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Circuito-Camaleão. Ou quase isso.

Dos filmes clássicos de fantasia ou ficção científica a uma infame propaganda de cerveja, um velho sonho humano se mantém constante: a invisibilidade. Embora alguns digam que há grandes avanços recentes nas pesquisas sobre a condição translúcida, não é de hoje que se tenta criar uma “capa de invisibilidade”. Meio que alquimicamente, muitos inventores já se debruçaram sobre o problema. Com a promessa de rios de dinheiro e fama imortal, não foram poucos os que chegaram a patentear seus planos infalíveis invisíveis.

Richard N. Schowengerdt foi um desses. Sua técnica para não ser visto foi registrada com o nome de “Cloaking system using optoelectronically controlled camouflage” [“Sistema de ocultação usando camuflagem optoeletronicamente controlada”]. O resumo da patente é tão pomposo quando o título:

O Sistema de Ocultação é projetado para operar no espectro da luz visível, utilizando-se de componentes optoeletrônicos e/ou fotônicos para esconder um objeto em seu interior e emprega controles de retroalimentação analógicos ou digitais para resultar numa camuflagem adaptável a um ambiente mutante. O sistema esconde efetivamente um objeto, móvel ou fixo, pela interposição de um escudo entre um observador e o objeto e pela recriação de uma imagem sintética em cores vivas do ambiente sobre o escudo para a visão do observador, criando assim a ilusão de transparência tanto do objeto quanto do Sistema de Ocultação. O sistema consiste de quatro elementos principais: um sensor, um processador de sinal, um escudo e meios de interconexão, apoio e esconderijo seguro dos elementos supracitados além do objeto a ser escondido.

Soa bastante pseudocientífico, hein? Por isso, no texto da patente, Richard N. Schowengerdt procura ser mais claro: seu sistema teria o “método mais simples de implementação”, utilizando-se de um “processador de sinal analógico, um display de cristal líquido especialmente projetado para exibir a imagem do ambiente sobre o escudo e uma câmera de vídeo convencional como sensor” para alcançar a prometida invisibilidade. A referência às telas de cristal líquido faz a ideia parecer recente, mas não é: o tal Sistema de Ocultação foi registrado sob nº. 5.307.162 [pdf] em 26 de abril de 1994 (há quase duas décadas!).

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Dada a tecnologia da época, Mr. Schowengerdt reconheceu que seu sistema estaria “limitado a displays planos achatados ou semicirculares”, mas prometia a construção de um protótipo dentro de um ano ou dois (promessa que provavelmente não foi cumprida). Na justificativa da patente, ele tentou chamar a atenção dos militares:

A necessidade para esta invenção decorre do presente estado da arte da camuflagem militar no espectro da luz visível. Esta invenção é projetada para o propósito de esconder da visão objetos, tanto móveis quanto estacionários. O termo “ocultação” como usado no título desta invenção e alhures refere-se à dissimulação de tais objetos.

Para o inventor — natural de Costa Mesa, Califórnia —, as atuais técnicas de camuflagem são “um tanto primitivas e pouco fazem para ocultar um objeto móvel”, pois “pouco tem sido feito para utilizar modernos avanços da optoeletrônica, dos computadores ou dos microcomponentes para camuflar um objeto”. Ele ainda ressalta que “esta invenção encontrará aplicação prática nos campos militar e policial”, nos quais seria útil e necessário “ocultar um objeto da vista”.

O apelo de Mr. Schowengerdt, evidentemente, não convenceu os rigorosos (e céticos) militares americanos. As tecnologias de processamento de imagens e de telas de cristal líquido ainda engatinhavam nos anos 1990. Pra piorar, a tecnologia de telas curvas ou flexíveis — que seriam necessárias para esconder veículos e até aviões sob escudos circulares ou esféricos — sequer era considerada viável na época.

E mesmo que tais telas moldáveis estejam disponíveis algum dia, o sistema todo é relativamente desajeitado (pra não dizer primitivo), principalmente no caso de camuflagem de objetos móveis. As telas e seus suportes acrescentariam peso considerável ao veículo e é possível que aumentassem consideravelmente o consumo de energia.

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No caso de blindados, a estrutura do Sistema de Ocultação não poderia, obviamente, ser blindada — assim, um único tiro ou mesmo uma pedrada poderia pôr tudo a perder. No caso de aeronaves o sistema é simplesmente inaplicável: como um avião poderia levantar voo debaixo de uma tela de LCD esférica? Além de tudo isso, o sistema de telas é fixo e não há indicações de como guardá-lo, escondê-lo ou protegê-lo caso não seja necessário usá-lo.

A coisa toda fica ainda mais patética graças à teimosia do próprio inventor. Schowengerdt parece ter brigado com o Departamento de Defesa, tendo processado ninguém menos que Donald Rumsfield em 2005 (os motivos não me são claros, mas o inventor parece acusar os militares de violar sua patente e/ou de discriminá-lo). É dessa época o chameleo.net, site onde Schowengerdt apresenta uma série de supostas credenciais acadêmicas e científicas e defende obsessivamente sua (única) patente. Diante da incredibilidade que o cerca, Schowengerdt compara-se a ninguém menos que Nikola Tesla (porque Síndrome de Galileu é too mainstream). Mas a teimosia ou o dinheiro devem ter se esgotado: a última atualização da página data de 2007.


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