermelho e a temida KGB são magistralmente representados por um bando de cachorros ferozes, criado em segredo pelos porcos (sovietes). O resto é história…

UM LIVRO CENSURADO ATÉ NO “MUNDO LIVRE”

Dado o seu tom de crítica aberta e franca à União Soviética, então aliada da Inglaterra e dos Estados Unidos na Segunda Guerra, A Revolução dos Bichos foi recusada por quatro editores, tanto americanos quanto britânicos, entre 1943 e 1945. As justificativas eram as mais estapafúrdias.

Um editor americano chegou a afirmar que não haveria mercado nos EUA para uma história estrelada por animais – isso em plena terra de Mickey Mouse e sua turma. Outro editor, inglês, considerou a obra “inoportuna” e achou que retratar as classes dirigentes como porcos seria potencialmente ofensivo aos então aliados soviéticos.

Mal a Guerra – e a aliança – acabou, A Revolução dos Bichos foi prontamente publicada em 1945 e tornou-se um verdadeiro instrumento ideológico nas mãos do mesmo “mundo livre” que se recusara a publicá-lo apenas alguns anos – ou mesmo meses – antes. Os ingleses financiaram a edição de várias traduções clandestinas para a Europa Oriental – obviamente o livro foi proscrito por Moscou e jamais pôde ir além da Cortina de Ferro. Em 1947, o próprio Orwell foi convidado a escrever um prefácio especial para a edição ucraniana.

Até hoje,  A Revolução dos Bichos continua proibido em todos os países que passaram por processos revolucionários, sejam eles de esquerda ou de direita: a China, a Coréia do Norte e Cuba comunistas; o Irã dos aiatolás e boa parte do mundo árabe conservador; o miserável Zimbábue, feudo africano de Robert Mugabe (a maior inflação do mundo) .

Pois o que se aprende com o livro é que todas as revoluções se degeneram – muitas vezes rapidamente – num processo contra-revolucionário que não admite qualquer oposição e acaba por criar e justificar novos privilégios para os novos líderes. As revoluções, portanto, não existem; são uma ilusão criada pelos ditos revolucionários. Eis por que eles, os “revolucionários” desprezam tanto a imprensa livre e a democracia –  e, assim, as revoluções nunca serão televisionadas. Afinal, como se afirma no livro,

“todos os bichos são iguais [têm os mesmos direitos], mas alguns bichos [os que detém o poder] são mais iguais [têm mais direitos] que os outros”.

revolucao

BIBLIOGRAFIA:

ORWELL, George. A Revolução dos Bichos: um conto de fadas. Tradução de Heitor Aquino Ferreira; posfácio de Christopher Hitchens. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 147 páginas.

(edição eletrônica)

SUGESTÃO DE TRILHA SONORA:

Incubus – “Talk Shows on Mute”


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