image

Você gosta de usar os bolsos mas eles já estão cheios? Ou você é daqueles que teme usá-los porque não quer ser assaltado? Qualquer que seja seu caso, você já pensou em usar a cabeça? Ou melhor, botar um bolso na cabeça? Essa é a proposta de Stefan Cvijanovich e seu Concealed compartiment incorporated into head gear [Compartimento oculto e incorporado no interior de chapéus]:

Um compartimento secreto em chapéus para esconder pequenos itens valiosos, o qual é conhecido e acessível apenas pelo usuário. O compartimento é composto por uma peça de material [têxtil] que é dobrada internamente sobre si mesma, criando porções sobrepostas, as quais são perifericamente presas. A face interna do material tem uma abertura para permitir a inserção de itens e um mecanismo de fechamento para prevenir a abertura inadvertida e a perda dos itens. O compartimento pode ser anexado a adereços tais como, mas não limitados a, bonés, chapéus e bandanas.

Tal é o resumo da patente 5.860.165 [pdf], aprovada em 19 de janeiro de 1999. A ideia — anexar um pedaço de tecido dobrado e costurado, com um zíper, a um item de chapelaria — é tão simples que o documento tem apenas cinco páginas incompletas. Ou, para ser mais claro, quatro páginas e um pedaço. Aliás, a ideia é tão óbvia que não dá pra entender como o USPTO viu alguma inovação nela.

image

Natural de Oxnard, Califórnia, Stefan Cvijanovich não tem — até onde pudemos averiguar — relações com Lou Cvijanovich, vitorioso técnico de basquete colegial masculino daquela cidade entre 1958 e 1999 (viram o que eu descubro pesquisando sobre essas patentes?).

Quem quer que seja, Stefan Cvijanovich não deve ter boas lembranças sobre bolsos. Possivelmente, é daqueles que os considera mais perigosos que convenientes. Na patente, ele afirma que

Embora bolsos em vestuário sejam agora um lugar-comum, a invenção de tais bolsos foi seguida  por carteiristas e ladrões mais violentos que usam da violência física [sic] para esvaziar os bolsos das vítimas. É por causa do risco de roubo que muitos artigos de vestuário, hoje em dia, incluem bolsos ocultos que são inacessíveis não apenas aos ladrões mas também aos próprios usuários desses artigos.

Mr. Cvijanovich admite que bolsos são úteis, mas diz que alcançar os bolsos de segurança é “um constrangimento e uma inconveniência”. Na discussão sobre o estado da arte relativo à sua invenção, descreve um tal de “money belt”, que parece ser um cinto com pequenos compartimentos para dinheiro (não confundir com pochetes) na face interna. Sabiamente, ele considera que “é inconveniente tirar um cinto para acessar o compartimento porque o propósito funcional do cinto, que é segurar as roupas no lugar, será perturbado.” Além disso, tal solução acomodaria apenas dinheiro (bem dobrado, aliás) e moedas, não podendo “cartões de crédito, licença [de motorista] ou objetos de valor como um anel”.

imagePara o inventor, o boné com bolso tem a vantagem de poder ser usado “enquanto se está ocupado com esportes ou frequentando a praia.” Claro, não faltam esportistas e/ou banhistas que necessitam de bolsos e ainda mais de bolsos ocultos em um boné.

Como de praxe em patentes abrangentes, não é só um boné: “outros tipos de adereços para a cabeça, como qualquer tipo de chapéu, boina, capuz, yarmulke [ou quipá], elmo[!!] ou bandana podem ser substitutos.” Em lugar de fechar o bolso “secreto” com zíper, é possível usar “velcro, botões, cordão ajustável, rebite ou um alfinete”. Portanto, se você pensou em patentear qualquer dessas variações, é melhor desistir. Há uma brecha, porém: Cvijanovich diz apenas que tal bolso pode ser anexado ao boné com o uso de botões de pressão (que ele, meio pedantemente, chama de “componente-macho” e “componente-fêmea”).

Apesar da simplicidade — qualquer um poderia fazer um bolso assim — e relativa praticidade — convenhamos, é melhor tirar um boné para achar dinheiro do que tirá-lo da meia —, o bolso-boné de Cvijanovich é mais patético do que genial. Primeiro porque ele responde aos batedores-de-carteira com mais um bolso. Segundo porque, pior ainda, ele responde com um bolso que pode ser fácil e inteiramente levado pelos meliantes — e que ainda pode ser portado com algum estilo. Terceiro porque, em uso pleno, é visivelmente desconfortável e pouco discreto. Como o bolso é dobrado para dentro, se estiver cheio vai ficar desconfortável e alto. E como não há invenção humana moralmente neutra, a suposta discrição de tal bolso-boné poderia muito bem ser usada para transporte de substâncias ilícitas. Dorgas, manolo!


0 comentário

Patentes Patéticas (nº. 100) | hypercubic · 16 de março de 2013 às 21:01

[…] de água: OK. Carteira: OK. Bolsos: não dá. Se você já enche seus bolsos (inclusive o do boné), como vai aindar por aí com sua parafernália tecnológica e manter-se on-line? Convenhamos, […]

Patentes Patéticas (nº. 119) | hypercubic · 17 de agosto de 2013 às 20:01

[…] Não sabemos ao certo qual era a idade de D. Elberta Roy Woodside ao ter essa epifania, provavelmente durante uma feira. Gostamos de imaginar que ela já era uma boa vovozinha quando pediu o registro do chapéu-sacola em 20 de abril de 1934. Ao falar em aperfeiçoamento, D. Elberta foi modesta: a ideia era original mesmo e foi a primeira do tipo (no fim dos anos 1990, por exemplo, surgiria um boné-carteira). […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *