http://www.google.com/patents/US4865550

Depois de assistir ao clássico Viagem Fantástica (1966), quem nunca quis participar de um passeio de exploração pelo interior do corpo humano? Evidentemente, é fisicamente impossível ser miniaturizado e viajar dentro de um corpo a bordo de uma micronave. Mas que tal o contrário? Que tal ampliar um corpo de modo a permitir uma viagem fantástica numa escala mais realizável? Era de se esperar que essa ideia daria origem a atrações dignas de parques temáticos hoolywoodianos.

Duas décadas após o filme, o sino-americano Shao-Chun Chu notou que ainda não havia nenhuma atração anatômica em parques, embora a ideia continuasse bastante atraente. Para evitar que seu empreendimento fosse roubado pelos diversos parques temáticos americanos, Mr. Chu patenteou seu Anatomical educational amusement ride [Passeio de diversões anatômicas e educacionais]:

Um aparato de divertimento educacional que forma uma grande estrutura construída com uma aparência externa que simula um homem e uma mulher descansando, parcialmente cobertos por um lençol. Os passageiros são levados através de uma sucessão de cavidades que simulam os órgãos internos do homem e da mulher. A entrada, através de uma câmara que simula a cavidade oral, é alcançada através de uma escadaria apoiada no simulacro do braço do homem. A cavidade oral apresenta dentes em condições normais e anormais e serve como área de embarque para um trem que carrega os passageiros. O trem passa através de uma cavidade craniana simulada da mulher, por uma exposição de órgãos auditivos seccionados, e entra na porção do corpo ou edifício que representa o abdômen, tanto do homem quanto da mulher — primeiro através de um esôfago simulado, estômago, intestino de um canal alimentário [sic], passando através dos tratos reprodutivo e urinário simulados, depois atravessando um fígado simulado e um canal cardiovascular simulado, passando finalmente por um pulmão simulado e por uma traquéia até a área de saída do edifício.

Esse é apenas o resumo das minuciosas descrições do itinerário presentes na patente 4.865.550 [pdf]. Mr. Chu submeteu a patente em 20 de janeiro de 1988 e teve a ideia aprovada e legalmente protegida a partir de 12 de setembro de 1989. Na justificativa, ele fala de que sua invenção é “uma estrutura de larga escala adaptada para o ensino de anatomia de mamíferos.” Muito simples, mas qual seria a necessidade disso? Segundo Chu,

É bem sabido que muitas pessoas abusam de seus corpos de várias maneiras, em parte pela ignorância, tendo em vista que aqueles que estudaram seriamente a fisiologia e outras matérias médicas são apenas uma pequena minoria da população. Também é notório que muitas pessoas não são motivadas a tomar cuidado de seus corpos a não ser quando se tornam relativamente avançadas em anos, quando condições patológicas que poderiam ter sido evitadas já se encontram presentes. Por outro lado, muitos jovens são curiosos em relação aos próprios corpos e seriam atraídos por um passeio recreativo que revelaria o funcionamento interno do corpo humano.

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Vista superior do “Anatomical Ride”

Mr. Chu ainda ressalta a necessidade de uma atração que “facilita a educação com respeito ao corpo humano, às suas condições patológicas, como evitá-las e que seja atraente para o público.” As intenções do inventor, portanto, são as melhores possíveis. Mas o sino-americano, habitante de Monterey, Califórnia, não seria apenas um idealista? À primeira vista, não. Ele sabe muito bem que precisaria de patrocinadores para tirar sua ideia do papel:

O aparato (10) é adaptado para criar oportunidades de publicidade realísticas que também poderiam atrair visitantes em potencial. Por exemplo, o simulacro de lata de refrigerante (38) pode exibir um logo da bebida bem como funcionar como ponto de venda; o relógio simulado (40), além de mostrar a hora exata, também poder apresentar uma marca promocional. Adicionalmente, o aparato (10) inclui simulacros de um saco de lanches (290) e de um rádio (292) que também podem apresentar anúncios sem tirar o realismo do aparato. O saco de lanches pode abrigar uma lanchonete, enquanto a estrutura do rádio pode abrigar um sistema de condicionamento de ar, bem como as salas de manutenção e de administração.

Ok, mas qual seria o tamanho dessas instalações? No fim da patente, Mr. Chu recomenda que “a estrutura seja convenientemente feita com 100 a 1000 pés [30,48 a 304,8 metros] de comprimento, cerca de 50 a 500 pés [aprox. 15-150m] de largura e de cerca de 30 a 500 pés [9 a 150m] de altura”, o que permitiria que a atração “possa ser claramente vista a grandes distâncias, instigando a curiosidade e atraindo visitantes”. Parece um tanto megalômano, não? Mas ele também propõe um tamanho mais moderado: 300 por 150 por 45-50 pés [91x45x13-17m].

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Planta-baixa da atração anatômica.

Ao longo da patente, o inventor fala de realismo em grande escala e faz uma longa, porém deliciosa descrição do passeio intracorporal (um trecho da descrição: “Depois, a estrutura continua a descer até que os carros sejam parcialmente submersos no lago do estômago, de preferência com um consideráveis salpicos”). Curiosamente, o fime Viagem Fantástica não é citado na longa patente, nem mesmo como exemplo. No entanto, uma das fontes que Mr. Chu lista para seus conhecimentos anatômicos é The Anatomy Coloring Book, Wynn Kapit et al., Harper & Row, 1977 — que é apenas um livro de colorir!

Dada a grande escala (e a aparente ingenuidade de Mr. Chu, inspirado por um livro de colorir), nenhum parque se interessou em construir uma atração baseada em Viagem Fantástica ou coisa similar. Até porque, além dos custos com uma obra complicadíssima, ainda teriam que pagar royalties ao inventor! Vê se pode!


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