catalisador bovino

Nestes tempos de aquecimento global a todo vapor (com trocadilho, por favor), era de se esperar que a inventividade de gente comum disposta a salvar o mundo explodisse. Como a emissão pecuária de metano tem sido apontada como um dos problemas mais sérios, o californiano Markus Donald Herrema propôs uma solução: em vez de tentar bloquear essas emissões naturais, porque não usar esse metano como fonte de energia? Em certo sentido, ele tem razão (já que o metano é, de fato, um gás mais “estufado”). O problema é que seu “Processo para Utilização de Emissões de Metano por Animais Ruminantes” parece no mínimo ridículo. Com uma apresentação em estilo devidamente ruminate, Mr. Herrema explica sua ideia de:

Um método de produção de microorganismo utilizadores de metano em um aparato confinado compreendendo o uso do metano exalado pela exalação de um animal ruminante como fonte de carbono e/ou energia para os ditos microorganismos, formado por: a. coleta de gás metano que tenha sido exalado através da exalação de um animal ruminante; b. fornecimento de microorganismos utilizadores de metano que podem usar tal metano como fonte de carbono e/ou energia; c. disponibilização de um meio de cultura e crescimento que promova o crescimento de tais microorganismos, incluindo um substrato nutriente e/ou um meio de imobilização dos microorganismos; d. disponibilização de meios para exposição direta e mútua dos citados metano, microorganismos e meio de cultura, incluindo meios para a captura e contenção do dito metano e meios para confinamento dos tais microorganismos, meio de cultura e metano em um aparato específico no exterior do trato digestivo de um animal ruminante; e. exposição mútua dos citados microorganismos, meio de cultura e metano para causar o crescimento de tais microorganismos em tal aparato usando o tal metano e o tal meio de cultura, onde o tal metano contido na tal exalação de animal ruminante é utilizado para sustentar o crescimento de tais microorganismos em um aparato específico, no qual o dito metano, um material ecologicamente destrutivo e fonte de energia anteriormente inutilizável é usada para produzir um útil produto final e no qual os ditos microorganismos possam ser criados e utilizados, adicionando incentivo econômico ao esforço da redução de emissões de metano por um animal ruminante.

Resumo da conversa mole para bovino dormir: trata-se de um catalisador bioquímico para o arroto das vacas! Todo mundo imagina que o metano emitido pelas ditas vacas viesse do “escapamento”, mas Mr. Herrema afirma que o metano sai pelo arroto dos bovinos: “não é um fato bem conhecido que 95% da emissão de metano por animais ruminantes saem do trato digestivo dos animais ruminantes através da exalação e não da flatulência (O caminho fisiológico específico das emissões de metano por animais ruminantes é uma descoberta relativamente nova).” Para tornar utilizável esse metano de origem animal e ao mesmo tempo reduzir sua emissão, o invetor propõe a criação de microorganismos que se alimentem desse metano. Na prática, é a inversão do ciclo digestivo dos bovinos.

Consequentemente, Mr. Herrema demosntra que todos os esforços anteriores a sua invenção (patenteada sob nº. 6.982.161 em 3 de janeiro de 2006) eram inúteis. Entre esses esforços estariam: “vacinas projetadas para limitar microorganismos metanogênicos no rúmem ou trato digestivo; reformulações alimentares destinadas a alterar o ambiente químico ou microbiano do rúmem ou trato digestivo (…)” ou para “(…) diminuir a quantidade de alimentos produtores de metano; e a reprodução seletiva com vistas a encorajar o sucesso reprodutido de animais ruminantes que produzam quantias relativamente baixas de metano (…)”.

Para Herrema, tais esforços são infrutíferos porque implicam em custos para o produtor. Sua alternativa, por outro lado, ofereceria lucros, já que os microorganismos “metanotróficos” criados a base de bafo de gado poderiam ser vendidos como biomassa. Além de carne (e/ou leite), os pecuaristas se tornariam produtores de combustível alternativo. Que maravilha!


0 comentário

Luiz Bento · 16 de janeiro de 2012 às 9:50

É realmente bem patético hehe

Acho que uma saída interessante seria para o gado confinado. Quando estive na Dinamarca do grupo de microbiologia de lá tinha alguns projetos com porcos confinados. Eles trabalhavam com filtros e bactérias metanotróficas. A diminuição da emissão de gases poluentes era significativa e pode se tornar algo viável. Mas não sei se podemos manter gados tão confinados quanto porcos. E quais seriam os problemas éticos/legais disso.

Lembrando que as bactérias metanotróficas liberam o CO2. Então o resultado final seria uma diminuição do potencial estufa dos gases liberados pelo gado.

Metendo ferro no metano | hypercubic · 1 de setembro de 2016 às 22:35

[…] flatulências. Mesmo que reduzíssemos muito o consumo de carne, tais emissões continuariam. Numa patente patética, um inventor chegou a propor que o gado carregue seus próprios coletores de […]

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