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Convenção do PCC e Concílio Católico (abaixo):
semelhanças vão além dos cerimoniais…
…Ambas as instituições se consideram
poderosas, mas adoram se vitimizar ao menor sinal de oposição.

Esta semana foi marcada por assim chamadas “blasfêmias” cometidas pela Comissão do Prêmio Nobel. Na segunda, a Igreja Católica — que tanto diz defender a vida — protestou contra a indicação de Robert Edwards, criador do método de fertilização in-vitro para o Nobel de Medicina/Fisiologia. Em seguida, foi o governo chinês, outra organização obscura, retrógrada (e revelando seu lado religioso) protestou — dessa vez contra a premiação do dissidente pró-democracia, Liu Xiaobo com o Nobel da Paz.

A reação de Roma não foi surpresa, dado o conservadorismo de Bento XVI.  A de Pequim  também já era esperada, mas surpreendeu pela ironia dos termos: dar o Nobel da Paz a um “condenado por atividades subversivas” é uma “blasfêmia” contra a República Popular Democrática da China. Com mais de 1 bilhão de habitantes, a China pode até ser uma República “Popular”, mas está longe de ser “Democrática”.
O antiquíssimo Reino do Meio expôs claramente a contradição de termos de um regime comunista: a religião é claramente condenada como um “ópio do povo”. Mas ao contrário do que muitos pensam, não se impõe o ateísmo. Impõe-se a adoração do Estado e de seus onipresentes líderes — no caso chinês, Mao Tsé-Tung. — que são alçados à condição de salvadores messiânicos ou mártires tombados na luta contra a “exploração capitalista”. Mas o discurso marxista do regime chinês não impede a abertura econômica em condições francamente capitalistas. Só que, interna e externamente, Pequim jamais admitiu que só foi capaz de tirar centenas de milhões da miséria apenas quando passou a adotar políticas econômicas claramente anti-comunistas.
E quando Liu Xiaobo, um mero professor de literatura chinês — um homem frágil, de óculos enormes — começa a pensar por si e a criticar o absolutismo político dos “camaradas” do “Partidão”, o que acontece? O regime todo treme de medo. Sim, o regime que se impôs pela subversão agora persegue e prende quem lhe parece subversivo. Revolução permanente? Que nada! Nada mais conservador do que um revolucionário no poder (Não é, José Dirceu?).
Liu Xiaobo: preso pelo crime de
“subverter o poder do Estado”.
Ou seja: por dizer o que pensa e
pensar diferente

Quando Liu ganha um prêmio notoriamente neutro, sem conotações políticas, concedido por uma academia de um país neutro — a Noruega —, Pequim corre para que a notícia não chegue aos milhões de outros potenciais Lius por que tem medo de seu próprio povo. De fato, a única liberdade que os jornais – oficiais, é claro – tiveram foi para criticar a premiação, tachando-a de “tentativa de irritar a China”, mas dizendo que “não vão conseguir [nos irritar].” Com a prisão de quem tivesse comemorado o Nobel de Xiaobo, a já esperada censura dos termos “Nobel da Paz” e “Liu Xiaobo” em sistemas de busca na internet e até de mensagens de SMS endereçadas a qualquer Liu, vê-se que os suposto objetivos da concessão do prêmio foram atingidos. Os chefões de PCC (Partido Comunista Chinês) estão se mordendo de irritação, essa é que é a verdade.

Liberdade de imprensa é blasfêmia. Respeito aos direitos humanos é blasfêmia. Autonomia para minorias étnicas, como tibetanos budista e uigures muçulmanos, é blasfêmia. Mas abrir a economia ao capital estrangeiro para criar fábricas onde se explora a mão-de-obra mais barata do mundo, formada por mulheres e crianças não é nada para Pequim.
Do outro lado da Eurásia, em Roma, as coisas não são muito diferentes. Embora se considere defensora da vida, a Igreja Católica protesta contra um homem que criou um método para permitir milhões de novas vidas, que seriam impossíveis de acordo com os “sábios preceitos da Natureza”, os quais por milênios condenaram casais à esterilidade e à frustração.
Professor Edwards: embora não esteja preso,
é condenado pelos Católicos.
Seu crime: criar 4 milhões de vidas.

Quando surge uma oportunidade de efetivamente consolar esses casais, o Vaticano se opõe baseado num potencialismo embrionário que se preocupa mais com um pequeno monte de células — que muitas vezes nem se desenvolve — do que com a vida já cheia de dores e preocupações de um casal que só quer tentar ter um filho da única maneira que lhe resta: a inseminação artificial. E condena, desde o início, o trabalho de Robert Edwards, um homem que acha a que “a coisa mais importante do mundo é ter filhos”.

Que tipo de consolo e compaixão cristãos Roma oferece aos que sofrem de infertilidade? Nenhum. Muito menos uma solução prática. Tudo que a Igreja faz é o que poder fazer: condenar pessoas que querem ser pais e a seus médicos,  gente que muitas vezes é (e infelizmente continua a ser) cristãos devotos. Em vez de louvar um novo meio para ganhar fiéis num momento de declínio — muitos bebês de proveta também são criados como católicos —, a Igreja Católica cospe no pra
to em que come.
Fertilização in-vitro é blasfêmia. Camisinha é blasfêmia. Homossexualismo é blasfêmia. Mas pedofilia e abuso sexual (talvez até contra os agora jovens de proveta) cometidos por sacerdotes que deveriam ser celibatários e escândalos financeiros com dinheiro do dízimo de milhões de fiéis não é nada para o Vaticano.
Nos dois casos, temos regimes idênticos: ultrapassados, absolutistas, incapazes de admitir os próprios erros e de se adequar aos novos tempos. Que em vez de se reformar, buscam fazer algo muito mais fácil: o papel de vítima, acusando qualquer oposição de perseguição ou até conspiração maligna. Sim, agora, de repente, tanto comunistas quanto católicos fazem coro ao dizer que estão sendo perseguidos e ameaçados por uma perigosa comissão de cientistas e pensadores malvados, que querem dominar o mundo. Coitadinhos. Pensam que mostram sua força ao protestar, mas só revelam suas fraquezas.

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