dona aranha

A Dona Aranha subiu pela parede do laboratório e um cientista a pegou. Veio uma chuva de nanopartículas e a derrubou. Antes de cair, porém, a D. Aranha ficou supernanopoderosa e produziu uma seda reforçada — mais forte do que o mais forte fio de aranha conhecido, segundo cientistas italianos.

Que os fios que forma a teia de aranha têm propriedades fantásticas, já se sabe há algum tempo. Mas produzir esse material é algo complicado — afinal, aranhas são bem diferentes dos bichos-da-seda. Além de serem peludos, grandes e terem oito patas, os aracnídeos de seda mais potente são animais selvagens e têm comportamentos bem difíceis de serem domesticados: são bichos territoriais e com tendências canibalísticas. E as pessoas naturalmente tendem a ser aracnofóbicas.

Mas nada disso impede que os cientistas continuem a estudar as aranhas e seus filhos, perdão, seus fios. O que sai do fiofó da aranha pode parecer simples (ou complexo), mas a aranha não faz mágica. Ela fabrica seu fio com o material que encontra à sua volta. À procura da seda perfeita, pesquisadores já borrifaram ou alimentaram aranhas com os mais diferentes materiais — alumínio, zinco, cobre, titânio, chumbo — para estudar seus efeitos sobre as propriedades das teias.

Nanomateriais criados em laboratório, como o grafeno e os nanotubos de carbono também têm propriedades físicas e químicas bastante interessantes. Liderada por Nicola Maria Pugno (da Universidade de Trento) e movida pela pura curiosidade, uma equipe de pesquisadores italianos resolveu juntar uma ideia com outra para responder à seguinte pergunta: o que acontece com a teia se a gente aplicar grafeno em aranhas?

Para responder a essa pergunta, era preciso arranjar aranhas. Foram escolhidas da família Pholcidae, aquelas pequenas aranhas inofensivas que todo mundo já deve ter visto em casa.

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Olá, eu sou uma Pholcus phalangioides.

Quinze dessas aranhazinhas foram capturadas em Torrente Chisone, entre Macello e Garzigliana, na Província de Torino. Três dias depois, foram levadas a um laboratório em Trento. Amostras de seda natural foram colhidas cinco dias depois. Em seguida, dez delas foram borrifadas com uma solução de nanotubo de carbono; outras cinco foram molhadas com uma solução de grafeno.

E o que aconteceu? Várias coisas: as produções foram variáveis, começando entre 2 e 12 dias, quatro aranhas morreram em pouco tempo e duas produziram teias de má qualidade. No entanto, as nove que restaram produziram material muito mais resistente que suas teias comuns.

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Exames espectroscópicos revelaram que os nanotubos foram misturados à teia recolhida. Testes de resistência mostraram que as teias com nanotubos eram até 3,5 vezes mais fortes que a seda produzida pela Caerostris darwini (as teias da C. darwini são o segundo material biológico mais resistente que se conhece).

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Olá, eu sou uma Caerostris darwini

Como se trata de aranhas fáceis de encontrar e praticamente inofensivas, esse método de produzir teia reforçada pode facilitar novos estudos e aplicações do material. No paper publicado em 25/04 na plataforma arXiv.org, os cientistas italianos concluem que esse novo reforço pode resultar em uma nova classe de materiais biônicos.

Nem tudo está resolvido, porém. Os cientistas sabem que as aranhas excretam os nanomateriais através da seda, mas ainda não está claro como ocorre esse processo. A produção ainda é pequena e não se sabe porque algumas aranhas morreram. Por fim, ninguém sabe ao certo pra que serve esse novo supermaterial.

Referência
rb2_large_gray25LEPORE, Emiliano et. al. Silk reinforced with graphene or carbon nanotubes spun by spiders, arXiv, arXiv:1504.06751 [cond-mat.mtrl-sci] http://arxiv.org/abs/1504.06751

0 comentário

Guilherme pereira · 31 de maio de 2015 às 14:04

nossa cada dia que passa o homem inova mas não entendi o porque fazer esse teste temos tantas outras coisas para se preocupar tantas doenças para serem descoberta a cura .

    Renato Pincelli · 31 de maio de 2015 às 21:48

    Caro Guilherme,

    Resumindo ainda mais a história toda: o teste foi feito para satisfazer uma curiosidade dos cientistas envolvidos. Eles tiveram uma ideia e resolveram testá-la. Só porque os resultados – por mais promissores que sejam – não têm aplicação imediata, não significa que a pesquisa seja inútil (quando inventaram o Laser, no começo dos anos 1960, ninguém sabia o que fazer com ele). Do aprofundamento desses estudos pode aparecer alguma coisa (inclusive alguma aplicação médica). E não, esse tipo de pesquisa não interfere na investigação de curas para doenças: já há muita gente (e gente boa) do mundo inteiro envolvida na busca das mais diversas curas. E ela pode vir de onde menos se espera (como foi o caso da descoberta da penicilina).

Guilherme pereira · 9 de julho de 2015 às 14:16

realmente Renato o que você fala faz sentido eu que me não atentei aos fatos parabéns pelo site sempre quando tenho tempo estou aqui procurando novidades gosto muito dessas materias sou admirador mais uma vez parabéns

Alessandro · 8 de janeiro de 2018 às 21:41

E verdade faz sentido, eu que me não atentei aos fatos conheci o site agora e bem legal saber das novidades materia show de materia..

Crislaine Silva · 29 de março de 2019 às 20:49

Caro Renato, quero agradecer seu conteúdo ele foi de grande utilidade para mim , estou fazendo uma pesquisa sobre aranhas para um trabalho da faculdade , e sua matéria me ajudou muito.
Obrigada.

    Renato Pincelli · 2 de abril de 2019 às 19:31

    Crislaine,

    Fico muito contente que meu artigo tenha sido útil em seus estudos. Pode parecer clichê, mas são comentários como o seu que me incentivam a escrever tão bem (e tão frequentemente) quanto me é possível.

    Bons estudos e volte sempre que precisar.

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