>Plantas — Nem geniais, nem vegetais

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folha nervura
Nervuras em plantas: estruturas podem ter funções similares às de um sistema nervoso
Novas pesquisas mostram que plantas podem transmitir informações “de folha a folha de uma forma muito similar ao nosso sistema nervoso”. Um artigo na BBC News chegou a dizer que plantas “podem pensar e lembrar.” Ainda segundo o artigo, as plantas podem usar “informação contida na luz para imunizar-se contra patógenos sazonais.”
Plantas não podem pensar ou lembrar. É tentador usar essa descrição para explicar como as plantas funcionam. Elas não têm um sistema nervoso central, muito menos células nervosas. No entanto, como a maioria dos organismos, os vegetais podem sentir o mundo ao seu redor e reagir de forma adequada. De fato, plantas são capazes de reações muito sofisticadas aos olhos comuns, mas que os botânicos já conhecem há séculos.

A matéria da BBC News é baseada em um estudo a ser publicado em The Plant Cell. Um dos autores, Stanislaw Karpinski, da Universidade de Ciências da Vida de Varsóvia apresentou a pesquisa recentemente, no Congresso anual da Sociedade de Biologia Experimental em Praga. Portanto, como a experiência ainda não foi replicada, é cedo para afirmar se as conclusões de Karpinski estão corretos.
Segundo a matéria, o estudo indica que a estimulação de uma célula de folha com luz desencadeia uma cascata de eventos eletroquímicos que poderia se espalhar pela planta inteira. A cascata eletroquímica propagar-se-ia através de células do revestimento vascular (bundle-sheath cells) da mesma forma que impulsos elétricos se espalham através de células nervosas do sistema nervoso dos animais.  As bundle-sheath cells fazem parte da estrutura das nervuras das folhas. Os pesquisadores descobriram que essas reações continuam por muitas horas, até mesmo depois de escurecer. Isso, dizem eles, seria um indício de memória.
Entretanto, isso é o mesmo que dizer que a água tem memória simplesmente por que continua a ondular por algum tempo após a pedra nela jogada afundar. A analogia não se aplica, mas o estudo ainda é muito interessante, pois acrescenta muito ao pouco que se sabe sobre estímulos elétricos em vegetais.
Arabidopsis_thaliana
A. thaliana: plantinha foi primeiro
vegetal a ter o genoma decodificado
Embora não tenham nervos, células vegetais são capazes de gerar sinais elétricos. Na verdade, todas as células vivas têm propriedades elétricas. As células usam membranas para se separar do mundo exterior. A maioria das moléculas só consiga passar pela membrana através de poros e canais, mas algumas muito pequenas podem atravessá-la quase que livremente. Dessas moléculas “livres”, as mais comuns são os íons, partículas eletricamente carregadas. Íons de sódio, de potássio, de cloro e de cálcio podem se acumular dentro ou fora de uma célula. Essa diferença de concentração cria potenciais elétricos, que podem ser transformados em sinais. Até agora, os cientistas se perguntava para quê as plantas usavam seus sinais elétricos.
Apesar do excesso de entusiasmo por parte dos autores, o estudo de Karpinski descobriu algo muito interessante: as plantas podem usar estímulos luminosos não apenas para se alimentar, mas também para reforçar suas defesas. No estudo, os pesquisadores infectaram folhas de Arabidopsis thaliana com uma bactéria patogênica em diferentes condições de luz. Algumas plantas — que são parentes da mostarda — foram infectadas uma hora antes de uma forte dose de luz azul, vermelha ou branca, enquanto outras foram infectadas uma, oito ou até 24 horas após a exposição à luz. As plantinhas tratadas com luz antes da infecção demonstraram mais resistência do que as plantas que não receberam iluminação.
Para Karpinski, a explicação é simples: as plantas absorvem mais luz do que precisam, mas não desperdiçam a energia luminosa que recebem a mais. O cientista polonês diz que plantas convertem a energia que sobra em calor e atividades eletroquímicas que podem desencadear processos biológicos como os do sistema de defesa. Ele até mesmo acredita que os vegetais podem usar essa habilidade para combater agentes patogênicos sazonais. Isso significa que as plantas seriam capazes de lidar com vírus e bactérias que aparecem apenas em certas épocas do ano, quando, por exemplo, a luz do sol seria mais (verão) ou menos (inverno) intensa.
Mas apesar da descoberta, ainda não se sabe como funciona esse tipo de defesa, nem como as plantas “relacionam” luz à possível presença de patógenos. Mesmo assim, o novo fenômeno deve em breve aparecer em  uma lista de truques inteligentes que as plantas conseguem fazer — que já inclui fototrofismo (crescimento guiado pela luz) e gravitropismo (crescimento guiado pela gravidade).
Ainda não dá pra dizer que plantas são seres inteligentes e conscientes. Elas podem vegetar, podem não ter memória nem consciência, mas isso não significa que não sejam espertas.
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