>O Paredão do ‘The Times’ funciona

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Capa do Times On-Line: jeitão de jornal impresso com links. Vamos clicar para ver se funciona…
No começo deste mês o Times, jornal mais importante de Londres, decidiu que a internet já estava bastante grandinha e que já era hora de começar a cobrar por conteúdos on-line. Para isso, o principal diário londrino decidiu levantar um verdadeiro paredão virtual — o Times+. Poucas semanas se passaram e os resultados já apareceram. O paredão funcionou, mas teve efeito contrário ao que qualquer empresa esperaria.
Durante os primeiros dias, o Times+ foi oferecido em um sistema de free trial (experimente grátis) com 30 dias de duração. Para isso, bastava criar uma conta no Times+. Agora, quando a amostra grátis está acabando, apenas 1,2% dos assinantes on-line continua disposto a pagar para ler notícias na web. Ou, se você preferir, 98,8% dos web-leitores desistiram ou recusaram esse duvidoso privilégio — por que afinal se deram conta de que já pagam pelo acesso à internet ou que a versão on-line não tem muito mais a oferecer. Em muitos casos, tem até menos.

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…Click! — é preciso pagar para fazer os links da capa funcionarem.
E se o acesso à rede não é pago diretamente ao Times (ou a qualquer outro jornal) e sim a outra empresa de telecomunicação, isso não é problema dos leitores. Se Robert Murdoch, dono do News Corporation que publica o Times, quer ganhar dinheiro com internet, ele deveria comprar um provedor ou uma empresa de telefonia, não o Wall Street Journal, o New York Post, o Times e mais 35 jornais a sua escolha. Muito menos cobrar por conteúdo na web. Mas ele parece ser velho (e teimoso) demais para entender isso.
A impressionante eficiência da barreira erguida pelo diário londrino foi apontada por Dan Sabbagh no Beehivecity. Sabbagh sabe com quem está lidando: ele já foi correspondente de mídia do Times. Segundo os números do jornalista, 150.000 pessoas entraram no Times+ no começo do mês. Desse total, agora, 10% concorda com a ideia de pagar por conteúdo após o free trial. Mas como entre os 15.000 que sobraram há incríveis 12.500 assinantes por iPad (gente com alto poder aquisitivo, mas nem sempre disposta a pagar), só 1,2% do público (daqueles 150.000) realmente pagou a conta que chegou.
O pessoal do Times, porém, não parece preocupado com esse EPIC FAIL. Nem mesmo com a repercussão negativa da imagem do jornal no mundo virtual. Para eles — ou pelo menos para James Harding, o editor e pai da ideia —, a estratégia é essa mesma: agregar apenas os leitores mais fiéis — mesmo que isso signifique espantar mais de 90% do público “comum” (e que poderia conter futuros assinantes).
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Rupert Murdoch: ele não gosta de links (nem
do Google), então cobra pelos cliques nos sites
dos jornais dele
O paidcontent projetou uma queda absurda para o site do Sunday Times (a versão dominical do Times): de 1,22 milhões de usuários únicos em fevereiro para pouco mais de 61.000 no mês pós-paredão. Num editorial publicado em março, Harding dizia pensar que “vamos perder um monte de  usuários únicos, mas vamos crescer no número de leitores regulares e, mais importante, colaboradores do Times. E eu acho que vamos atrair um novo tipo de leitor para o Times.” Que novo tipo de leitor pode ser atraído por um jornal on-line que não permite indexação dos mecanismos de busca (leia-se: pediu pra sair do Google) e que cobra no mínimo 1 libra  (2,70 reais) por dia ou £2 por semana?
O editor do Sunday Times, John Witherow, atacou a “crença de que você pode cobrar por jornal impresso, cobrar por apps, mas [deve] colocar todo o conteúdo digital, inclusive os extras, de graça”. Ele considera o modelo atual inviável e diz que o jornalismo precisa de algo financeiramente viável por ser uma coisa “muito cara”.
Mas espere. Qual jornalismo é mais útil à sociedade? O que oferece um conteúdo melhor, porém cada vez mais restrito e de nicho ou algo que realmente informa e abre espaço para o debate democraticamente? Será impossível combinar bom jornalismo e internet? É claro que não. Na verdade, a web seria o meio ideal para as grandes reportagens e as matérias aprofundadas, pois não apresenta as mesmas limitações do impresso — inclusive em termos publicitários, com anúncios multimídia (mas nada de pop-ups, por favor).  Só que ninguém quer se arriscar nisso por pensar que o público on-line simplesmente não ler. Você, que já chegou até aqui, sabe que isso não é verdade.
Há ainda outro fator que os editores tradicionais não querem admitir: o jornal impresso está condenado. Pode até ser que não desapareça totalmente, mas o formato está visivelmente envelhecido. Ou você acha que é prático ter que abrir aquelas baitas páginas impressas em ônibus, ou mesmo num banco de praça, à la Carlos Alberto de Nóbrega? E tem mais, o impresso é que é caro demais, mas não por causa do conteúdo — cada vez mais retraído em detrimentos de anúncios enormes.
O que encarece o impresso é a necessidade de produção em escala industrial e a logística para distribui-lo. Jornais on-line não têm esses custos: basta postar uma vez e é o próprio leitor que distribui as notícias de seu interesse nas redes sociais. Sem contar os custos ambientais, cada vez mais importantes para os leitores mais jovens. Para eles, não faz mais sentido se informar através algo que apresenta notícias
de ontem e que amanhã vai pro lixo. E, pelo menos até agora, nenhum jornal de larga tiragem inovou ao usar papel reciclado.
Em resumo, a postura adotada pelo The Times é mais ou menos a mesma estratégia adotada pela Igreja Católica após a coroação de Bento XVI. Nos dois casos, diante de públicos sedentos por reformas e inovação, houve acomodação e até isolamento em nome de fidelização e lucros duvidosos. Os resultados, tanto para o Vaticano quanto para o The Times, são para lá de desastrosos.
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  • isabelazm1

    >gostei muito do seu blog renato! você escreve coisas bem interessantes… vou colocar nos meus links também! parabéns :Dps: também acho que o jornal impresso pode acabar, porém ler na internet ainda é muito desconfortável…e se começarmos a pagar por edições online, toda a liberdade da internet não vai mais fazer sentido! mas realmente, aquelas páginas imensas não são muito eficientes!

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