image

Para alguns pode ser o pé direito, para outros o esquerdo enquanto outros ainda podem ter problemas com ambos. Não importa o tênis, o cadarço do meu pé esquerdo vive desamarrando. E, como todo mundo sabe, amarrar o tênis é ridículo. Ou você tem que dobrar-se inteiramente para alcançar os pés (o que é complicado quando você costuma usar uma mochila meio pesada) ou tem de achar um apoio para os pés numa altura razoável antes de tropeçar nos próprios cadarços.

Qualquer que tenha sido o pé de calçado que vivia desamarrando, Aaron D. Harrell tinha o mesmo problema. Não seria mais simples ter tênis que se amarram sozinhos? Todo mundo já deve ter pensado nisso — especialmente quando temos tênis desamarrados e estamos com pressa —, mas depois de amarrar bem seu tênis, Harrell deu um passo que foi além do resmungo meio sonhador. Ele criou um Pneumatic Shoe Lacing Apparatus [Dispositivo de Amarração de Calçado Pneumático], formado por:

Uma peça de calçado que inclui uma pluralidade de teias de fixação [i.e., cadarços] direcionadas no sentido de uma cavidade de amarração na parte superior do calçado, onde as teias são montadas deslizavelmente dentro das cavidades associadas, com linhas anexas às teias montadas sobre uma polia operativa, com a polia em engajamento operativo com uma barra atuadora deslizável para efetuar a projeção das teias de fixação, forçando-as dentro de cada respectiva cavidade. Um cilindro de gás é operado para efetuar a rotação da polia pelo uso de uma barra deslizante associada no interior de um cilindro-guia para efetuar o empuxo de cada linha relativa e associada a cada teia de fixação.

Mr. Harrell devia ter muita fixação por teias. Ou talvez ele fosse fã do Homem-Aranha. Ou então deve ter sofrido um branco sério na hora de escrever a patente, deixando o shoelace [cadarço] de lado e trocando o termo correto pela primeira expressão que lhe passou pela cabeça. Acontece.

Independente da terminologia utilizada, Harrell (de Virginia Beach, Virginia) viu sua patente ser aprovada quase tão depressa quanto um laço de cowboy. Seu pedido foi feito em 3 de fevereiro de 1992 e foi aprovado em 27 de abril de 1993, sob número 5.205.055 [pdf]. São nove páginas, cinco das quais dedicadas a nove figuras.

Harrell parecia mesmo apressado. Ele discute muito brevemente a arte anterior, argumentando apenas que “vários dispositivos pneumáticos em associação com calçados tem sido disponibilizados na arte anterior para fins de conveniência, conforto e diversão dos indivíduos que utilizam tais estruturas calçadistas”. Considerando bastante óbvio o problema que tem a resolver, Harrell nem sequer apresenta suas justificativas, dizendo apenas que seu invento “resolve tanto os problemas de facilidade de uso quanto os de efetividade da construção” dos tênis.

Depois, Harrell repete a lenga-lenga típica de qualquer patente. Geralmente nós poupamos o leitor desse tipo de coisa porque é patentemente chato. Dessa vez, porém, não temos nenhum trecho mais interessante ou curioso a destacar, então vai esse mesmo:

Além disso, o propósito do resumo a seguir é permitir ao US Patent and Trademark Office e o público em geral, especialmente os cientistas, engenheiros e praticantes da arte que não são familiarizados com termos legais ou fraseologia de patentes a determinar rapidamente a partir de uma inspeção apressada, a natureza e a essência da técnica apresentada na aplicação. O resumo não é intendido nem para definir a invenção da aplicação, que é medida pelas reclamações, nem para ser limitação do escopo da invenção de qualquer maneira.

Ainda como uma patente típica, seguem-se uma meia dúzia de parágrafos bastante parecidos, que descrevem os objetivos da invenção da maneira mais ampla possível. Afinal, uma Nike da vida pode ter uma ideia parecida e é melhor se precaver…

E quanto ao funcionamento, que é o que todo mundo quer saber a essa altura? Como em muitas patentes, a de Harrell não é diferente. Praticamente todas as ilustrações são minuciosamente descritas num longo parágrafo que toma quase uma página inteira. Também como muitos patenteadores, Harrell fala muito e não diz nada. Diz apenas que “quanto à maneira de uso e operação, as mesmas devem estar aparentes da descrição supra e consequentemente nenhuma discussão adicional relativa ao uso e operação da presente invenção será apresentada.” Porque afinal é uma patente, não um manual de instruções.

Para poupar os leitores do tedioso parágrafo descritor (os mais destemidos podem acompanhar o parágrafo de descrição do invento, que vai da linha 30, coluna 3, à linha 68, coluna 4, na página 7 da patente citada), basta dizer que no interior da sola do tênis há um cilindro e um êmbolo ou pistão. Este pistão, por sua vez, ao ser empurrado por uma descarga de gás, aciona uma polia que puxa as linhas presas às pontas de três tiras — ou melhor, teias de fixação — que fazem as vezes de cadarço.

Segundo as figuras 8 e 9, há até versões com rodinhas nas solas, embora não fique bem claro pra que servem. Aliás, nem as ilustrações são capazes de esclarecer muitas dúvidas. Por exemplo, parece haver duas vávulas na parte de trás do tênis, mas como exatamente o gás é injetado no cilindro-motor? Há algum botão pra abrir as válvulas ou basta dar um pisão na sola do tênis? Que “gás pressurizado” é esse, afinal? Seu reservatório é fixo ou é um refil recarregável? E o mais importante: como se desamarra esse troço? Puxando as tiras/teias-de-fixação para fora de seus encaixes? Mas isso não romperia as linhas de tração enroladas na polia?

Como em muitas patentes patéticas, o conceito pode parecer promissor à primeira vista, mas a ideia naufraga num mar de “termos legais ou fraseologia de patentes” cujo único objetivo é impedir que a ideia seja efetivamente aplicada. Se quisesse, Harrell podia ter vendido sua ideia para a Nike ou poderia ter licenciado seu sistema de maneira clara e sem restrições, numa espécie de projeto open-source. Em vez disso, tentou ser o único dono da ideia. Por isso mesmo, não conseguiu viabilizá-la comercialmente e, já em 1996, deixou sua patente expirar por falta de pagamento de taxas de manutenção. Acontece.

Ironicamente, o sistema de Harrell é citado numa patente recém-aprovada — da Nike, é claro.

Pobre Harrell… Devia ter pensado num pequeno motor elétrico acionado por botão e não em um pistão a gás que aciona uma polia para puxar “teias de fixação”. Isso também (não) acontece…


0 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *