bola-quadrada

Isto não é um dado.

Quem acha que, entre os anos 1970 e 1980, o Quico fosse o único que queria jogar com uma bola quadrada está cubicamente enganado. O americano Thomas J. Maxwell não devia gostar de nossa parcialidade por bolas esféricas e desejava uma bola com arestas e faces. Tanto que inventou um Nonpredictable Game Projectile [Projétil de Jogo Imprevisível]:

Um projétil de jogo é configurado como um poliedro em vez de ser esférico ou cilíndrico. O projétil é independentemente apoiado sobre uma base de baixa fricção com a qual se move através da superfície de jogo. Pode-se ainda fazer com que o poliedro gire em torno de seu suporte independente. Outra possibilidade é que a localização do ponto de suporte do dito projétil poliédrico possa ser variada para assegurar que o eixo de suporte não passe através do centro de massa do projétil. Esta apresentação ensina o uso dos instrumentos de impulso com superfícies de impacto que são configuradas de tal modo que o contato das referidas superfícies com o dito poliedro tenderão a projetar o poliedro através da superfície de jogo numa trajetória imprecisamente determinável. O efeito combinado da forma poliédrica, o arranjo da montagem e a peculiaridade da configuração da superfície de impacto dos instrumentos de impulso aumentam grandemente o elemento do acaso enquanto efeito do resultado do jogo, ao mesmo tempo em que minimiza a habilidade inerente do jogador. O jogo, assim, torna-se tal que jogadores de todos os níveis de habilidade e sofisticação podem se reunir para jogar e se divertir.

Como não lhe bastaria ter uma bola quadrada, mas ser o dono indisputável dela, Thomas J. Maxwell, de Phoenix, Arizona, pediu uma patente em 5 de novembro de 1979. Aparentemente, as bestas quadradas do U.S. Patent Office não tinham senso de ridículo e — talvez depois de brincarem com os jogos propostos — aprovaram a ideia em 22 de setembro do 1981, sob nº. 4.290.606 [pdf].

Maxwell, é claro, não deve ter sido inspirado pelo Quico. Mas nosso inventor quadradão defende uma bola quadrada pelos mesmos motivos do filho da D. Florinda: ele não deve saber jogar direito com bolas redondas. Citando como exemplos os casos do golfe, do hóquei e do bilhar/sinuca, Maxwell demonstra contrariedade com o fato de que nesses jogos

O propósito de dirigir a força propulsora através do centro do projétil do jogo é assegurar uma verdadeira trajetória de voo através da superfície de jogo na direção pretendida pelo jogador. Assim, enquanto a habilidade do jogador aumenta, o projétil é impelido para a localização desejada com crescente precisão, sendo minimizado o papel do acaso enquanto o jogador continua no jogo.

O que deve ser lamentável para alguém que não deve ver muita graça em jogos fisicamente previsíveis com equações newtonianas. Para Maxwell, tal situação não seria apenas entediante. A necessidade de precisão afasta o interesse de novos jogadores, pois eles “acham difícil aprender o jogo a não ser que consigam encontrar um jogador hábil disposto a ensinar um novato” ou são forçados a “contratar um instrutor que lhes ensine os refinamentos do jogo”. Seu objetivo, portanto, é “reduzir os efeitos da prática e da habilidade dos jogadores bem como apresentar um jogo que pode ser jogado por todos, independentemente de sua idade, destreza ou familiaridade com o mesmo.” Algo surpreendentemente inclusivo e igualitário, para um americano. Ou preguiçoso mesmo, já que ele parece desdenhar a necessidade de treinos.

Para isso, ele propõe o uso de algo que não é bem uma bola, mas um projétil mesmo, já pode apenas ser impelido e não rolado. O poliedro de Maxwell — que é um cubo apenas “para propósitos de ilustração, o que não deve limitar a forma do poliedro usado no projétil em particular” — apoia-se sobre uma pequena plataforma com rolamentos ou pequenas esferas (vide figura em corte abaixo). image

Dessa plataforma (14) sobe um eixo (12), no qual o poliedro é encaixado para girar livremente. Para aumentar a imprevisibilidade do jogo, é preferível que haja mais de uma posição de encaixe possível (e.g., 121, 122 ou 123), além de uma variedade de tacos. Maxwell propõe ainda três jogos baseados no golfe, no bilhar/sinuca e no hóquei e, respectivamente, os chama de Sqolf, Sqilliards/Sqool e Sqocky [sic]. Ele diz que as regras devem ser as mesmas dos esportes-pais, com algumas variações se for o caso.

No caso do Sqolf [de square golf], porém, a bola quadrada simplesmente não pode sair do solo ou de qualquer superfície de jogo (que deve ser plana, evidentemente, para permitir a rolagem da plataforma). Ironicamente, a impossibilidade de voo torna o golfe quadrado mais previsível que o esporte tradicional. Afinal, há apenas duas dimensões em jogo.

No Sqocky [de square hockey], o possível hóquei quadrado, o resultado não deve ser muito diferente se o poliedro não puder voar (isso não fica claro na patente, mas parece algo implícito). A outra aplicação, Sqool [square pool] ou Sqilliards [square billiards], realmente se tornaria imprevisível com os choques de poliedros deslizantes (especialmente se forem de formas diferentes), mas a mesa proposta não tem buracos, apenas recuos em suas bordas. Na prática, a sinuca quadrada não teria graça nenhuma — ao contrário da bola quadrada do Quico.


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